À procura de uma solução de habitação para dar a dignidade merecida às pessoas

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Reportagem

O presidente da Câmara queria reafirmar, outra vez, que a Habitação era uma prioridade do seu primeiro mandato; a Secretária de Estado da Habitação queria ver a realidade, nua e crua, da vida das pessoas nos bairros sociais.

Esta conjugação levou os dois aos Bairros Sociais da Emboladoura, em Gondar e aos da Feijoeira e Atouguia, em pleno coração da cidade, ontem à tarde.

Ricardo Araújo cumpriu a promessa de levar Patrícia Gonçalves Costa a percorrer o labirinto da habitação social em Guimarães: vendo as condições das casas, falando com os seus ocupantes, ouvindo queixas, mergulhando num mar de lamentos, de lágrimas e choros contidos e lendo as páginas do livro de reclamações que, em 45 anos, acumularam “queixas” sem fim e às quais ninguém lhes deu atenção. Sobretudo o IHRU, o mais visado nesta situação de desamparo por lhe competir a administração e a manutenção daquelas casas.

As mulheres sairam à rua, falaram com o autarca e a Secretária de Estado, tornando-se porta-vozes de um movimento sem voz institucional, a quem se promete sempre mais e mais e nada se cumpre.

Era tempo de ouvir mas melhor perceber o calvário da vida naqueles bairros por parte de cidadãos de corpo inteiro a quem não se dá a oportunidade de ter uma casa digna e confortável quanto baste. E os deixa viver amarrados a uma solução de precariedade evidente e constante como se de uma escravidão se tratasse. Apesar de poder estar cá fora e conviver com amigos e vizinhos, nos espaços comuns dos bairros, onde vai chegando a alegria e a felicidade de homens, mulheres e crianças, a verdade é que poucos querem estar dentro de casa, a não ser por mera necessidade e para dormir.

E são muitos os que por ali habitam, gente que vai envelhecendo e onde os mais novos sobrevivem. Mas é certo que aquele não é lugar para os mais idosos ou afectados por doenças, quiçá as que estão mais directamente relacionadas com uma habitação frágil, onde há mais frio e humidade do que calor.

Ninguém escondeu nada e a visita não se fez apenas por fora – olhando para a fachada dos prédios – mas por dentro, sentindo o odor de lares incomodados pelo mofo (bolor) que a humidade prega nas paredes e as tornas negras para além de irrespiráveis.

“Um conhecido no bairro”

Ricardo Araújo, como presidente da Câmara, mostrou-se como “um conhecido no bairro” – mais na zona da Feijoeira e Atouguia – que apresentava a “Senhora Secretário de Estado” como uma visitante ilustre e quem podia fazer mais pela condição de habitabilidade do bairro do que foi feito até agora.

Com um à vontade natural, o presidente da Câmara, cumprimentava pessoas, ouvia, aproximava-se, estabelecendo o equilíbrio perfeito entre quem governa e quem se sente representado na governação.

“Eu não lhe disse que a Senhora Secretária de Estado viria cá” – repetia aos moradores para firmar o cumprimento do seu compromisso de ajudar à solução e combater o problema.

Neste labirinto da habitação social, em Guimarães, a visita visou os alvos mais débeis das casas construídas para os mais necessitados, porventura, os mais antigos, a cargo do Estado e com o contributo da autarquia na cedência de terrenos.

Patrícia Gonçalves Costa desfez-se do protocolo e embrenhou-se com os moradores no percurso da vida, subindo e descendo escadas, entrando nas casas, privando com os moradores, ouvindo mais do que falando. 

Toda a indiferença do IHRU em mais de quatro décadas lhe caiu em cima, carregando as frustrações e as reclamações justas de pessoas que viveram sempre com a sua alegria quase abafada por uma solução habitacional precária pela sua construção e depois pela falta de cuidado e manutenção.

A titular da pasta da Habitação nunca revelou pressa de sair daquele labirinto e mostrou-se apta a tirar o melhor retrato da situação, mesmo quando a luz era mais fraca, embrenhando-se num mundo desconhecido com pessoas de raças diferentes, sem qualquer discriminação e sem medo. E passando por corredores e murais onde as pichagens não eram exemplo de expressão artística mas gritos e símbolos de revolta, um sinal mais, vindo dos que se acomodaram a viver nos ‘Planetas’ e que se semeavam por locais onde todos passam todos os dias. E cujas reclamações ou clamores não eram ouvidos nem atendidos mas antes expressão da revolta, a prova do desprezo e abandono, o empurrão certo para acumular tensões que levam os jovens para caminhos desviantes da sociedade instalada. E ficam como marcas de que, afinal, nos bairros sociais não há seres humanos livres e com vida digna.

