São Mamede, 900 anos o dia que nasceu Portugal

Data:

Há datas que pertencem à História. E há datas que pertencem à alma de um povo. 24 de junho de 1128 é uma dessas datas. É, para nós, o Dia Um de Portugal. É a data que queremos recordar como a primeira tarde portuguesa.

Foi nesse dia, em São Mamede, em Guimarães, que D. Afonso Henriques se afirmou perante as forças de D. Teresa e dos seus aliados. Foi nesse confronto que se abriu uma nova etapa no percurso político do território portucalense e na caminhada que haveria de conduzir à formação do Reino de Portugal.

Portugal, enquanto realidade política e reino independente, não nasceu num único instante. A História não se constrói por decreto nem por uma única batalha. Foi um longo processo, feito de acontecimentos, decisões, alianças, confrontos, reconhecimentos e gerações. Mas há dias que mudam o curso da História. E São Mamede é um desses dias.

Por isso, quando em 2028 celebrarmos os 900 anos da Batalha de São Mamede, não estaremos apenas a assinalar nove séculos de uma batalha medieval. Estaremos a assinalar 900 anos daquela que podemos legitimamente evocar como a primeira tarde portuguesa. E, nesse sentido, 24 de junho de 1128 é o nosso Dia Um.

A primeira tarde portuguesa

A expressão não é apenas uma imagem literária de um historiador. Quando falamos na “primeira tarde portuguesa”, estamos a evocar o momento em que, em Guimarães, a liderança de Afonso Henriques ganhou uma nova dimensão e se abriu uma etapa decisiva na construção da autonomia política do território que viria a ser Portugal.

É uma expressão que tem força porque transforma uma data distante em memória viva. 24 de junho deixa de ser apenas uma data medieval. Passa a ser uma data que interpela os portugueses de hoje.

É a tarde em que olhamos para trás e vemos o princípio de uma caminhada. É a tarde em que Guimarães se transforma, na nossa memória histórica, num dos lugares fundamentais da formação de Portugal. É a tarde em que a figura de Afonso Henriques emerge como protagonista de uma epopeia que haveria de atravessar séculos.

E é por isso que, quando chegarmos a 24 de junho de 2028, devemos saber exatamente o que estamos a celebrar. Não apenas 900 anos de uma batalha, mas 900 anos de memória portuguesa.

“Foi aqui que nasceu Portugal”

O Presidente do Município de Guimarães, Dr. Ricardo Araújo, sintetizou esta dimensão histórica no contexto da ‘Primeira Marcha a Cavalo D. Afonso Henriques’, ao afirmar: “Vamos celebrar, em 2028, os 900 anos da Batalha de São Mamede, daquele que foi o dia fundador do nosso país. Foi aqui que nasceu Portugal, foi aqui a primeira tarde portuguesa, foi aqui que Afonso Henriques, o nosso rei fundador, deu início à epopeia que mais tarde deu criação ao nosso país”.

Há, nestas palavras, uma expressão que merece ser sublinhada: “Foi aqui a primeira tarde portuguesa.” É uma expressão de enorme força simbólica. E é precisamente essa memória que devemos levar para 2028. Porque se o Dia Um representa o início de uma caminhada, a primeira tarde portuguesa representa o momento em que essa caminhada começou a ganhar forma perante os acontecimentos.

São Mamede deve ser explicado aos portugueses com rigor histórico, mas também com a consciência de que as nações vivem de referências, de símbolos e de memórias partilhadas.

Guimarães e a palavra de D. Maria II

Existe ainda outro testemunho que não pode ser esquecido. Quando a Rainha D. Maria II, em 1853, elevou Guimarães à categoria de cidade, a Carta Régia invocou expressamente a sua importância histórica. Nela se lê que Guimarães havia sido: “O berço da Monarchia, e assento da primeira Côrte dos Reis Portuguezes, onde nasceu e foi baptizado o poderoso Dom Affonso Henriques”.

Não podemos transportar automaticamente uma afirmação do século XIX para o século XII como se fosse uma fonte contemporânea dos acontecimentos. A História exige esse cuidado.

