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Quinta-feira, Junho 20, 2024
Betina Ruiz
Betina Ruiz
Investigadora, já desenvolveu projetos sobre a Literatura Portuguesa dos séculos XVII e XVIII, a Mexicana do séc. XVII e a Brasileira do séc. XX, professora com mais de 15 anos de experiência, biblioterapeuta dedicada a programas que procuram abranger principalmente leitores idosos e aqueles em alguma situação de vulnerabilidade, autora de textos académicos e ficcionais, pensados e criados ou em parceria com amigos e colegas ou como trabalho individual.

“Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”, já dizia Nelson Cavaquinho

Ontem comecei a ouvir falar em rituais para a passagem do ano e já tenho encontrado balanços de 2022 na comunicação social. Embora os factos sejam os factos, sei que eles podem ser olhados de frente ou de lado, conforme os queiramos entender ou apenas inventariar. Justamente na linha desta segunda opção estão os tais balanços de fim de ano, anunciados em termos de “os mais lidos”. O foco não são os factos, pois não, é antes a nossa relação com eles que, se for fraca, fraca permanecerá no final.

Salvemos alguma verdade, com calma: para que 2022 termine falta muito pouco, é certo. Ficou para trás a Copa do Mundo no Qatar, como também ficaram as numerosas notícias sobre o conflito entre Ucrânia e Rússia, a seca no verão e os alertas de tempestades no inverno, estes ainda frescos em Portugal. Houve filmes de franquias lançados nas salas de cinema, bons cantores morreram, deixando uma herança incrível, jovens bailarinos negros, como Ingrid Silva e Marcelino Sambé, ocuparam capas de revistas de moda internacionais, depois de terem alcançado notoriedade em países que privilegiam a cultura.

Será ensaiado algum esquema de sobrevivência para a TAP? Algum acordo acerca do clima?

Quanto a 2023, representantes recentemente eleitos tomarão posse do novo cargo, para horror de alguns e alívio (ou alegria) de outros. Estão previstas eleições em vários países europeus e também encontros do G7 e do G20. Será ensaiado algum esquema de sobrevivência para a TAP? Algum acordo acerca do clima? Um acordo acerca da paz? Acerca do quê?

Pessoalmente preocupa-me o que faremos com a indiferença, ela que nos cega ainda mais, sobretudo nos assuntos tidos como tabu. Assisti há dias Patch Adams, de 1998, do qual eu recordava várias passagens. O protagonista toca nesse ponto, chamando a indiferença de “mal maior”, e dizendo que ela deve ser encarada, porque é mais assustadora do que a própria morte. A indústria do entretenimento que nos deu esse filme memorável, às vezes reage à indiferença e nos sacode. Temos Maid, a minissérie de 2021, temos Anne ou Mother, série turca de 2016 feita em dois formatos, um para o mercado local da Turquia e outro para exportação. A SIC Mulher apresenta este último à noite, com áudio em espanhol e legendas. A produção tem viajado o mundo, também à custa de algumas interpretações muito bem conseguidas.

O que ainda há para dizer da violência, do posterior abandono (e o desamparo), dos traumas? Muita coisa. Até a imprensa se encarrega da tarefa! Foi por ela que eu soube que morreu Haydée Gastelú de García Buela, uma das fundadoras do movimento argentino das Mães da Praça de Maio. Foi mais do que uma nota, mas muito menos do que as intermináveis matérias à volta da vitória de Messi e companhia limitada. A conta bancária do jogador e suas conquistas não são nem serão mais relevantes do que a resistência oferecida pelas conterrâneas dele durante anos, em nome da dignidade da vida de seus filhos, desaparecidos durante uma ditadura. Mas, enfim, há o foco…

E as séries da televisão? Esta crónica serve para contar o mínimo que seja sobre Anne, a produção turca. O nada que eu conheço da televisão turca em geral não me permite defender Anne como uma parte de um todo maior, organizado, bem intencionado. A trama, no entanto, tem tantas das variantes de uma história de terror – toda história de violência doméstica é uma história de terror -, que eu não posso perder a oportunidade de escrever. Estão em discussão a maternidade, biológica ou não, a intimidade entre mães e filhas e entre irmãs, a conexão entre amigas, a atribuição de culpa à vítima, nos casos de legítima defesa e não só, as agressões a mulheres adultas e jovens, a omissão de socorro, a incompreensão por parte de mulheres familiares de agressores, a indiferença, claro, e até a admiração, nem que seja para justificar os pares românticos formados na ficção, a partir de uma mulher agredida e um homem pacífico e empático.

Resumidamente, é a história de uma professora primária substituta que fica comovida com a situação dramática de uma estudante negligenciada e começa um calvário para tê-la aos próprios cuidados. Em Maid, as peripécias da protagonista já tinham chamado a minha atenção. Em Anne, está tudo lá! Não sei se sento no meu sofá para chorar com e por Turna, a menina que vai e volta da mãe (uma viúva que se apegou ao novo namorado, truculento) para a professora, se choro com e pela Senhora Gonul, que era torturada pelo marido e esteve longos anos na prisão, ou com e pela Zeynep, a professora outrora abandonada pela mãe, a Senhora Gonul. Do mesmo modo eu estanquei no sofá quando vi mãe, filha e avó em Maid. Afoitas, baralhadas, a um passo da derrota e, ainda assim, desejosas de viver.

No final do ano, lá em meados de junho ou no início de janeiro, a violência contra as mulheres adultas e crianças assusta e não é contida como deveria. Em Portugal, na Turquia, no Brasil, no México, no Irão… Há entidades que a estudam, divulgam dados, promovem campanhas para nos educar a todos. Tornam-se conhecidas por esse trabalho? Agora, na hora daquele balanço individual, que não tem em conta o impacto nas vendas, é importante pensar no tema. De todo o sentimento que transborda nesta altura do ano (de postais, embrulhos, boa comida, encontros, abraços, chamadas telefónicas, de risos e até de lágrimas etc), seremos capazes de conceber e quase tocar uma enorme colcha de retalhos, para nos aconchegar no sofá, onde também deverão caber as mulheres vítimas de violência e da indiferença generalizada?

Não acredite em mim e na pieguice do pouco que eu escrevi sobre Turna, Gonul e Zeynep. Testemunhe. Elas estão mais cansadas do que a maioria de nós, estão descrentes, sem um método à mão para escapar até o fim, elas precisam ter lugar em nosso campo de visão e principalmente dentro de nós. 2023 será o que dele fizermos, na sala de casa e sobretudo fora dela, em grupo, com união. Um bom ano a todos!

© 2022 Guimarães, agora!


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