Sete mil amigos

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Há uns anos, numa reunião de acompanhamento de uma mobilidade Erasmus+, um aluno dizia-me, quando lhe perguntei sobre o envolvimento na comunidade local, que dos 15000 habitantes da povoação onde se encontrava, na região de La Rioja, Espanha, pelo menos 7000 eram seus amigos. Pode, ou não, ter exagerado! Mas percebi o que queria dizer: tinha partido para uma cidade e um país estranhos e sentia-se, agora, num sítio cheio de gente com nome, cara e história e com quem podia contar.

Lembro-me do Pedro, chamemos-lhe assim, muitas vezes, porque aquela frase resume melhor do que qualquer documento oficial o que o Erasmus+ pode fazer. O programa nasceu em 1987 e assenta numa ideia que, nove anos depois, o relatório coordenado por Jacques Delors para a UNESCO pôs entre os quatro pilares da educação: aprender a viver juntos. E aprender a viver juntos começa por descobrir o outro.

Tive oportunidade de viajar em família, e viajar abre-nos horizontes. Mas o Erasmus+ é outra coisa, muito para além da viagem. Não vamos aos restaurantes turísticos: quem nos recebe leva-nos aos sítios onde também come. Os alunos trabalham em empresas locais, aprendem com quem lá trabalha, ficam a conversar no fim do dia, fazem compras no supermercado do bairro. Os professores trocam ideias com outros professores e, muitas vezes, conhecem as suas famílias. Somos e sentimo-nos mais do que turistas de passagem. Sentimo-nos parte.

Hoje, depois de alguns anos no Erasmus+, a Alemanha deixou de ser a Alexanderplatz ou o Pergamon: a Alemanha é a Manuela, parceira e amiga. Adoro Bruxelas e Antuérpia, mas a Bélgica, para mim, é o Ben e a Johanna, meus parceiros, meus amigos, ou o Robby e o Erwin, tutores dos meus alunos há alguns anos. Ainda há pouco dei por mim a acompanhar com inquietação as eleições na Sérvia, um país onde estive recentemente e onde me senti totalmente acolhida. Os países ganham rostos, sorrisos, ideias, projetos. E o que lhes acontece passa a acontecer-nos também.

“Nas redes sociais, algoritmos selecionam grande parte do que os jovens veem, privilegiando frequentemente o que choca, indigna ou divide.”

Só que esta aproximação entre pessoas acontece num tempo em que outros mecanismos parecem favorecer o afastamento. Nas redes sociais, algoritmos selecionam grande parte do que os jovens veem, privilegiando frequentemente o que choca, indigna ou divide. O discurso de ódio ao outro tem aí terreno fértil.

A contradição impressiona-me. Nas redes, o outro pode perder o nome, a cara e a história: torna-se uma categoria. E odiar uma categoria é fácil. No Erasmus+, acontece o contrário. A pessoa, mesmo vivendo longe, passa a ter uma voz, uma família, uma forma de viver que conhecemos e partilhamos. Conhecer alguém não apaga as nossas diferenças, mas torna mais difícil reduzi-lo a uma caricatura ou desconfiar dele só por ser estrangeiro. Pertencer à mesma Europa não significa sermos iguais, mas termos valores em comum e reconhecermos um lugar para todos.

Esta é uma forma de construir e manter a paz. Sem desvalorizar os tratados e acordos entre Estados, é no encontro entre pessoas que ela começa. O Erasmus+ sozinho não garante a paz, seria ingénuo afirmar isso, mas cria milhares de oportunidades para aproximar os europeus e quem escolhe a Europa para viver.

Dos 7000 amigos do Pedro, não sei quantos lhe restam. Mas acredito que nunca mais olhou para aquela cidade espanhola como um lugar estranho ou para os espanhóis e todos os que lá vivem como estrangeiros. E é muito mais difícil transformar em inimigo alguém a quem já chamámos amigo.

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