Uma reflexão sobre o rigor da história: a oliveira da nossa independência não nasceu do acaso, mas de um título de propriedade defendido com as armas na mão.
No passado dia 7 de outubro, o historiador Amaro das Neves publicou nas páginas do Comércio de Guimarães um artigo de opinião intitulado “Quando nasce uma oliveira? E um país?” que merece a nossa mais profunda vénia. Com a lucidez de quem conhece as linhas profundas da nossa identidade, o representante de Guimarães nas comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal recorreu a uma poderosa metáfora biológica para explicar o significado profundo do 24 de junho de 1128. Ao definir a Batalha de S. Mamede não como o Estado acabado, mas como a “radícula” que rasga o caroço para iniciar uma vida autónoma, o autor inclina-se convictamente para a verdade histórica, desarmando leituras anacrónicas e devolvendo ao acontecimento o seu real valor fundacional.
Neste ensaio de desmistificação, Amaro das Neves desmonta com eficácia a ilusão de que Portugal possa ter nascido “adulto e acabado” em qualquer uma das datas do calendário fundacional, agora alargado pelo Governo. O historiador lembra-nos que os Estados, tal como a natureza, exigem tempo e maturação para se consolidarem, situando a verdadeira história de S. Mamede num plano ainda “subterrâneo” onde a vida ganha força para germinar. É fácil compreender que a 24 de junho de 1128 “ainda não havia azeite a escorrer do lagar”, mas isso não retira mérito ao momento; pelo contrário, valoriza o arrojo daquela primeira rutura e sublinha a responsabilidade da “água, da poda e da mestria” com que veio a ser tratado o “olival” português. É este olhar maduro que justifica plenamente que em 2028 se celebre o exato instante em que a semente da independência germinou em Guimarães.
“Falar de S. Mamede sem evocar o papel de liderança e o legado de Afonso Henriques é omitir o motor político dessa rutura.”
Contudo, nesta brilhante analogia agrícola, o autor deixa por preencher uma figura central: a do dono do olival. Com efeito, se a semente teve força para romper a casca, foi porque houve quem detivesse o título legítimo daquela terra. Falar de S. Mamede sem evocar o papel de liderança e o legado de Afonso Henriques é omitir o motor político dessa rutura. Contrariamente ao que muitos pensam, o jovem infante não agiu apenas por instinto de subserviência, mas imbuído de um claro direito de propriedade e de soberania sobre as terras de Portugal, que foram um legado direto de seu pai, o Conde D. Henrique. Sem a legitimidade jurídica e a determinação do “proprietário” em defender o seu solo contra as ingerências externas, o “caroço” nunca teria encontrado as condições necessárias para germinar, e o projeto de um país independente teria ficado confinado à negrura da terra.
Por isso, recuar ao momento da concessão do Condado Portucalense, outorgada em 1096 pelo rei Afonso VI de Leão, permite-nos afinar ainda mais esta cronologia botânica. Longe de ser uma mera delegação administrativa e revogável, aquela investidura ao Conde D. Henrique e a D. Teresa assumiu a fórmula plena de uma doação jure hereditario, transformando o território numa autêntica propriedade da linhagem. Esse ato de posse hereditária foi, na verdade, o momento exato em que o caroço caiu na terra com a chancela do direito, criando as bases que o jovem Afonso Henriques defenderia mais tarde como herança legítima. Assim, se a semente assentou arraiais de pleno direito no final do século XI, a Batalha de S. Mamede em 1128 representou o passo seguinte e decisivo desse milagre biológico: o instante em que o caule da oliveira irrompeu finalmente, sobressaindo do interior da terra em direção à luz da autonomia. A força jurídica do direito de sucessão paterno foi o adubo essencial para que o broto ganhasse a verticalidade necessária para desafiar o complexo galego-leonês.
É este encadeamento perfeito entre a legitimidade jurídica da posse e a audácia da rutura física que confere a Guimarães o seu estatuto único na história. Celebrar o 24 de junho de 1128 à luz da metáfora da oliveira criada por Amaro das Neves, enriquecida pela memória do direito jure hereditario defendido por Afonso Henriques, é orgulharmo-nos de um berço que não nasceu do acaso, mas de uma propriedade legítima defendida com as armas na mão. Ao olharmos para o horizonte de 2028, Guimarães não se pode preparar apenas para comemorar uma efeméride fria; tem de se preparar para festejar os 900 anos do dia em que o caule desta oliveira rasgou a terra rumo à luz. Cabe a Guimarães continuar a guardar a memória deste olival que é Portugal, orgulhando-se de ter sido o solo sagrado onde a semente da nossa independência deitou as primeiras e mais profundas raízes.
© 2026 Guimarães, agora!
Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!
Siga-nos no Facebook, X e LinkedIn.
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.


