Aumento do custo de vida: a culpa é do mundo, mas também é nossa

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Há uma pergunta que se tornou cada vez mais comum entre as famílias portuguesas: como é possível trabalhar, receber um salário e, ainda assim, sentir que todos os meses sobra menos dinheiro?

Parece que andamos em crise desde sempre, já não existe na nossa memória um tempo onde a vida nao conhecia essa palavra. Contudo, nos últimos anos, ir ao supermercado custa cada vez mais. Arrendar ou comprar uma casa tornou-se mais difícil. A prestação do crédito pesa no orçamento. A eletricidade, os combustíveis, os restaurantes e tantos outros serviços ocupam uma fatia cada vez maior do rendimento disponível.

E, perante esta realidade, é fácil procurar um culpado.

Podemos apontar para a guerra, para a inflação internacional, para os preços da energia ou para as decisões tomadas fora das nossas fronteiras. E, em parte, com razão. Portugal é uma economia aberta e não vive isolado do que acontece no mundo.

Mas há uma segunda parte da história que é menos confortável. Nem tudo o que torna a vida cara em Portugal acontece lá fora.

O que acontece no mundo também pesa

Nos últimos anos, assistimos a uma sucessão de acontecimentos que tiveram impacto direto no preço de muitos bens e serviços: a pandemia, problemas nas cadeias de abastecimento, a guerra na Ucrânia, guerras no médio Oriente, o aumento dos custos energéticos e alterações nas condições financeiras internacionais.

Tudo isto chegou às famílias portuguesas. Quando aumenta o custo de produzir e transportar um produto, é inevitável que parte desse aumento acabe refletida no preço final. Quando a energia fica mais cara, não aumenta apenas a conta da eletricidade: aumentam também os custos das empresas que produzem, transportam e vendem praticamente tudo aquilo que consumimos.

Seria, por isso, errado fingir que Portugal controla todas as variáveis que determinam o custo de vida.

O problema antigo português

Portugal tem uma dificuldade estrutural: produzimos pouco valor para aquilo que queremos pagar.

Segundo a OCDE, a produtividade do trabalho em Portugal continua significativamente abaixo da média da organização. Isto pode parecer uma questão distante, reservada a economistas. Não é.

Produtividade significa, de forma muito simples, quanto valor conseguimos criar através do nosso trabalho. Uma economia mais produtiva consegue pagar salários mais elevados sem transformar automaticamente esses aumentos em preços mais elevados.

Imaginemos duas empresas de construção. Uma portuguesa e outra de um país mais produtivo. Ambas têm dez trabalhadores, utilizam equipamento semelhante e trabalham durante o mesmo número de horas. Se uma consegue construir mais casas, ou fazer o mesmo trabalho em menos tempo, consegue gerar mais receita com os mesmos recursos. Essa empresa terá maior capacidade para pagar salários mais elevados, investir em melhores equipamentos e contratar mais pessoas.

É isto que significa produtividade. Não é trabalhar mais horas. É conseguir produzir mais valor com o mesmo trabalho e os mesmos recursos.

Se queremos que os portugueses ganhem mais, precisamos de empresas mais produtivas, mais investimento, mais inovação, mais tecnologia, melhor formação e condições para que as empresas possam crescer.

O novo problema português

Se existe uma área onde a realidade portuguesa tem piorado particularmente de forma evidente, é a habitação. Os preços das casas continuam a aumentar a um ritmo muito elevado. No segundo trimestre de 2026, os preços da habitação em Portugal aumentaram 16,5% face ao mesmo período do ano anterior.

Para quem já comprou casa há muitos anos, este número pode parecer apenas uma estatística. Para um jovem que procura a primeira casa, não é.

É a diferença entre conseguir comprar ou continuar a arrendar. É a diferença entre viver em Guimarães ou procurar cada vez mais longe. É a diferença entre conseguir constituir família ou adiar esse projeto.

E aqui não podemos simplesmente culpar os mercados internacionais. Portugal tem um problema de oferta.

Construir é demasiado difícil, demasiado lento e demasiado caro. Há processos administrativos complexos, licenciamento demorado, regras urbanísticas, custos fiscais e uma enorme incerteza sobre quanto tempo demora colocar uma casa no mercado.

“Existem problemas que vêm de fora e existem problemas que nós próprios criámos.”

Quando temos poucas casas disponíveis e muitas pessoas à procura, o resultado é previsível: os preços sobem. Então, de quem é a culpa? Existem problemas que vêm de fora e existem problemas que nós próprios criámos.

