Os espantalhos do meu quintal

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Em Portugal, todos concordamos que o crescimento económico é algo necessário. O desacordo começa quando é preciso decidir onde e como deve acontecer. De preferência, longe do nosso quintal.

O turismo cria empregos com salários baixos e pressiona a habitação. A indústria consome recursos e pode poluir. O lítio traz camiões e escavações. Os centros de dados criam poucos empregos. As energias renováveis alteram a paisagem. Na saúde e na educação, o lucro é suspeito. Se o investimento vier do estrangeiro, estamos a vender o país.

No fundo, queremos uma economia que produza sem ocupar espaço, sem consumir energia, sem utilizar recursos e que não gere lucro. Deve pagar salários altos e muitos impostos, mas sem ganhar demasiado dinheiro. Não é pedir muito.

Todos estes setores levantam problemas legítimos. O turismo pode pressionar a habitação, a exploração mineira pode causar danos ambientais e o investimento estrangeiro nem sempre deixa no país o valor que deveria. O erro, bem português, está em transformar cada problema numa razão definitiva para impedir qualquer atividade ou avanço económico.

Acabar com o turismo, por exemplo, não transforma automaticamente os seus trabalhadores em engenheiros ou investigadores. Se queremos salários mais altos, precisamos de produtividade, qualificação, investimento e empresas a competir pelos trabalhadores. Menos turistas podem significar apenas menos empregos.

Também não precisamos de escolher entre turistas e habitantes. Precisamos de construir mais habitação, acelerar licenciamentos, recuperar imóveis devolutos e estabelecer regras nas zonas de maior pressão. Um turista não é responsável por décadas de incapacidade na política de habitação.

O mesmo se aplica ao lítio. Recusar qualquer exploração em Portugal não elimina a necessidade desses recursos. Continuaremos a utilizar telemóveis, baterias e automóveis fabricados com matérias-primas extraídas noutros países, muitas vezes em condições ambientais e laborais que nunca aceitaríamos aqui.

Os buracos ficam no quintal dos outros e a nossa consciência fica limpa.

Na saúde, a existência de lucro não transforma automaticamente a atividade em algo imoral. Se o Estado contrata serviços privados, os contratos devem ser escrutinados. Mas a questão relevante é saber se o serviço era necessário, se foi bem contratado e se apresentou resultados. O interesse público não pode depender de o prestador ter ou não acionistas.

“Existem setores estratégicos que exigem cuidados especiais, mas tratar qualquer investidor internacional como uma ameaça seria particularmente prejudicial num país com falta de capital.”

Aceitar investimento estrangeiro também não é sinónimo de vender o país. Existem setores estratégicos que exigem cuidados especiais, mas tratar qualquer investidor internacional como uma ameaça seria particularmente prejudicial num país com falta de capital.

A desigualdade deve preocupar-nos, sobretudo quando resulta de privilégios, monopólios ou proximidade ao poder. Mas impedir alguém de enriquecer não melhora a vida de quem tem pouco. Devemos combater a pobreza e os privilégios, não o sucesso obtido através da inovação, do trabalho e da concorrência.

Também é errado assumir que baixar impostos implica necessariamente reduzir os salários dos médicos, polícias, professores ou enfermeiros. Qualquer descida de impostos deve ser financeiramente explicada, tal como qualquer aumento permanente da despesa pública. A responsabilidade orçamental não pode ser uma exigência reservada às propostas dos outros.

Quem rejeita o turismo, a indústria, a exploração de recursos, o investimento estrangeiro e a participação privada na economia tem o dever de explicar o que pretende colocar no seu lugar.

Não basta dizer que queremos uma economia verde, inclusiva, tecnológica e com salários altos. Tudo isso é desejável, mas são características, não são atividades económicas.

Portugal não precisa de crescer a qualquer custo. Mas também já não pode continuar a pagar todos os custos de não crescer.

Podemos encher o nosso quintal de espantalhos. Só não podemos ficar surpreendidos quando chegar a altura da colheita e não houver nada para colher.

Nem para distribuir.

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