Há nove séculos, nos campos de São Mamede, Guimarães deu corpo a uma vontade: o nascimento de uma nação. Mas se em 1128 se fundou o território e a soberania, foi no embalo desta mesma terra que se moldaram os primeiros sons daquela que Fernando Pessoa chamaria, mais tarde, a sua ‘verdadeira pátria’. Não se trata apenas de romantismo histórico; é um argumento filológico irrefutável.
Se o português é hoje a casa mental de 260 milhões de seres humanos em quatro continentes, o quilómetro zero dessa construção identitária reside aqui, nas pedras e na alma da cidade berço. Ao celebrarmos os 900 anos da batalha fundacional, Guimarães tem diante de si o desafio – e a legitimidade – de se assumir não apenas como o museu do passado, mas como a capital viva e pulsante da Lusofonia.
No entanto, para que esta centralidade não se esgote na retórica dos discursos, Guimarães precisa de dar ‘corpo’ e ‘uso’ aos seus ativos mais valiosos. A Plataforma das Artes e da Criatividade, herança dourada da Capital Europeia da Cultura de 2012, é o palco natural para esta ambição. Mais do que um contentor de exposições, este edifício deve converter-se no Hub Operacional da Lusofonia – um centro vibrante de residências artísticas, conferências de economia criativa e intercâmbio literário e cultural.
Ao transformar este espaço no coração logístico e cultural da UCCLA, a cidade não só resolve o desafio da sua sustentabilidade financeira, gerando novas receitas turísticas de alto valor, como oferece à língua portuguesa a sede física que o seu berço histórico reclama por direito.
“Durante anos, os anteriores executivos municipais limitaram-se a contemplar a monumentalidade da Plataforma das Artes como quem guarda uma relíquia.”
Este desígnio exige, contudo, uma rotura com o imobilismo de quase década e meia. Durante anos, os anteriores executivos municipais limitaram-se a contemplar a monumentalidade da Plataforma das Artes como quem guarda uma relíquia, revelando uma crónica incapacidade – ou falta de vontade política – para a dotar de uma alma programática que transcendesse a efemeridade de 2012. O edifício, que deveria ser um motor de economia criativa, acabou confinado a uma existência de ‘montra silenciosa’, sobrevivendo sem a vitalidade ou a estratégia de receitas que garantissem a sua plena sustentação.
A eleição de Ricardo Araújo como vice-presidente da UCCLA e a escolha de Guimarães para a Assembleia Geral de 2027 abrem agora uma janela de oportunidade única para desfazer este nó cego: é o momento de provar que a cidade tem, finalmente, a audácia política de converter um ‘elefante dourado’ num hub vibrante de escala internacional.
O horizonte de 2028, com a celebração solene dos 900 anos da Batalha de São Mamede, não pode ser apenas uma mera exaltação do bronze e da pedra e discursos de circunstância. Deve ser, sim, o culminar de uma estratégia que devolva a Guimarães a sua centralidade histórica, desta vez como farol de um espaço lusófono que se estende por quatro continentes.
Com a Assembleia Geral da UCCLA em 2027 a servir de ensaio geral, a cidade tem o palco montado e os protagonistas eleitos para provar que o ‘Berço da Nação’ é, por direito e por visão, o ‘Berço da Língua’. Não basta ter património; é preciso ter a audácia de o rentabilizar e a inteligência de o animar. Que os 900 anos de São Mamede marquem não apenas o nascimento de um reino, mas a maturidade de uma cidade que soube, finalmente, dar vida ao seu ouro e voz ao seu destino global.
© 2026 Guimarães, agora!
Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!
Siga-nos no Facebook, X e LinkedIn.
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.


