Canto Lírico: festival tornou-se caminhada e sinfonia em sol menor

Por vezes, há oportunidades que se perdem, espectáculos que sendo simples se tornam exemplares, são fonte de inspiração e momentos fortes de cultura. Basta que se deixe o movimento associativo respirar…


Sábado, 18 de Setembro de 2021… Não era uma tarde qualquer…

Quem chegou à cidade, cerca das 16 horas, ali pelo Toural, sentia o efeito de um sol menor, aprazível, que abençoava as caminhadas de pais e filhos, entretidos, no gozo de um dia de descanso.

Era um dia de liberdade, sem amarras, em que o prazer do ar livre, do bom tempo, estimulava as relações e o convívio familiar.

Mas, havia, música no ar, espalhada pelo ligeiro vento que ia soprando para cobrir a tarde, com um aspecto mais outonal.

Sentiu-se ali, então, uma cidade viva, com a lotação adequada para se desfrutar, não apenas dos altos e baixos do relevo dos jardins e praças, dos passeios, animada por gente de todas as idades.

E se a cidade central era isso mesmo, o exemplo de um bom local familiar e ameno, na cidade escondida, velha pelo tempo, fria pelo estreitar de passeios e pequenas ruelas, com sol em apenas parte do seu trajecto, carregada de uma história e de um património industrial quase perdido, sentia-se um frenesim cultural, participado e partilhado.

Grupos de amigos, famílias, simples transeuntes, cidadãos para quem a música é algo da sua vida, entretinham-se com a sua avidez cultural de escutar Schubert, e uns quantos imortais clássicos, pela sua obra musical.

📸 Direitos Reservados

O que se notava, desta deslumbrante experiência era um correria, em pequenos passos musicais, que respondia a um apelo de ver e ouvir intérpretes de música também chamada de lírica, nos locais mais recônditos da urbe afonsina.

Dir-se-á que os clássicos vestiram-se para ir à cidade industrial mais antiga, hoje, tornada património, que marca e distingue Guimarães para além das suas utopias, e do seu encanto rural que ainda se nota, por entre muros e caminhos de pedra, por vezes ladeados de cursos de água, nem sempre bem tratados, por uma civilização que nos marca.

Nesta caminhada, quase frenética, sinfónica, em sol menor ou maior, a orquestra foi retalhada e repartida em pequenos núcleos musicais porque como orquestra só funcionou apenas em memória, de quem andou de um lado para o outro, subiu e desceu caminhos que nos levaram de uma ponta a outra, nesta cidade medieval, por vezes, mas querida por muitos.

O tempo, de sol ameno, convidativo a pequenos passeios, a meio da tarde, só não proporcionou fruição maior dos bens culturais expostos naquele festival de canto lírico, porque numa hora é impossível ver tudo e gozar o prazer de um pequeno episódio de “Dino e Eneias” de Purcell e logo a seguir se centrar, na rua do Montinho, entre casas e carros, ouvindo Schubert, pela solista Isabel Soares.

📸 Direitos Reservados

De facto, num mundo musical tão diverso, cheio de acordes, lidos e interpretados com as claves de inúmeras partituras, por intérpretes ciosos das suas opções instrumentais, ressurgia a paisagem, entre os amarelos das fachadas de casas com história familiar, dos castanhos de varandas em ferro e em madeira, o verde de pequena vegetação rasteira e até o cinzento da pedra comida e calcorreada por gente de uma cidade emergente.

Neste mundo de ilusão em que a música absorve a paisagem, as pessoas se apropriam do ambiente, cultural e musical, o Festival de Canto Lírico assumiu-se como coisa perdida e desperdiçada para alguns – muitos – e como um bem inestimável para quem o viveu, por dentro, ao sol ou à sombra, a escutar Bizet ou Handel, Mozart e tantos outros que tornaram a música memorável. E de fruição natural e cultural.

O dia de Sábado, 18 de um Setembro, amigo e ameno, de sol, céu azul, de uma ligeira brisa, acabou por ser uma experiência de sentir e guardar, e um espectáculo ambulante, de qualidade, que distingue o movimento associativo, mais propenso a fazer coisas boas e bonitas e sem meios, do que aqueles que esbanjam recursos em iniciativas que passam ao lado do cidadão menos comum, ainda que seja cartão de visita de uma elite cultural que faz gáudio dos seus conhecimentos e dos seus gostos.

A Associação Artística Vimaranense animou a cidade com esta iniciativa que aporta valor, evidencia a cultura, acentua a qualidade de vida e mostra Guimarães igual a si mesma, nua e vestida de trajes menores, ou quanto clássica, turística e cosmopolita, monumental. Uma cidade que mostrando-se aberta, torna-se criativa, despindo-se de preconceitos e apresenta-se como espaço e território que todos envolve, sem amarras ou cordas que lhe tolhem a pujança e criatividade, o vigor e o fulgor.

© 2021 Guimarães, agora!


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