Mas também não podemos ignorar o enorme significado de uma Carta oficial da Rainha de Portugal afirmar Guimarães como berço da Monarquia e identificar ali o nascimento e batismo de D. Afonso Henriques. É uma peça da memória institucional portuguesa. É um testemunho de como a própria Coroa, séculos depois dos acontecimentos, reconhecia o lugar de Guimarães na narrativa das origens da Monarquia. E essa memória chegou até nós. Cabe-nos agora transmiti-la.

São Mamede merece Portugal

Como dirigente da Associação Veteranos Lanceiros de Portugal, não consigo olhar para esta efeméride como uma simples celebração histórica. Para quem vive a cultura militar e conhece o valor da memória, uma batalha nunca é apenas uma data.

Atrás de cada batalha estão homens. Estão decisões. Estão sacrifícios. Está uma geração. E, muitas vezes, está uma mudança no curso da História.

“Em 2028, Portugal deve estar em Guimarães. As Forças Armadas devem estar em Guimarães. As escolas devem estar em Guimarães. As universidades, os historiadores, os museus, as associações e os cidadãos devem estar em Guimarães.”

São Mamede merece, por isso, uma comemoração à dimensão da sua importância histórica. Em 2028, Portugal deve estar em Guimarães. As Forças Armadas devem estar em Guimarães. As escolas devem estar em Guimarães. As universidades, os historiadores, os museus, as associações e os cidadãos devem estar em Guimarães. Porque 24 de junho não é apenas uma data de Guimarães. É uma data da História de Portugal.

Não tenhamos medo da nossa História

Há quem confunda patriotismo com ausência de espírito crítico. Não é assim.

Podemos estudar criticamente a História e, simultaneamente, respeitar a nossa identidade. Podemos reconhecer a complexidade da formação de Portugal e, simultaneamente, celebrar São Mamede. Podemos discutir fontes, interpretações e tradições historiográficas sem apagar aquilo que a memória coletiva portuguesa conservou durante séculos.

Patriotismo não é desconhecimento. É conhecimento acompanhado de responsabilidade. É saber de onde viemos. É respeitar quem nos antecedeu. É compreender os erros e as conquistas das gerações anteriores. E é ter consciência de que recebemos uma herança que não nos pertence apenas a nós. Temos de a entregar às gerações futuras.

24 de Junho de 2028

Quando chegar o dia 24 de junho de 2028, estaremos perante uma oportunidade que não se repetirá. Serão 900 anos. Novecentos anos desde São Mamede. Novecentos anos desde aquele dia que podemos evocar como o Dia Um de Portugal. Novecentos anos desde aquela que, na expressão do Presidente do Município de Guimarães, foi “a primeira tarde portuguesa”.

Nesse dia, devemos lembrar Afonso Henriques. Devemos lembrar D. Teresa. Devemos lembrar os homens que combateram. Devemos recordar o contexto histórico.

Mas devemos também olhar para aquilo que veio depois. A formação do Reino. A afirmação de Portugal. A consolidação das fronteiras. A expansão da língua e da cultura portuguesas. A construção de uma História que atravessou séculos e continentes. Tudo isso começou por etapas. Mas São Mamede foi uma dessas etapas decisivas.

O nosso dever

Daqui a cem anos, nenhum de nós estará aqui. Mas Portugal estará. E alguém, nessa altura, perguntará: “O que fizeram os portugueses de 2028 quando chegaram aos 900 anos de São Mamede?”

A resposta não pode ser que deixámos passar a data. Temos de poder responder que a estudámos. Que a celebrámos. Que a transmitimos. Que ensinamos aos nossos filhos quem foi Afonso Henriques. Que explicamos aos nossos jovens por que razão Guimarães ocupa um lugar tão singular na História nacional. E que compreendemos que uma Pátria não vive apenas dos seus monumentos ou dos seus documentos.

Vive da memória daqueles que a construíram e da vontade daqueles que a continuam. Por isso, para mim, enquanto português e enquanto dirigente da Associação de Veteranos Lanceiros de Portugal, a mensagem é simples:

  • 24 de junho de 1128 – Dia Um de Portugal;
  • São Mamede – 900 anos de História;
  • Guimarães – a primeira tarde portuguesa.

E, perante tudo isto, uma certeza deve permanecer: A História não é propriedade dos mortos. É o legado que os vivos têm a obrigação de não deixar morrer.

© 2026 Guimarães, agora!


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