Não controlamos uma guerra no outro lado da Europa. Não controlamos o preço internacional do petróleo. Não controlamos todas as decisões do Banco Central Europeu.

Mas controlamos a burocracia que criamos. Controlamos a forma como tributamos o trabalho. Controlamos as burocracias que colocamos ao setor da construção. Controlamos a eficiência da Administração Pública. Controlamos a forma como gastamos o dinheiro dos contribuintes.

Trabalhar, pagar impostos, distribuir subsídios

Segundo a OCDE, em 2025 a carga fiscal sobre o trabalho de um trabalhador solteiro com salário médio representava 39,3% do custo total suportado pelo empregador, acima da média da OCDE.

Quando uma empresa paga pelo trabalho de uma pessoa, uma parte significativa desse custo não chega ao trabalhador. Existe IRS, existem contribuições para a Segurança Social e existem outros encargos associados ao trabalho. Depois, quando esse trabalhador utiliza o rendimento que recebeu, volta a pagar impostos sobre aquilo que compra, desde o IVA até aos impostos específicos sobre determinados produtos.

Veja-se o caso de quem precisa do automóvel para trabalhar. Ao abastecer, não está apenas a pagar o combustível. Está também a suportar uma carga fiscal significativa através do ISP e do IVA. E o mesmo acontece quando paga uma refeição, compra roupa, contrata um serviço ou paga uma conta de eletricidade.

É esta acumulação que muitas vezes desaparece do debate sobre o poder de compra. Não basta perguntar quanto é que uma pessoa ganha. É preciso perguntar quanto é que, depois de todos os impostos, consegue efetivamente ter na “mão”.

E mesmo depois de pagar as suas despesas, a tributação não termina necessariamente aí. Se um trabalhador conseguir colocar algum dinheiro de lado todos os meses, os juros que obtenha numa poupança são, em regra, considerados rendimentos de capitais e sujeitos a tributação de 28%.

Ou seja: o Estado tributa uma pessoa quando esta trabalha, volta a tributar quando essa pessoa consome e pode voltar a tributar quando essa mesma pessoa consegue poupar e obter algum rendimento dessa poupança.

Uma política preocupada com o poder de compra deveria garantir que quem trabalha não deve ser penalizado por isso. Quem vai comprar bens de primeira necessidade não deve suportar uma carga fiscal excessiva. E quem consegue poupar não deveria ser desencorajado de o fazer.

Perante cada aumento de preços, o que vemos, ao invés, é uma resposta política aparentemente simples: criar um subsídio. A renda aumenta, cria-se um apoio à renda. A energia aumenta, cria-se um subsídio. Os alimentos aumentam, reduz-se temporariamente um imposto. Os salários são baixos, aumenta-se o salário mínimo.

Algumas destas medidas podem ser justificadas em situações concretas e para proteger quem está em maior dificuldade. Mas não podem ser a estratégia económica de um país. Se todos os anos precisamos de criar novos apoios para compensar novos aumentos do custo de vida, estamos a tratar os sintomas e não a resolver o problema pois para pagar esses subsídios é preciso subir ou criar mais impostos. É um ciclo sem fim.

Um país verdadeiramente próspero não é aquele onde o Estado consegue distribuir mais apoios. É aquele onde uma pessoa que trabalha consegue pagar a sua casa, alimentar a sua família, ter algum lazer, poupar e construir um futuro sem depender permanentemente de uma compensação do Estado.

Conclusões

Devido à nossa pequena dimensão no palco global, não conseguimos alterar a conjuntura internacional, mas podemos mudar Portugal. A realidade internacional continuará a trazer desafios. Haverá novas crises, novas guerras, novas alterações nos preços da energia e novas perturbações económicas que vão sempre ter impacto sobre nós.

Portugal não pode impedir que essas coisas aconteçam. Mas pode decidir como reage a elas.

Pode escolher uma economia mais flexível ou mais burocrática. Pode escolher facilitar ou dificultar a construção de habitação. Pode escolher penalizar ou incentivar o trabalho. Pode escolher aumentar continuamente impostos ou procurar formas de deixar mais rendimento nas mãos de quem trabalha.

É por isso que, quando olhamos para o aumento do custo de vida, a resposta não deve ser simplesmente apontar o dedo ao que acontece lá fora. A culpa é, em parte, do que acontece no mundo.

Mas também é nossa.

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