Inicio um novo ano letivo. Cerca de 50 alunos. Não uso aqui linguagem inclusiva porque são alunos e só alunos, todos rapazes. Quem ensina eletrónica, automação ou mecatrónica conhece esta realidade.
Na última crónica escrevi sobre a hierarquia entre as vias do ensino secundário, percursos que deveriam ser diferentes, mas não desiguais. Há outras hierarquias que pesam na hora da matrícula. Em 2026/2027, continuo a entrar num laboratório de eletrónica e não encontro raparigas. E o que esta realidade representa para a sociedade?
Claro que não é só na minha sala ou na minha escola. Segundo dados do Ministério da Educação, em 2017/2018 as raparigas eram apenas 3,4% dos alunos dos cursos profissionais de Eletrónica e Automação e 2,3% dos de Eletricidade e Energia.
Porque é que não me entram raparigas no laboratório? Talvez a resposta mais imediata seja também a mais confortável: porque as raparigas não escolhem estes cursos. É verdade. A questão é saber como se constrói uma escolha.
Não há evidência científica de que as raparigas tenham menos capacidade para a matemática, a ciência ou a tecnologia. Em 2017, a UNESCO publicou ‘Decifrar o Código’, um extenso relatório sobre raparigas e mulheres nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) que aponta precisamente noutra direção. O que a investigação encontra são influências que começam cedo: nos brinquedos que oferecemos, nas capacidades que elogiamos, nas profissões que apresentamos como possíveis ou desejáveis, ou até adequadas. Com ou sem intenção.
“Um professor ou uma professora que, mesmo sem dar por isso, espera mais competência tecnológica de um rapaz do que de uma rapariga ajuda a construir essa diferença.”
E a escola não fica de fora neste jogo de reprodução de estereótipos de género. Um professor ou uma professora que, mesmo sem dar por isso, espera mais competência tecnológica de um rapaz do que de uma rapariga ajuda a construir essa diferença. Uma escola que mostra sempre homens quando fala de engenharia e mulheres quando fala de cuidados ou serviços também está a vincar uma expectativa diferente para rapazes e raparigas, mesmo que isso não conste de nenhum currículo.
As consequências destas escolhas vão além da escola. As áreas tecnológicas estão entre as que mais transformarão o trabalho, a economia e a nossa vida quotidiana nas próximas décadas. São também áreas associadas a necessidades crescentes de qualificações e a novas oportunidades profissionais, nomeadamente na transição energética e na inteligência artificial. Se as mulheres continuarem largamente ausentes da sua formação e, depois, das profissões que lhes correspondem, poderão perder estas oportunidades. Quem constrói tecnologia não constrói apenas circuitos ou programas: decide que problemas merecem solução e ajuda a definir as soluções que todos usamos. E, estando sub-representadas na formação, estarão também menos representadas entre quem toma essas decisões.
Não pretendo substituir um estereótipo por uma obrigação. Igualdade não é obrigar a escolher. É garantir que, quando chega o momento de escolher, todas as possibilidades estão em aberto.
Por isso, talvez a pergunta que faço quando entro no laboratório não seja sobre as raparigas. É sobre o que fazemos, em casa e na escola, para que um dia eu possa ter no laboratório alunos e alunas.
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