
Chegou finalmente o dia. O batismo. Aquela cerimónia sagrada onde enfiamos uma criança de dois anos num vestido rendado (mesmo que seja rapaz, porque Deus é amor, mas a estética litúrgica é um pouco drag), levamo-la para um tanque de água benta, e esperamos que, com umas pingas na testa, ela deixe de atirar comida para o chão, e comece a respeitar os pais e os avós.
A criança em questão – pelo menos a minha, que passou pelos dois anos – estava na fase em que não distinguia Deus do Mickey Mouse, mas ainda assim achei por bem inscrevê-la na fé. Porquê? Porque todos os pais, mesmo os ateus, têm aquele segundo de dúvida às três da manhã, quando o puto decide gritar como se tivesse sido possuído por um espírito demoníaco vindo diretamente da ala pediátrica do inferno. E nesse momento, a água benta parece mais eficaz que qualquer consulta de desenvolvimento infantil.
Vamos ser sinceros: o batismo é uma promessa de vida melhor, tal como a dieta da segunda-feira ou o regresso do maior clube do mundo ao título. A ideia é simples: lavar o pecado original (que a criança claramente já pratica com mestria), garantir uma linha direta com o divino, e – com um pouco de sorte – ver se é feitio, ou se era mesmo o demónio a fazer turno naquela birra no Continente.
Agora, pergunto: será justo enfiar uma criança num sacramento sem o seu consentimento? Claro que não. Mas também não é justo que ela acorde às cinco da manhã cheia de energia e nos obrigue a ver vídeos de porquinhos a dançar reggaeton. Justiça é um conceito relativo. E se vamos falhar como pais, pelo menos falhamos com o apoio institucional da Santa Madre Igreja.
E há outra vantagem: se o miúdo continuar a ser um pequeno agente do caos depois do batismo, podemos sempre culpar o padre. “Olhe, desculpe lá, mas o exorcismo foi mal feito. O demónio ainda está no olho esquerdo. Se calhar convinha uma segunda demão”.
O batismo, no fundo, é o nosso seguro espiritual. Não sabemos se há Deus, mas se houver, já está no nosso lado. É como votar. Pode não mudar nada, mas depois também ninguém nos pode acusar de não ter tentado. E se correr mal? Há sempre a primeira comunhão. E se mesmo assim não resultar? Bom, temos o crisma. E se ainda continuar a pintar as paredes e a chamar “banana” ao avô? Internato. Católico, de preferência.
“A verdade é que o batismo não os vai transformar em anjos – mas dá-nos esperança, uma desculpa para comprar roupinha branca ridícula, e uma razão legítima para servir espumante no almoço de domingo.”
No fim, o que queremos todos é proteger os nossos filhos do mundo, da maldade, e do algoritmo do YouTube. E se para isso for preciso atirá-los para a fé, antes de saberem o que é um “Pai Nosso”, que seja. A verdade é que o batismo não os vai transformar em anjos – mas dá-nos esperança, uma desculpa para comprar roupinha branca ridícula, e uma razão legítima para servir espumante no almoço de domingo. E isso, meus caros, já é meio caminho andado para a santidade. Ou, pelo menos, para uma sesta em paz.
Batizá-las foi o nosso jeito atrapalhado de pedir ajuda ao universo. Uma espécie de “vá lá, protege-as tu, porque eu já não confio a 100% na minha sanidade mental”. É isso. Queremos acreditar que, de alguma forma, com aquele óleo na testa, e uma vela acesa, os males do mundo vão andar ao largo, que o futuro há de ser menos caótico, e que os seus passos – mesmo tortos – vão estar acompanhados de qualquer coisa invisível, mas boa.
O batismo não resolve. Não limpa os legumes que ficam debaixo do sofá durante dias. Não garante que a criança vá crescer para ser santa, nem que nos vá agradecer quando for adulta. (Aliás, é provável que nos diga um dia: “vocês batizaram-me sem me perguntar?!” E aí, sorrimos e respondemos: “pois foi, meu amor… por ti, faríamos tudo outra vez”).
Porque o batismo, como todas as cerimónias onde se junta família, é sobre isso: marcar um momento. Dizer ao mundo – e a nós próprios – que estamos aqui, a tentar fazer o melhor possível por alguém que amamos.
E se Deus lá esteve, fantástico. Se não esteve… paciência. Costuma dizer-se que só faz falta quem cá está. Nós estávamos. E às vezes, isso basta. Basta estar, para começar uma vida com esperança.
Amém.
- Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!
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