Betina Ruiz
Investigadora, já desenvolveu projetos sobre a Literatura Portuguesa dos séculos XVII e XVIII, a Mexicana do séc. XVII e a Brasileira do séc. XX, professora com mais de 15 anos de experiência, biblioterapeuta dedicada a programas que procuram abranger principalmente leitores idosos e aqueles em alguma situação de vulnerabilidade, autora de textos académicos e ficcionais, pensados e criados ou em parceria com amigos e colegas ou como trabalho individual.

Interior e exterior de um livro contam histórias

Capas falam com leitores, antes que estes saibam do autor, do enredo ou do ano da obra. Vez por outra, os valores do mercado editorial apontam para a seleção e consequente transcrição de opiniões sobre a obra, geralmente estampadas na 4ª capa (a página que fecha o livro). 

Se nos apaixonamos por uma história, pode acontecer de associarmos a ela as dimensões, as ilustrações e as fontes tipográficas de uma determinada edição, como se exterior e interior fossem uma coisa só e só pudessem ter aquele arranjo.

Pense em um livro cuja fotografia de capa não criou uma grande conexão com você. Ver, de repente, uma opção mais feliz de imagem, fruto do trabalho da mesma editora ou de outra, produziria no mínimo a sensação de alívio?

São esses alguns dos pequenos prazeres que acompanham a leitura.

Já a nossa relação com o interior de um livro, com a vida que foi ali encapsulada e que transborda quando nós, de alguma maneira, confundimo-nos com seus acontecimentos, seus nomes próprios, as mil peripécias e, não há como fugir, o desfecho, é da ordem do mágico.

Não tivessem nossos ancestrais apostado no poder das histórias de ficção para comunicar riscos e regras de sobrevivência (e igualmente as belezas), no seio de comunidades muito menores e menos dotadas de ferramentas para a instrução do que as nossas, a confissão da profundidade que uma boa história pode alcançar ainda assim seria verossímil.

Consigo ir buscar, na menina em fase de alfabetização que um dia eu fui, o fascínio pelas histórias. Não me faltava vontade de brincar (tenho uma lembrança muito fluída: uma corrida no enorme pátio de um colégio salesiano, mãos dadas com uma colega de turma, à procura de não sei qual outra atividade da hora do recreio); não faltava curiosidade sobre o laboratório escolar, para onde meu avô paterno enviaria, um dia, uma cobra venenosa que ele havia surpreendido na quinta em que vivia…  

Ler tornou-se para mim em algo fabuloso, que posso oferecer-me como uma prenda.

Ler tornou-se para mim em algo fabuloso, que posso oferecer-me como uma prenda, sem ter que socializar quando não desejo, sem ter que justificar preferências, sem que me constranja a descoberta ou de uma decepção ou de um delicioso assombro!

Deve ser por isso que até hoje não me obrigo a falar bem de um livro, a não ser que eu mesma tenha visto florescer com ele uma ligação genuína. E não tenho a certeza, com toda a franqueza, se valerá mesmo a pena condenar a leitura de um género literário, de um autor, a não ser que eu perceba algum elemento que me cause uma repulsa incontornável.

Deve ser por isso, também, que me preocupa que não tenha sido e até hoje não o seja, de todo, iluminada e quente e frutífera a aproximação entre histórias e leitores. O que andamos a fazer, para que existam tantas pessoas com impressões ruins sobre os livros, tantas pessoas que prematuramente abandonam um verdadeiro universo? A entrada nesse tal universo nunca sequer foi admitida a grupos marginalizados. Como é possível? Da literacia mundo afora há muito o que dizer. É deste tamanho apenas a nossa página de introdução a essa capacidade de lidar com o mundo, construindo-o. 

© 2022 Guimarães, agora!


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