Há uma estranha timidez verbal que se instalou nos políticos portugueses sempre que o calendário se aproxima de 24 de junho. Entre o púlpito e o microfone – sempre que têm de falar sobre a batalha de S. Mamede – a Independência de Portugal parece ter-se tornado um conceito demasiado pesado para ser pronunciado, sendo sistematicamente substituído pela suavidade de perífrases vagas como “a primeira tarde portuguesa” ou o “dia um de Portugal”. Ao trocar o rigor histórico pelo marketing poético, o discurso político sobre este facto histórico não está a dignificar a fundação de Portugal como estado independente; está, pelo contrário, a diluir a força do 24 de junho num eufemismo que disfarça o essencial: em S. Mamede, não se inaugurou uma estação do ano, conquistou-se a soberania de um povo.
Esta tendência para a perífrase constante – onde a Batalha de S. Mamede é tudo menos uma batalha e a independência é tudo menos um ato de rutura – revela um receio profundo de assumir o realismo da nossa fundação. Ao contrário da metáfora, que procura a imagem, ou da síntese, que busca a clareza, a perífrase aqui utilizada define-se pelo uso de várias palavras para contornar o que devia ser dito de forma direta; é uma redundância ornamental que, ao multiplicar as palavras, acaba por asfixiar o sentido objetivo do facto histórico. Esta não é uma escolha poética inocente, mas uma estratégia de evasão: ao chamarem-lhe “primeira tarde” os políticos esvaziam o 24 de junho do seu impacto como o verdadeiro ato de rutura.
É urgente, por isso, confrontar esta poesia política com o realismo do confronto histórico que nos fundou. Enquanto o discurso oficial se perde em lirismos, a História recorda-nos que S. Mamede não foi um exercício de retórica ou um momento contemplativo, mas a conquista de um estatuto jurídico e soberano que nenhum eufemismo consegue, ou deve, camuflar.
Estas considerações brotam da intervenção do deputado João Almeida, do CDS, ocorrida no dia 10 de abril de 2026, no período de discussão na AR do Projeto de Resolução n.º 25/XVII/1.a, onde afirmou:
- “A fundação foi um processo; um processo com vários marcos, que qualquer homenagem tem e deve reconhecer. Um desses marcos é o dia 24 de junho. Em 1128, há 898 anos, travou-se num campo próximo de Guimarães a Batalha de S. Mamede; essa é por isso chamada “A Primeira Tarde Portuguesa. (…) Portugal é o mais velho Estado-Nação da Europa, quando os Estados-Nação são cada vez mais diluídos e muitas vezes desagregados”.
Ao reduzir a fundação de Portugal a um ‘processo com vários marcos’, como defende o deputado João Almeida, cai-se no erro de transformar um momento de rutura soberana numa mera sucessão de efemérides equivalentes. Esta retórica do ‘processo’, embora pareça equilibrada, é na verdade uma cedência à indefinição que retira a S. Mamede o seu peso enquanto ato fundador e decisivo. Uma homenagem séria não se deve perder em labirintos cronológicos que diluem a importância do 24 de Junho; ao tratar o ‘dia um’ apenas como mais um marco entre outros, o deputado acaba por validar a estratégia da Comissão Científica em baralhar a história, retirando a Guimarães o seu estatuto único de berço político do Estado para o transformar num simples ponto de passagem de uma burocracia medieval.
“O deputado João Almeida demonstra uma profunda incompreensão sobre as origens de Portugal, esquecendo que estas realidades, embora hoje unidas, não são gémeas nem contemporâneas.”
Ao fundir o nascimento do Estado com o da Nação num mesmo “processo de vários marcos”, o deputado João Almeida demonstra uma profunda incompreensão sobre as origens de Portugal, esquecendo que estas realidades, embora hoje unidas, não são gémeas nem contemporâneas. Portugal é, de facto, um Estado-Nação, mas a estrutura política de soberania que rompeu com Leão em 1128 não se confunde com a identidade cultural e social que levou séculos a maturar; ao baralhar estes conceitos, o deputado acaba por diluir a força do ato político fundador de Guimarães num nevoeiro sociológico que retira clareza à nossa certidão de nascimento.
Na mesma linha seguiram as palavras do deputado Paulo Lopes Silva, proferidas na Assembleia da República na mesma ocasião:
- “Da nossa história coletiva, enquanto país, há vários momentos significativos que nos conduziram a uma nação autónoma de nome Portugal. De entre esses momentos, há um que antecede e torna possíveis todos os outros: a primeira tarde portuguesa”.
Considerar a Batalha de S. Mamede apenas como um momento relevante “entre outros” é ignorar a sua função como o verdadeiro ponto de rutura política e militar que permitiu a transição de um condado subordinado para uma entidade com destino próprio. Promover a ideia de um momento “entre outros” colide frontalmente com o lema “Aqui Nasceu Portugal”. Se um deputado vimaranense suaviza o impacto de S. Mamede, fragiliza a base histórica que justifica a centralidade de Guimarães na fundação de Portugal como estado independente.
Afirmar que a Batalha de S. Mamede foi apenas a “primeira tarde portuguesa” funciona como um esvaziamento político do evento, pois ao circunscrever o momento a uma cronologia poética, retira-se-lhe o estatuto de ato de rutura definitiva. Esta escolha linguística nega à batalha a sua eficácia jurídica e militar como o motor imediato da independência de facto. Em vez de ser reconhecida como o ponto de viragem em que a soberania foi assumida, a batalha é reduzida a um prefácio, o que acaba por desvincular o confronto do seu resultado mais prático: a emancipação política face ao Reino de Leão.
Mas o mais grave é que, como responsável pela escolha da Comissão Científica, as palavras do deputado Paulo Lopes Silva não são apenas uma opinião pessoal, refletem a linha oficial expressa pelos seus coordenadores.
A Comissão Científica, integrada por diversos investigadores nacionais e internacionais de prestigiadas universidades, devia servir para balizar a verdade histórica e não como um pretexto para baralhar os conceitos de estado e nação e manter os vimaranenses e os portugueses confusos quanto à certidão de nascimento de Portugal.
Felizmente, a recente criação do Alto Comissariado para a Comemoração dos 900 anos da Batalha de S. Mamede pelo Governo Português abre uma janela de oportunidade para o rigor. Espera-se que este novo organismo, com sede no Paço dos Duques de Bragança, não se limite a replicar os eufemismos do costume. A expectativa é que o Comissariado assuma o 24 de junho com o realismo que a efeméride exige, libertando o discurso oficial das “primeiras tardes” e dos “dias um” para devolver a S. Mamede o seu verdadeiro significado: o de um confronto decisivo pela soberania.
Celebrar os 900 anos de S. Mamede não pode ser um exercício de contorcionismo verbal. Se Guimarães é o Berço, não o é por uma qualquer brisa poética de final de tarde, mas porque ali se afirmou um projeto de independência. É tempo de os políticos portugueses abandonarem o receio do rigor e trocarem a perífrase pela palavra exata. Que o Alto Comissariado seja o motor de uma coragem discursiva que devolva ao 24 de junho a sua verdadeira estatura. Afinal, a História não se escreve com eufemismos, escreve-se com a verdade dos factos.
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