A escola: por controlo remoto e por um clique

A comunidade estudantil trocou novamente as paredes da escola pelas de casa. Mais de 2 milhões de alunos regressaram às aulas.


O ensino à distância voltou quase um ano depois da primeira experiência em Março do ano passado. Palavras como “zoom” ou “classroom” passaram a fazer parte do vocabulário de professores e alunos, proferidas também por pais que, há 15 dias, viram outra vez a rotina virar do avesso. A essas palavras acrescentamos outra, o teletrabalho que para grande parte dos encarregados de educação não passa de teleilusão. A dificuldade aumenta quanto menor for a idade do filho em telescola (aí está outro vocábulo da moda).

Na semana passada elementos da tutela, professores e, à posteriori, pais desdobraram-se em reuniões online, trocas de emails numa tentativa de alinhar o que será o futuro eminente do processo educativo.

Os pais ficaram a saber, por exemplo, que na maioria dos casos, o horário presencial foi replicado para as aulas virtuais o que implica uma sobrecarga de horas em frente ao monitor que não é vista de bom grado, nem por encarregados de educação, nem por especialistas.

Constança Lopes, 10 anos, aluna do 5º ano da escola Santos Simões, acorda com o despertador pouco depois das 7h. Às 8.30h já está equipada em frente ao computador para a primeira aula do dia: educação física. Perante o olhar intrigado da irmã mais nova de apenas três anos, vai fazendo abdominais na sala de estar agora convertida em polivalente. Noutra divisão, a irmã mais velha, aluna do 10º ano da Martins Sarmento, vai dispondo o material para a aula síncrona que começará dali a poucos minutos.

Até o benjamim da família, com três anos, tem um plano semanal enviado pela educadora de infância. Com maior ou menor dificuldade, o objectivo é que todas as metas se alcancem, ainda que os professores tenham noção que o ensino pré-escolar é impraticável.

A casa de família tornou-se numa unidade produtiva sem espaço para a vida privada numa lógica laboral permanente excepto quando estão a dormir.

Segundo os especialistas, é cada vez mais evidente a “tragédia” para esta geração de alunos a braços com o sobressalto da pandemia e com a dificuldade de fazer planos ou criar objectivos.

O ensino à distância é tão discutível e controverso que muitos estados norte americanos simplesmente prescindiram do método.

Portugal está em fase descendente do contágio o que para muito terá contribuído o encerramento das escolas, ainda assim, e na reunião de ontem do Infarmed resultou a certeza que o ensino à distância não tem ainda fim à vista embora se saiba, também, que serão as escolas as primeiras a desconfinar, assim que possível. No melhor dos cenários, nunca antes do final do mês de Março.

“A minha sala de estar transformou-se na minha sala de aula, e o quarto do meu filho na sua”

Apesar de ser unânime que o início do ensino à distância correu sem sobressaltos, com uma ou outra dificuldade técnica ou de logística, o processo não é fácil para ninguém. O professor foi recrutado individualmente a ser ele a escola inteira quando a escola é, por excelência, um colectivo.

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Carla Oliveira, professora das disciplinas de História e Geografia e Português na escola secundária Santos Simões partilha a sua experiência, “o tempo passa a correr entre planificar a semana, encontrar materiais adequados, preparar aulas, responder a emails de pais e alunos, atender telefonemas, corrigir trabalhos e dar aulas síncronas através da plataforma Google Meet”.

Tantas tarefas que resumem apenas as obrigações profissionais. Carla é mãe e encerra em si responsabilidades parentais e a gestão familiar, “a minha sala de estar transformou-se na minha sala de aula, e o quarto do meu filho na sua. Confesso que me faz um pouco de confusão, pois gosto de ver tudo arrumadinho, mas com um computador, impressora, livros e afins em cima da mesa da sala, é um pouco difícil”, assume.

João, de oito anos, frequenta o 3º ano na EB1 do Monte-Largo. Todos os dias, às 9 horas está sentado em frente ao computador para iniciar as aulas síncronas. “Tive de lhe explicar como se liga o computador e como acede às aulas pelo Google Meet, felizmente entendeu à primeira, mas às vezes, carrega onde não deve, e lá oiço um “mãeee” e tenho de ir ao andar de cima, para o ajudar. Por vezes, é caótico”, reconhece a professora.

Carla Oliveira esteve há cerca de um mês infectada com o novo coronavírus e apesar de se ter livrado da doença sem prejuízos maiores não foi das afortunadas que não relatam sintomas, “não foi fácil”, adverte e como tal entende a necessidade do encerramento das escolas, “neste momento, temos de dar segurança aos alunos e fazê-los ver que todos juntos, vamos ultrapassar esta situação”. A docente considera que a experiência de Março e um maior planeamento permitiu corrigir erros do passado de modo a que este ensino à distância seja mais pacífico, “as coisas têm corrido relativamente bem, experienciamos esta situação em Março e as escolas estão agora melhor preparadas. Há uma maior acalmia e organização por parte de todos, reconhecendo eu, que há um grande esforço por parte dos alunos e pais, que, nesta altura, até se tornam um pouco professores. Sou da opinião, de que todos estamos a fazer o nosso papel da melhor forma que sabemos”.

Mas, não nega as dificuldades, “o desafio para mim tem sido enorme, tenho que conciliar a profissão de professora com o papel de mãe, e de dona de casa. É preciso gerir pequenos-almoços, almoços e jantares, cuidar da roupa, da casa, dos animais e ajudar o meu filho a realizar algumas das suas tarefas escolares, pois com oito anos, ainda está a desenvolver a sua autonomia e ainda precisa de muito apoio”.

“Nada substitui a realidade do toque da campainha para as aulas, das mochilas, o barulho da sala de aula, a convivência entre alunos e professores…”

Carla, como a maioria dos professores e alunos, espera que o ensino presencial volte em breve porque “nada substitui a realidade do toque da campainha para as aulas, das mochilas, o barulho da sala de aula, a convivência entre alunos e professores. Esta realidade de que sinto tanta falta, e que foi substituída pela realidade dos logins, da webcam, das fichas pelo classroom e email, e de aulas que são dadas através de ecrãs”. Ainda assim, a professora nota alguns dos benefícios da escola digital, “admito que os alunos possam adquirir competências decisivas para o seu futuro, como uma maior autonomia e responsabilidade”.

Até ao regresso, resta a transferência da realidade das práticas da escola física para a ligação de uma câmara.

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