Reportagem
Ricardo Araújo fez um sublinhado político, mais do que institucional, à primeira visita do novo Presidente da República a Guimarães. Mas foi mais além, vincou a origem da portugalidade e afirmou São Mamede como ‘Dia UM de Portugal’, definiu a Capital Verde Europeia (CVE) como um compromisso e deu ênfase a Guimarães como cidade do futuro.
Em 1.850 palavras, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães começou por interpretar “os primeiros gestos e a linguagem própria” do Presidente da República que “revelam prioridades, sugerem visão, definem um estilo de presença no país” e no ano da CVE 2026 “é um gesto que muito nos honra mas interpela e responsabiliza”.
E foi mais concreto: “É um sinal de atenção ao território, de proximidade à vida concreta das comunidades e do reconhecimento de que Portugal se faz, não apenas a partir dos seus centros de decisão, mas igualmente a partir das cidades e concelhos que pensam, trabalham, inovam e servem o país”.
Disse, também, sentir “neste encontro entre Belém e Guimarães, bem mais que uma visita institucional. Sentimos, um diálogo entre duas responsabilidades: a de quem representa a República e a de uma cidade que guarda e valoriza, como poucas, o seu momento fundador”.
Nesta visita especial, Ricardo Araújo quis afirmar a portugalidade ao citar António Lobo Antunes que “engrandeceu a consciência do muito que nos deixou”, ao dizer “Quero morrer em Portugal” e “Este é o meu país”.
“Valorizar Portugal não é apenas exaltá-lo, é merecê-lo, torná-lo mais justo, mais culto, verde, ecológico, mais preparado, próximo e confiante.”
E ao receber António José Seguro, o presidente da Câmara disse que “esse legado nos interpela”, pois, “valorizar Portugal não é apenas exaltá-lo, é merecê-lo, torná-lo mais justo, mais culto, verde, ecológico, mais preparado, próximo e confiante”.
Depois de sustentar que Guimarães “é uma terra que não se limita a recordar a história e se sente obrigada a estar à altura dela”, Ricardo Araújo recordou que se “há cidades que têm passado, Guimarães tem origem”.
E identificou essa origem numa “responsabilidade mais exigente”, “carregar uma memória gloriosa mas um legado fundador” e saber que “neste território se adensou um dos momentos decisivos da vontade portuguesa”.
E vincou: “Quando pronunciamos o nome de Guimarães, não evocamos apenas um lugar no mapa mas antes evocamos um ponto matricial da nossa consciência nacional”.
Justificou, a seguir, porque “São Mamede ocupa, para nós, um lugar singular”. Não é um “episódio isolado”, não é “um simples objecto de exaltação histórica”, não é matéria para “celebração protocolar”.
“É o acontecimento fundador da nossa possibilidade colectiva” quando nessa batalha se “começou a afirmar a nossa alma lusitana, com uma clareza nova e uma vontade política própria”.
E, assim, justifica porque “a Batalha de São Mamede deve ser afirmada perante o país com a grandeza que lhe corresponde, como o Dia UM de Portugal”.
Ricardo Araújo salientou, depois, que “o primeiro alvor de uma construção nacional que haveria de atravessar séculos, vencer provações, reinventar-se em diferentes tempos e chegar até nós como herança, tarefa, sentido colectivo e exigência”, é dar “a São Mamede a dimensão nacional que tem”.
“Não é apropriar a História mas antes restituí-la ao seu verdadeiro alcance, não é fechar a memória num localismo satisfeito mas abri-la à consciência de todos os portugueses” – defendeu.
E rejeitou “transformar Guimarães num altar imóvel do passado”, antes desejou que São Mamede seja “um lugar vivo da inteligibilidade nacional”.
O presidente da Câmara justificou porque elevar São Mamede e espalhar a sua portugalidade intrínseca é porque “há datas que pertencem à espinha dorsal de um povo”.
E “São Mamede é essa data por excelência”. Daí que as comemorações dos seus 900 anos, em 2028, “não devem ser uma efeméride municipal ampliada mas uma grande convocação nacional: uma convocação à memória, à reflexão histórica, à consciência cívica e ao sentido de continuidade colectiva”.
Desejou ver Portugal inteiro a reconhecer São Mamede “não apenas um episódio remoto mas um momento inaugural, não uma lembrança prestigiante mas uma interrogação viva, não apenas um passado celebrado mas uma origem que continua a pedir responsabilidade ao presente”.
E daí que anteveja, nas comemorações dos 900 anos do 24 de Junho de 1128, uma proposta a Portugal de “um exercício de elevação”, onde “se reúna a história, cultura, pensamento, educação, criação artística e consciência democrática em torno de um acontecimento matricial”.
“Um ano em que o país se volte para São Mamede não por nostalgia mas por responsabilidade, não para contemplar mas para compreender.”
Deixou um propósito para estas comemorações: “Queremos que 2028 seja um ano de revisitação séria e mobilizadora da origem, um ano em que o país se volte para São Mamede não por nostalgia mas por responsabilidade, não para contemplar mas para compreender, não para repetir fórmulas mas para reencontrar fundamento”.
Noutro capítulo do seu discurso, Ricardo Araújo quis fazer a memória do futuro que quase começa com a vinda do novo Presidente da República e se conjuga com o ano da Capital Verde Europeia. Uma conjugação que não é fortuita ou acidental mas transmite “a ideia de que só honra verdadeiramente o seu passado uma comunidade que prepara o seu futuro”. E de que “não basta termos sido fundadores mas que temos, também, de ser construtores”.
Daí que a CVE seja “um compromisso com a qualidade de vida, com a sustentabilidade, com a mobilidade, com a natureza, com a inovação e ciência, a educação ambiental e a participação dos nossos cidadãos”.
E tenha a ambição de valorizar o conhecimento e tenha a sustentabilidade como “forma superior de cuidar do território e das pessoas” através do Laboratório da Paisagem.
Destacou as vantagens e o sentido da CVE, como algo que “só faz sentido se for útil aos cidadãos e melhorar a vida quotidiana”; se reforçar “a competitividade do concelho se ajudar a enfrentar desafios reais como a habitação, a mobilidade, a coesão social qualificação do espaço urbano e a preparação do território para as novas exigências ambientais e económicas”.
Referiu, também, que “a grande virtude da Capital Verde Europeia 2026” não é a de “pensar a sustentabilidade” como “adorno discursivo” mas como “uma política transversal e concreta de bem comum”. Uma exigência que passa por colocar os cidadãos no centro da transformação, mobilizar instituições e co-responsabilizar colectivamente a comunidade.
Um capítulo mais sobre as condições de contexto da cidade do futuro, que começa na ligação dos “fios da identidade contemporânea de Guimarães”, da Cidade Berço da fundação com a cidade de tempos vindouros que, “com ambição europeia, assume a responsabilidade da transição ecológica e de mais qualidade de vida para os cidadãos”.
Ou seja, o presidente da Câmara quer que Guimarães seja “uma cidade que valoriza o que recebeu, construindo o que ainda falta fazer”.
Com a ajuda e o apoio de parceiros do poder local, nomeadamente o Estado que deve reconhecer “o valor estrato ético dos seus territórios”; e de uma Presidência da República “atenta aos sinais vitais do país e disponível para conferir densidade nacional às iniciativas que verdadeiramente a merecem”.
E desejou, por fim, que a visita do Presidente da República permaneça, para além do momento protocolar, como “um encontro significativo entre a Presidência da República e uma cidade que quer continuar a servir Portugal, honrando a sua origem e construindo o seu futuro”.
Foto © Ana Rocha Nené/ PR
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