Filipe Fontes
Nasceu numa cidade pequena (S. João da Madeira, 1971), forma-se na cidade grande (FAUP, Porto, 1989-1995), exerce fugazmente a prática profissional liberal na cidade explodida (área metropolitana do Porto, Matosinhos, 1995-1996) e há muito trabalha sobre uma cidade média e o urbano sem limites (Guimarães e Vale do Ave, 1996-2018). Concilia a sua prática profissional no departamento de urbanismo do Município de Guimarães (atravessando todas as suas áreas – gestão urbanística, projecto e planeamento urbano) com formação académica complementar (pós graduação em cidades e desenvolvimento regional), voluntariado (pastoral prisional da diocese de Braga), escrita regular sobre questões da cidade e do território (nomeadamente em meios de comunicação social, Público e Correio do Minho) ou outras formas literárias (autor dos livros Sr. Jota e Filicidade, escritos sobre a cidade), coleccionismo e participação pública na convicção de que tudo conta, e o beneficia, enquanto homem de cidade que trabalha sobre a cidade.

Serão estes sinais do tempo em que vivemos?

Do último texto, feito primeiro desta colaboração com o “Guimarães, agora!”, o tempo permanece igual no seu compasso e velocidade, protagonista inevitável das nossas vidas, protagonista multiplicador de oportunidades e dificuldades.

Alguém diz que “há sempre três coisas” e, na cidade, reconhece-se três tempos: o tempo do investimento, o tempo administrativo e o tempo da apropriação. São três tempos que envolvem todos os actores que interagem na e sobre a cidade, que deveriam concertar e convergir na produção das boas soluções mas que, não raras as vezes, produzem situações dissonantes e divergentes, levando-nos a introduzir um quarto tempo deste “compasso urbano”: o tempo do compromisso e do equilíbrio, do balanço e síntese dos interesses em presença e produção de um consenso que atenda ao bem maior que uma cidade procura: o bem público.

O tempo do investimento é, maioritariamente, um tempo rápido e apressado, procurando-se, tantas vezes, queimar etapas, reflexão e discussão para mais velozmente alcançar a solução final, sempre rentável e útil. Quando assim é, regra geral, perde-se na reflexão sobre os objectivos a atingir relativamente à urbe, na densificação do programa funcional a responder e na caracterização dos pressupostos da intervenção, resultando, tantas e tantas vezes, debilidades e omissões na solução final alcançada que se reflectirão a jusante em contratempos e desencontros (num primeiro momento, com a administração pública; depois na obra, por fim na disponibilização à cidade). Em oposição, quando o tempo do investimento é lento, significando maior maturação e consolidação do mesmo investimento, tende-se a exigir depois (invariavelmente, à administração pública) velocidade como condensação do tempo e, assim, recuperação daquele “Tempo gasto no projecto”, voltando a significar, tantas vezes, conflitos com a administração pública.

O tempo burocrático, regra geral feito de autorizações administrativas, licenciamentos e certificações, é um tempo lento e demorado…

O tempo burocrático, regra geral feito de autorizações administrativas, licenciamentos e certificações, é um tempo lento e demorado, tantas e tantas vezes, preso e dependente de uma labiríntica teia de entidades, procedimentos e regras que, de tanto consumir tempo, energia e disponibilidade, não raras vezes, nada traduzem de positivo para o processo (ganhando, assim, uma carga pejorativa a palavra “burocracia” que, dificilmente se apagará ao longo do processo). Este é um tempo de concertação e articulação com o contexto da intervenção (sendo a administração pública aquela que melhor conhece esse contexto), tempo de afinação e acréscimo de urbanidade e cidade, tempo de melhoria… Ao ser demorado e labiríntico, perde-se a oportunidade deste tempo ser esse factor positivo, não raras as vezes, reconhecendo-se que, ganhando velocidade e resposta rápida, volta a adquirir carga pejorativa, agora pela suspeita que levanta, pelo confronto da actuação diferenciada e dissonante relativamente a tantas outras situações.

O tempo da cidade é o mais interessante e o mais exigente. É aquele onde tudo se revela e expõe, onde se “descobre” investimento, se surpreende e é surpreendido, se entusiasma e se revolta. É o tempo em que cada um de nós é confrontado com o seu papel na cidade e o seu direito e dever em participar e influenciar a vida e dinâmica da mesma cidade.

O tempo da cidade é, necessariamente, um tempo que balança entre o investimento apressado e a sua consolidação lenta no tecido urbano, requerendo paciência, compreensão, forçando mudança e ajustamento, sempre para melhor apropriação do investimento por todos aqueles que vivem a cidade. E é também um tempo de sedimentação, de absorção e acomodação, dir-se-á, “de encaixe”, numa expectativa de que, no final, nada fique igual, tudo fique melhor.

A cidade e o tempo são indissociáveis e dependentes um do outro. Por vezes, coniventes, outras vezes cúmplices. Por vezes, opostos, outras vezes dissonantes. Mas sempre dependentes.

Quando falamos em planeamento como antecipação do futuro, falamos de uma tentativa de ganhar tempo; quando abordamos o património como herança, tentamos prolongar o tempo. E quando reclamamos maior participação e intervenção no momento, queremos influenciar a cidade com o nosso tempo. Queremos que este seja um tempo único e positivo na cidade, procurando construir o património de amanhã, procurando dar razão ao planeamento, procurando viver a cidade… serão estes sinais do tempo em que vivemos?

(texto escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico)

© 2020 Guimarães, agora!

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