Nunca se notou um qualquer azedume ou palavra mal dita e os “ciganos” foram os mais simpáticos para com o presidente da Câmara e a Secretária de Estado.

“És o melhor presidente de sempre”

Estes saudaram Ricardo Araújo, de forma, efusiva, ouvindo-se das varandas “és o maior” e “és o melhor presidente de sempre” – um elogio para quem os ouviu e não lhes virou as costas e compreende os seus problemas e compromissos, apesar de a solução dos mesmos não passar directamente pela Câmara.

Um – com o apelido de Sereno – gritou de uma janela… “ó presidente… sou eu… o cigano”. E acrescentava: “você é o melhor presidente da Câmara”. Pouco tempo depois já estava entre os moradores que se acumularam na praça de um dos bairros, enquanto algumas crianças se agitavam com a visita.

Ricardo Araújo dialogou sempre com os moradores de raça cigana. © GA!

Uma mulher subiu a uma escada, falou mais alto, virando-se para a sua habitação: “Vivo aqui com dois filhos casados – um deles dorme na sala – e vou precisar de uma casa para cada um” – dizia quando Ricardo Araújo observava que o momento era para mostrar a realidade do quotidiano no outro lado e mais acima da cidade.

A Secretária de Estado deixava-se guiar pelos cicerones da visita, um dos quais era o presidente da Junta da união de freguesias de Oliveira, São Paio e São Sebastião, munido de um mapa onde se desenhava o percurso.

Mostrar situações de maior queixa, zonas mais afectadas pela falta de manutenção, era o caminho traçado para ver a estrutura dos edifícios a rachar, nas escadas – onde faltava cimento e deixava os ferros enferrujados à vista, campainhas com fios à mostra e sem uso, portas que não funcionam como tal.

“Venham ver a minha casa, a chuva entra por todo o lado”

Na zona da Atouguia, os moradores convidavam: “Venham ver a minha casa, a chuva entra por todo o lado”. De facto a água era inimigo indesejável, vizinho e ocupante que ninguém queria dentro de casa. Os efeitos das enxurradas vindas do céu que passavam do telhado do prédio, para os corredores e escadas, quartos e salas, era a queixa mais evidente de “um abandono com 45 anos” como sublinhava um membro da comissão de moradores, habituado a presenças diversas de pessoas que viam mas não apresentavam soluções para diminuir – no mínimo – o sofrimento das pessoas que habitam casas indignas.

“Tenho a casa toda furada, a entrar água por todos os lados” – dizia uma moradora a Ricardo Araújo quando se dirigia para a ‘CASA’ – a sede onde moradores se juntam para diversas actividades sócio-culturais e aproveitamento dos tempos livres, onde havia uma biblioteca e utensílios para pintar.

Depois de Gondar, a Atouguia e a Feijoeira ficam para trás onde a água era o maior inimigo de uma vida saudável e feliz, um lar perfeito e normal, para construir e viver em família.

A água que é a nossa fonte de vida, era para aquelas bandas e bairros um inimigo estranho, silencioso, que se entranhava em todas as superfícies da casa, sem ordem de entrada, espalhando a humidade, colorindo o interior com o preto e branco, frio, desumano que tornava o lar de pessoas numa lousa onde se podia escrever ou numa tela onde se podia pintar… com as cores mais negras, a história de vida das famílias que por ali habitavam.

Uma visita deve ter sempre resultados palpáveis, depois de muitas outras feitas em tempos e calendários eleitorais. Esta foi mais séria porque foi feita fora de tempo de eleições e sem populismo à mistura. Começar, por algum lado, dar uma esperança diferente, depois de 45 anos, é o que alguns pediram à Secretária de Estado e ao presidente da Câmara.

“Vamos trabalhar” dizia Patrícia Gonçalves Costa aos pedidos dos moradores, evidenciando que a sua visita ilustre não se ficaria apenas pela fotografia, apesar da amplitude dos problemas.

Afinal, aqueles homens, mulheres, crianças – alguns envelhecem por ali – eram simples humanos, frágeis, com desejos, credores de uma vida menos agressiva que até se juntavam para cantar na sua ‘CASA’ comunitária, onde procuravam iludir o tempo de vida, num espaço de recreio, de cultura, animado por projectos de índole social…

No final da visita, ficaram o charme e a simpatia, sorrisos, fotos e selfies com pessoas crescidas e com crianças que marcam a popularidade de Ricardo Araújo naquele segmento da sociedade sem promessas ocas mas pela acção de querer mudar alguma coisa onde nada se alterou em 45 anos.

Uma responsabilidade que vai aumentar a exigência da sua influência política num governo de matriz social-democrata que não pode desperdiçar o ensejo de cumprir. E ajudar quem precisa.

© 2026 Guimarães, agora!


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