As comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal ganharam recentemente uma nova e inesperada camada de debate público. Graças a uma notícia desenvolvida pela jornalista Adriana Castro nas páginas do jornal PÚBLICO, de 27 de setembro – sob o título ‘Programação entregue a comissão com ligações ao CDS’ -, fomos confrontados com uma verdadeira “remontada” nos bastidores da gestão e da narrativa do processo. A transição de protagonismo institucional tornou-se evidente com a influência de uma estrutura com agenda muito própria no Conselho Geral das Comemorações, redefinindo o alcance histórico e político que será atribuído às efemérides nacionais.
No centro deste tabuleiro, desenha-se um duelo que vai muito além de uma mera divergência de datas: é uma autêntica guerra de conceitos entre as teses da “fundação” e da “formação” de Portugal.
- De um lado, ergue-se a tese da fundação, vigorosamente defendida pela população vimaranense, para quem a Batalha de São Mamede (1128) constituiu o “big bang” irrefutável da independência de Portugal, o ato político e militar inaugural, o momento de rutura em que Afonso Henriques assumiu as rédeas soberanas do destino portucalense. E por isso, para Guimarães, focar as celebrações no conceito da Fundação corresponde a fixar a certidão de nascimento de Portugal no Berço, conferindo à região um protagonismo histórico absoluto e inquestionável.
- Do outro lado, surgiu a Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), presidida pelo antigo líder centrista José Ribeiro e Castro, que trabalhou o programa “Portugal 900 anos”, com o objetivo de contrapor um conceito mais elástico, o da “formação”, que o Governo acolheu na Resolução do Conselho de Ministros n.º 149/2026. E assim, ao propor uma soberania diluída em quatro momentos complementares – a Batalha de São Mamede (1128), a Batalha de Ourique (1139), o Tratado de Zamora (1143) e a bula Manifestis Probatum (1179) -, esta instituição ensaiou, com sucesso, uma inteligente manobra de autodefesa conceptual.
“Ao transformar a fundação num processo difuso de formação a quatro tempos, a instituição assegura que nenhum marco medieval assume um protagonismo isolado que possa eclipsar a relevância da data que todos os anos comemora.”
Com efeito, esta substituição da “fundação” pela “formação” não é inocente, pois se a narrativa oficial se fixasse exclusivamente no ato fundador de 1128, o foco da fundação deslocar-se-ia de forma irreversível para o Norte. Ora, para a SHIP, cujo maior pergaminho e razão de ser é a exaltação da Independência numa versão não original, uma qualquer leitura que colocasse a Fundação (independência) de Portugal num momento único e absoluto, esvaziaria o simbolismo da suas próprias divisas. E assim, ao transformar a fundação num processo difuso de formação a quatro tempos, a instituição assegura que nenhum marco medieval assume um protagonismo isolado que possa eclipsar a relevância da data que todos os anos comemora, pomposamente, no dia 1 de dezembro, sob o signo da “restauração” de uma independência nunca perdida.
Em última análise, o que esta revelação jornalística desmascara é como os palcos das comemorações oficiais se transformam frequentemente em arenas de autopreservação. Frente ao pragmatismo territorial e à força histórica da tese fundacional de Guimarães, a SHIP ensaiou uma jogada de bastidores para garantir que o nascimento do país não se tornasse o túmulo do seu maior trunfo político. Resta agora saber se, nos próximos anos, os portugueses vão comemorar a história viva do seu ato fundador ou, simplesmente, a sobrevivência de quem a quer contar à sua exata medida.
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