Há expressões que me incomodam e “Regular” é uma delas. Não a palavra em si, bem entendido, mas incomoda-me quando oiço a expressão “regular” para referir os Cursos Científico-Humanísticos e “profissional” para tudo o que fica do outro lado da fronteira. É prático e toda a gente percebe, e o problema é justamente esse: há alunos do ensino regular e há os outros, que presumo sejam irregulares. Há pouco tempo, recebi um email de uma faculdade a divulgar um Dia Aberto “destinado a alunos do ensino regular e do ensino profissional”.
Reli. E, como tenho dificuldade em deixar sossegadas estas inquietações, respondi – lembrei que Cursos Científico-Humanísticos, Cursos Profissionais e Cursos Artísticos Especializados são ofertas do ensino secundário. Ao opor “regular” a “profissional”, cria-se uma hierarquia: de um lado, o percurso normal; do outro, um desvio ao expectável.
O problema não está circunscrito àquele email. Também o perceciono quando um aluno diz que “não tem notas para ir para o regular”; quando uma família encara um Curso Profissional como aquilo que resta depois de se fecharem outras portas; ou quando ouvimos que determinado jovem “até é bom aluno, podia ir para Ciências”. Ou no argumentário do “canalizador que hoje ganha mais do que muitos licenciados”. Nada contra canalizadores, obviamente, mas acho abusivo usar o salário do canalizador como argumento pedagógico.
O CEDEFOP, a agência europeia do ensino profissional, chama-lhe hierarquia percecionada entre vias educativas e aponta a imagem social como principal entrave à atratividade dos cursos profissionais. Essa hierarquia revela-se naquilo que se espera de cada percurso: aos alunos dos CCH oferecemos um futuro em aberto; aos dos Cursos Profissionais atribuímos, demasiadas vezes, uma profissão. É a mesma hierarquia, com outra roupagem, que reduz os Cursos Profissionais às “necessidades do mercado de trabalho”. Claro que a escola deve conhecer as empresas, as tecnologias e a realidade económica do território – a Formação em Contexto de Trabalho, por exemplo, é uma das riquezas desta oferta.
“A escola não produz mão de obra: educa e prepara cidadãos. Tem de ensinar conhecimento técnico sólido, mas também ciência, comunicação, pensamento crítico, autonomia e cidadania.”
Mas uma escola não é, não pode ser, o departamento de recursos humanos das empresas. A escola não produz mão de obra: educa e prepara cidadãos. Tem de ensinar conhecimento técnico sólido, mas também ciência, comunicação, pensamento crítico, autonomia e cidadania. Aos 15 anos, escolher um Curso Profissional não pode equivaler a assinar um contrato vitalício com uma profissão: as tecnologias mudam, e algumas das competências que os alunos desenvolvem hoje estarão obsoletas antes de terminarem a sua vida profissional.
É por isso que o verdadeiro papel social dos Cursos Profissionais não se esgota na resposta ao mercado de trabalho. Está também na diversidade que trazem ao ensino secundário: eletrónica, informática, design, saúde, mecânica, e tantas outras portas acrescentam ao ensino secundário. E diversidade também nas formas de aprender, está no aluno que só compreende quando constrói, no que precisa de experimentar, no que chega aos 15 anos convencido de que não é bom aluno e descobre que talvez fosse apenas bom de uma maneira que a escola ainda não lhe tinha permitido mostrar. Isto não baixa a fasquia: enriquece a escola.
Uma escola democrática não pode reconhecer apenas uma forma de inteligência, de aprender ou um percurso socialmente respeitável. Não há os alunos regulares e os outros. Há alunos. Trata-se de educação, de igualdade e, no fundo, de democracia.
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