Restauração: manifestação acaba com diálogo entre empresários e Domingos Bragança

Sem conflitos, com a PSP, à distância, os empresários da restauração deram a conhecer as suas preocupações no manifesto que entregaram ao presidente da Câmara. Haverá mais diálogo em breve.


Chegavam de cadeira, na mão, com uma folha A4, onde estava escrito o nome do seu estabelecimento e o número de empregados que nele trabalham, ao Largo José Maria Gomes, defronte do edifício da Câmara Municipal, depois das 15h. Se fosse em Agosto, à noite, e noutro local da cidade qualquer, diríamos que aqueles homens e mulheres, procuravam um sítio para ver a Marcha Gualteriana.

Quiseram demonstrar, contudo, um espírito de classe forte, numa manifestação sem barulhos, conscientes de que o silêncio também fala. Não tinham mais a quem exporem a sua situação, aflitiva, de um negócio dependente de vários factores e que a pandemia tornou ainda mais inseguro.

O protesto à porta do governo municipal tinha, porém, um propósito: reclamar a atenção dos autarcas e exigir-lhes parte das soluções para atenuar os efeitos da crise. Tinham um manifesto com as suas reivindicações. Não o leram mas entregaram-no em papel ao presidente da Câmara, entretanto, saído do seu gabinete e que ouviu os lamentos de quem trabalha na restauração em Guimarães.

© GA!

Ricardo Silva, presidente da Associação Vimaranense de Hotelaria (AVH), ia falando para os jornalistas, explicando que desde o encerramento, em Março, a actividade de restauração até à sua reabertura com restrições fortes, o sector apenas se adaptou à crise sanitária – da qual os comerciantes foram agentes de saúde pública – e às regras fixadas pela Direcção Geral de Saúde (DGS) que “foram uma preocupação constante”. Sustenta que não conhece nenhuma medida da Câmara Municipal com forte impacto no seu negócio e lamentam a falta de diálogo, de modo a coordenar acções que pudessem minimizar o embaraço sério dos efeitos da Covid-19.

Domingos Bragança ainda não tinha chegado ao largo onde se encontravam homens e mulheres da restauração vimaranense, e o presidente da AVH falava de “inércia completa e passividade” da autarquia perante o sector.

Porque em causa estava a sobrevivência de muitas famílias, a AVH queria que a Câmara adoptasse medidas próprias e não apenas as que foram tomadas a nível nacional, pelo governo, ou internacional por várias entidades.

Havia vários exemplos para “adaptar a Guimarães” e Ricardo Silva deixava perceber que os comerciantes reconheciam “a necessidade de se reinventar” o negócio.

Ao mesmo tempo, um corta vento chegou ao Largo, montado mesmo ali para servir de exemplo, um quadrado de vidro, pintado de verde, que se mantinha de pé, preso a dois suportes, exemplificando como se podia adaptar nos estabelecimentos e mesmo nos do centro histórico.

“Foi com espanto que vimos a DSUA – Divisão dos Serviços Urbanos e Ambiente – indeferir a nossa pretensão, com alegações que nos incomodaram”, disse o presidente da AVH. E explica: “na justificação para o indeferimento a DSUA argumenta que a Covid-19 não é desculpa para tudo e que os comerciantes querem matar a galinha dos ovos de ouro” quando apenas desejam “tornar ainda mais seguras as suas esplanadas, alargando-as e protegendo os nossos clientes, numa solução excepcional” que se adoptará “tempos excepcionais”.

Noutro âmbito, Ricardo Silva pediu benefícios fiscais associados ao alargamento de esplanadas para 2021 e a definição de uma estratégia de comunicação para incentivar as pessoas a visitarem Guimarães. No fundo, os comerciantes de restauração querem que “a Câmara assuma o papel de parceiro facilitador”, das soluções que vierem a ser encontradas, por consenso e diálogo, entre o Município e os empresários da restauração e bebidas.

“O diálogo foi promovido por nós mas começamos a notar decisões que bloqueavam as acções” – repetiu o presidente da associação, ligeiramente indignado por não poder falar com alguém da municipalidade.

Sem dramatizar mas consciente da realidade que se vai vendo por aí, Ricardo Silva convida um passeio pela cidade para se sentir que “o movimento nos estabelecimentos é quase nulo”, facto que justifica plenamente “um abaixamento de receitas, pelos empresários da restauração que se sentem desamparados”.

Bragança: é possível o recolher obrigatório em Guimarães

O presidente da Câmara juntou-se aos manifestantes e recebeu da AVH o manifesto em que os comerciantes dão conta das suas pretensões.

Disponibilizando-se para uma reunião conjunta, com técnicos do Município, Domingos Bragança disse que ia ler o documento e ver “no que podemos corresponder às vossas expectativas”. Ao mesmo tempo informava que o nível de pessoas infectadas é muito elevado e preocupante, disse que “a situação em Guimarães é muito má”.

Prometeu “um olhar excepcional e temporário”, para algumas situações, evidenciando que a divisão do Centro Histórico terá de encontrar “versatilidade e flexibilidade em algumas soluções que possam vir a ser implementadas”.

O presidente teve de ouvir alguns desabafos “nas próximas eleições, vamos ver” – dizia José Silva, enquanto se ouvia, mais longe, “ditadura” perante um novo confinamento, ou até de que “não há nenhum político que tenha morrido da Covid-19”.

Apesar destas palavras o ambiente não se alterou e outros comerciantes sugeriam a Domingos Bragança que “pequenos eventos podiam trazer visitantes a Guimarães”, nomeadamente “espanhóis” em situações de fim de semana.

Nuno Castro, lembrava ao presidente da Câmara que “cada cadeira, representava um empresário de restauração, o que equivalia a 150 mil euros, por ano, de impostos directos”.

Enquanto admitia que existiam situações complicadas entre os empresários do sector, o presidente ouvia exemplos de Municípios que haviam adoptado medidas no âmbito da redução de preços da água, outros implicavam a EDP por “à falta de pagamento de uma factura, enviar logo de imediato o aviso de corte”, algo incompreensível num cenário em que há pressões sobre a tesouraria destes estabelecimentos.

“Há sérios riscos – disse uma empresária – de não ter dinheiro para pagar encargos nos próximos três meses”.

No final do encontro entre proprietários da restauração e o presidente da Câmara, todos reconheceram que “os homens e mulheres do sector estão à beira de um ataque de nervos”, e compreenderam-se mutuamente por o momento ser “de uma casa onde não há pão todos berram e ninguém tem razão”.

© 2020 Guimarães, agora!

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