
Ninguém está verdadeiramente preparado para morrer.
Há quem planeie o fim com zelo burocrático – redija testamentos, escolha a música do velório, reserve um jazigo com vista para a marginal – mas morrer, morrer de facto, não se ensaia.
Aprende-se a cair com alguma graça, a perder com dignidade, até a envelhecer com ironia bem-disposta – mas morrer continua a ser o único gesto humano que não se treina, não se imita, não se encena. É o último verbo que se conjuga sem testemunhas. E ninguém volta para contar como se faz.
A morte – a autêntica, aquela que não telefona antes de aparecer – entra sem aviso. Não bate à porta, não espera convite: atravessa a sala, senta-se à tua frente e olha-te nos olhos como quem diz: “Chegou a minha vez de ter a palavra.”
Até lá, vivemos como se o tempo fosse uma herança inesgotável. Construímos projetos e promessas com a leveza de quem empilha castelos de cartas: viagens por marcar, livros por abrir, palavras por dizer.
Alimentamos a doce ilusão de que a vida é uma linha contínua, uma sequência generosa de possibilidades, quando na verdade é uma corda esticada sobre o vazio – onde cada passo, por mais firme que pareça, é um risco silencioso.
Vivemos como quem acredita, por um capricho estatístico, que a morte é sempre um capítulo que só acontece no livro dos outros.
Mas um dia – aparentemente igual a tantos outros – revelou-se ser o teu último dia.
O derradeiro, chegou de rompante, num exame inesperado, num tropeço distraído, num simples virar de esquina… e, de repente, tudo à tua volta cresceu, enquanto o teu “eu” se encolhia, minúsculo e vulnerável. Hoje, o relógio foi-te cruel.
É então que a fé, essa tua antiga conhecida, que passaste a vida a desprezar com ironia polida, regressa como se nunca tivesse partido. Não com salmos nem procissões – mas com olhos suplicantes, mãos vazias e um coração que se curva, não diante de um altar, mas diante da vertigem perante a queda.
Tu, o mais cartesiano dos espíritos, aquele que viveu a medir, a provar, a desmontar crenças como quem desmonta brinquedos, encontras-te subitamente a murmurar para o escuro, como uma criança que teme que não haja ninguém do outro lado da porta. Temes pelo futuro. Temes pelo pior… temes ser engolido pelo vazio e pela escuridão.
E esse teu murmúrio, por mais discreto que seja, é oração.
Porque a oração não é o que se diz – é o que se espera. E ninguém espera tanto como tu, que te vês prestes a partir.
“E o amor – esse amor que tantas vezes desperdiçaste em silêncios e subtilezas – brilha com uma urgência feroz, como se quisesse ser vivido todo de uma só vez.”
Há, no limiar da morte, uma espécie de claridade invertida: tudo o que era ruído se cala, tudo o que era adiado se impõe. A memória torna-se um inventário apressado. E o amor – esse amor que tantas vezes desperdiçaste em silêncios e subtilezas – brilha com uma urgência feroz, como se quisesse ser vivido todo de uma só vez.
Queres voltar a abraçar a vida, os teus, o mundo, tudo e todos, antes que o tempo acabe.
Hoje és tu que estás à porta do fim. E pergunto-te:
– O que resta de ti?
Que pedaços teus permanecem no olhar dos outros? Que ecos deixa a tua passagem neste mundo?
Se hoje fosses verdadeiramente chamado, quem sentiria verdadeiramente a tua falta? Quem teria guardado o teu nome em silêncio?
A vida que deixas não é um registo em papel, nem um jazigo com vista para o mar. É a forma como tocaste nas almas dos que te cruzaram o caminho. É o riso que partilhaste com alguém, o perdão que ofereceste, a mão que ousaste estender no escuro.
E se não houver mais nada além deste instante, que pelo menos fique a certeza de que viveste. Que foste humano até ao último suspiro. Que amaste sem reservas, que perdoaste sem hesitar, que foste presença onde tantos foram ausência.
No fim, talvez seja essa a única grande fé que nos une: a certeza de que, mesmo quando nada mais te restar, somos memória viva um do outro – e é aí, nesse fio invisível, que reside a tua eternidade.
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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