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Guimarães
Segunda-feira, Janeiro 30, 2023
Carlos Fonseca
Carlos Fonseca
Fundador do atelier de arquitectura biológica Arquitectura Sensível, onde desenvolve projectos e productos ecológicos e saudáveis no campo da saúde na habitação. Há mais de vinte anos estuda e desenvolve competências na área da radiestesia e da geobiologia com profissionais de todo o mundo, aplicando os seus conhecimentos e métodos nas suas áreas de trabalho.

Reflexões sobre a Cidade Tradição e inovação

(…) O Paraíso, a Idade de Ouro do futuro, não pode existir e sem uma economia que garanta a liberdade. (…)

Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos, Vol. II, 2002

A importância do trabalho manual para o desenvolvimento da inteligência e da aprendizagem é, há muito um dado comprovado, sendo uma das premissas base de métodos pedagógicos inovadores como Montessori ou Waldorf, cujos princípios se baseiam no trabalho com as mãos como veículo de inteligência por isso, essencial ao trabalho intelectual. Vários estudos já demonstraram que muitas qualidades e capacidades vitais que absorvemos pelo trabalho manual se vão perdendo à medida que avançamos para a especialização, conduzindo a uma estrutura fracturada e hierarquizada do mundo laboral. Hoje, com o quadro ambiental que se apresenta é a agenda económica europeia que impõe valores de uma “economia circular” (conceito chavão para modelos seculares!) baseada na sustentabilidade, autenticidade, durabilidade e excelência da produção, qualidades do trabalho manual – valores que integram também os 17 objectivos da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável.

Nesta perspectiva, “quem sabe fazer” ocupa um papel determinante na cadeia económica entre a tradição e a inovação, o pensar e o fazer, o local e o global. Por isso, este é o momento de pensar a artesania (nas sua acepção global, de vertentes múltiplas) direccionada para o futuro – ao invés de por ela ter um sentimento nostálgico ou passadista – enquanto motor para a criação de uma nova e renovada cultura, de excelência. O elevado valor da tradição para a renovação e o desenvolvimento do design de producto e da arquitectura, vem sendo reconhecido já desde o século passado, em vários países e por várias áreas onde, à melhor artesania se juntou o melhor design, tecnologia, estética e funcionalidade originando negócios inovadores, permitindo a projecção de marcas e productos internacionalmente – como a Iittala (vidros, na Finlândia), Carl Hansen & Son (mobiliário, na Dinamarca), Auro, Claytec, Biofa (tintas, ceras, vernizes e outros revestimentos biológicos e naturais, na Alemanha), Tradical (argamassas de cal produzida em Portugal com cânhamo, em Inglaterra), Fetdeterra (blocos de terra, em Espanha). Nestas empresas, a inovação aliada à preservação do saber tradicional, das aptidões humanas, do conhecimento dos materiais, das cores, das técnicas e métodos de produção – foi essencial para a valorização da identidade e promoção da excelência e autenticidade dos productos. Por cá, o boom turístico trouxe o investimento nos centros históricos com a implementação de unidades de alojamento, precipitando a sua rápida transformação. O conhecimento tradicional que ainda há poucos anos era aplicado na sua reconstrução – e que foi determinante na classificação de Guimarães a Património Mundial pela Unesco, em 2001- tem sido desvalorizado, e cada vez mais assistimos à aplicação de materiais dasapropriados, inorgânios e estanques, como tintas plásticas, mdf, pladur, capotto, roofmate e outros, em substituição dos materiais orgânicos tradicionais como madeira, argamassas à base de cal aérea, etc. privando-nos da excelência da sua salubridade, respirabilidade e qualidade – contribuindo para o aparecimento de edifícios que, tanto na aparência como na essência, são descaracterizados. Neste ponto, a responsabilidade dos municípios é acrescida uma vez que os edifícios de promoção municipal deveriam constituir exemplos de boas práticas de construção, para quem quer bem fazer. Vivemos portanto um momento favorável para, alicerçados na experiência de longos anos e no know how dos nossos melhores operários e artesãos (estucadores, entalhadores, marceneiros, carpinteiros, etc.), darmos um passo em frente, com a integração tecnológica, desenvolvendo e testando novos materiais e modelos (estabelecendo parcerias com as universidades) para que o conhecimento e a tradição continuem vivos e actuais com a integração de novos materiais, orgânicos, duráveis, sustentáveis e compatíveis connosco.

Este posicionamento poderá, à semelhança dos exemplos citados dar origem a pequenas e médias empresas na área da construção mas também poderá animar outras áreas como o vestuário, o design do producto, etc. Enquanto muita da nossa qualificada mão de obra/artesania é “aproveitada” por agentes internacionais (neste momento, o conhecido designer de sapatos francês Christian Louboutin lança uma edição limitada de malas com tecelagens e tecidos handmade in Portugal destinadas ao mercado de luxo – com vídeo promocional realizado na Pousada de Santa Marinha da Costa), cabe-nos encontrar os nossos próprios valores protegendo-os dos efeitos negativos provocados por esta aceleração e, decidir se pretendemos ser apenas “executantes” (como os nossos melhores artesãos ceramistas que hoje vêem a sua criatividade estrangulada por grandes grupos económicos do sector turístico moldando diariamente tal qual máquinas, centenas de miniaturas de galos de Barcelos para serem vendidos aos turistas) ou se daremos um passo em frente na valorização da nossa cultura e tradição como factor de inovação, passando de uma economia dos mais fortes e da competição, para uma economia da cultura, do conhecimento, da diversidade e da cooperação. Talvez seja este o caminho para alcançar a economia da liberdade de que nos falava Agostinho da Silva.

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