Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

De Edgar Morin a Frederico Lourenço: educação, memorização e memória (com exames à porta)

“Avaliamos e avaliamos, quando, na realidade, a avaliação é também uma forma de calcular que ignora a complexidade das realidades humanas. O objectivo do ensino deve ser o de ensinar a viver.”

Edgar Morin

Inspirei-me a compilar este texto após ter visto esta imagem em vários murais de Amigos.

Aqui há uns tempos, uma outra imagem, sobre um letreiro qualquer que foi afixado numa Universidade da África do Sul, mencionava que a origem da falência de qualquer nação era os estudantes copiarem nos exames.

Vou tentar dar o meu ponto de vista, refutando essa visão a partir desta imagem. Ou antes, vou tentar provar que não existem grandes diferenças entre copiar e memorizar, e como a reprodução de conteúdos, de forma acrítica, é um modo de avaliar-se a capacidade de memorização… e pouco mais. E isso, sim, está na origem de várias falhas civilizacionais:

A verdade é que a mesma, tal como está, continua a reproduzir um modelo gasto e desigual de sociedade…

A escola é a, a par da igreja, a instituição que menos mudou em séculos. Podem escrever e dar cambalhotas sobre o assunto, mas a verdade é que a mesma, tal como está, continua a reproduzir um modelo gasto e desigual de sociedade.

Este tipo de escola/ensino/educação não é, ao contrário do que muitos defendem, baseada no conhecimento ou na capacidade. É-o, antes, no sacrifício/memorização, sabe-se lá a que custo (e com que custos). As pessoas acham que educação é o contrário de ignorância, e nem colocam a hipótese de uma poder ser o braço armado da outra. Para mal de tudo, este tipo de escola/ensino/educação é uma espécie de vaca sagrada, continuando, inacreditavelmente, acima de qualquer crítica fundamentada, apesar de anti-científica, anti-democrática e, desconfio, a espaços, uma espécie de coador social.

Um sistema que acha que avaliar/examinar/testar é aprender, que privilegia os bons resultados (quase sempre ligados à memorização acrítica para um dado dia, a uma dada hora); que relembra, a toda a hora, às crianças que o importante é ter “boas notas” (e não aprender); que diaboliza a brincadeira, a espontaneidade e o (direito ao) erro; um sistema que acredita e que promove a ideia de que há alunos de primeira, outros de segunda e outros, ainda, de terceira; um sistema que legitima disciplinas/áreas de primeira, passando a ideia de que as outras são para encher chouriças; um sistema que aceita que haja escolas que segreguem alunos (por causa dos rankings).

Esta mania muito burguesa dos “bons alunos”, “boas notas”, dos méritos, dos rankings, é segregação. A escola não pode ser isto, porque dela estão desligadas, quase sempre, as noções de ética, moral, criatividade, solidariedade e cooperação. Os pais são levados a pensar que ser bom aluno é igual ou superior a ser boa pessoa.

Há quem critique, abertamente, este modelo de ensino que prepara alunos para testes/exames, em vez de os preparar para a vida em sociedade, para a cooperação, para a paz, enfim, para o equilíbrio: para viverem uns com os outros, em vez de uns contra os outros.

Os exames são a forma mais falível de avaliação.

Há países que baniram a cultura do exame, avaliando objectivamente os seus alunos. Cá, confunde-se o teste/exame com a noção de rigor (ou falta dela). Educar para os exames e educar para a autonomia são duas realidades em colisão (e nunca complementares).

Porque num mundo cheio de estímulos e de potencialidades, não nos podemos limitar ao seguinte: crianças quase todo o dia na escola (num modelo competitivo, com respostas fechadas, pleno de paternalismo e de condescendência, que premeia a mesmice, o acatamento e a repetição e condena a curiosidade, a originalidade e, não confundir com individualismo, a individualidade); trabalhos para casa (francamente, a sua utilidade ultrapassa-me); jantar e dormir (sem mais); os pais, reféns do modelo, acatam (e muitos, penso, nem têm disso consciência: é o “tem de ser” com todo o seu brilho). O que correr mal será culpa deles (e eles sabem-no); no dia seguinte tudo recomeçará. Quem “não se integrar” na grande roda dos saberes truncados é posto de parte (fica para trás: rica escola inclusiva, que para promover meia dúzia descura a maioria, catalogando o grosso com problemas de aprendizagem, défice de atenção, hiperactividade ou falta de capacidade: colocar-se, a si própria, em causa, nunca) e deve assumir a sua culpa (pelo falhanço numa competição que não escolheu).

Este será sempre o resultado de uma educação que priva os alunos da produção de conhecimento (a troco da reprodução de informação), que os trata como seres sem autonomia (até aos 18/19 anos), como se nada soubessem ou não tivessem a capacidade de auto-determinação/decisão, e que, sobretudo, não valoriza o espírito crítico.

É tudo isto que me afasta dos precursores do QI, eugenistas de génese, e dos senhores que são privilegiados (porque o privilégio acha-se uma tábua rasa) e nunca o souberam, como é, por exemplo, Frederico Lourenço, e me aproxima de Morin, de Naranjo, de Montessori, de Waldorf, de Taylor Gatto, de Agostinho da Silva ou do Professor José Pacheco.

A minha referência a Frederico Lourenço não é inocente: há uns tempos, o senhor Professor, Prémio Pessoa, escreveu sobre a carreira académica de Boris Johnson, afirmando, implicitamente (embora, de certa forma, explícita) , que há colégios de inteligentes e outros de burros (referindo-se a Balliol). Um claro exemplo de alguém que, ao contrário de Morin, com quem comecei o texto, desconhece o verdadeiro papel da Educação.

Memorização e memória não são, definitivamente, o mesmo assunto.

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