
A história da Torre de Babel é daquelas que se leem e se engolem com a facilidade de um provérbio, mas que deixam um travo estranho na língua – ou nas línguas, vá.
Conta-se que os homens, numa rara demonstração de cooperação e ambição partilhada, decidiram construir uma torre que tocasse o céu. Uma espécie de pré-história da engenharia civil e do orgulho coletivo.
Não era para morar, não era para turismo, nem sequer para comércio de proximidade. Era só para subir.
O objetivo era chegar lá acima, bater à porta de Deus e entregar a mensagem:
– Boa tarde, vínhamos só dizer que também conseguimos.
Mas Deus, visivelmente mal-humorado, decide que chega de brincadeiras e lança a sua sentença:
– A partir de agora, falam todos línguas diferentes. Entendam-se, se forem capazes!
E pronto. Foi aí que o sonho ruiu, não por falta de betão, mas por excesso de pronúncias.
O engenheiro pediu uma trave, o pedreiro trouxe um frasco. O mestre-de-obras disse “elevação”, mas o ajudante entendeu “contramão”. Foi o fim.
A Torre de Babel não caiu por causa do peso. Caiu por causa do mal-entendido. É a primeira grande catástrofe da comunicação humana. E a mais duradoura.
Desde então, a humanidade vive num estado de tradução constante – não de palavras, mas de intenções, de sentidos, de silêncios. A confusão deixou de ser exceção e passou a ser a regra.
Babel já não é uma torre. É uma condição. Uma estrutura invisível que cresce todos os dias, construída à base de pressupostos errados, interpretações enviesadas e frases a meio caminho entre o que se quer dizer e o que se pode entender.
O castigo divino foi, no fundo, genial: não nos impôs o silêncio, impôs-nos a cacofonia. O ruído permanente, a dúvida duradoura, a impossibilidade de um entendimento pleno. A partir daí, passámos a viver em permanente tentativa de decifração – dos outros e de nós mesmos.
“Os discursos políticos que dizem tudo e o seu contrário, os livros de autoajuda que prometem clareza e oferecem parábolas com rodapés.”
E assim nascem os manuais de instruções que ninguém compreende, os discursos políticos que dizem tudo e o seu contrário, os livros de autoajuda que prometem clareza e oferecem parábolas com rodapés, e os casais que acabam porque ela disse “faz como quiseres” – e ele achou que era uma autorização em vez de uma ameaça.
A Torre de Babel é, portanto, mais do que um episódio mitológico. É um símbolo da nossa inaptidão para a escuta, da nossa arrogância linguística, da nossa necessidade de falar antes de entender.
Inventámos línguas, depois dicionários, depois tradutores, depois intérpretes, e continuamos, todos os dias, a dizer:
– Não foi isso que eu quis dizer.
Hoje, vivemos na era da comunicação e nunca se comunicou tão mal. Confundimos emissão com receção. Achamos que falar é o mesmo que dizer. Que ouvir é o mesmo que concordar. Que responder é compreender.
Vivemos cercados de palavras, mas famintos de sentido.
Somos todos filhos legítimos de Babel: desconfiados, barulhentos, especialistas em monólogos disfarçados de conversa. Queremos ser ouvidos, mas esquecemo-nos de ouvir. Queremos ser interpretados com benevolência, mas lemos os outros com lupa jurídica e má vontade. E depois queixamo-nos de que ninguém nos entende.
Aos poucos, Babel foi-se transformando. Ao contrário da torre original, a atual não se desmorona. Sustenta-se precisamente na confusão. Alimenta-se do mal-entendido. Cresce com a polémica e prospera no equívoco. Criámos um mundo onde a clareza é suspeita e a ambiguidade é moeda de troca.
Na atual Torre de Babel, as pessoas têm medo de dizer o que pensam, mas não hesitam em acusar o outro do que ele nunca disse. Aqui, um ponto final pode soar agressivo e um ponto de interrogação é lido como sarcasmo. Hoje, dizer “não sei” parece mais ofensivo do que gritar um disparate com confiança.
E, no meio disto tudo, continuamos a querer construir torres. Torres de sucesso, torres de prestígio, torres de certezas. Mas sem chão comum, sem alicerces partilhados, sem sequer uma língua que nos una. A não ser, talvez, a linguagem universal da confusão.
E se há alguma lição nisto tudo – que não seja apenas a de que nunca se deve provocar Deus em dia de má disposição – é que a verdadeira torre que temos de construir não é uma que suba, mas uma que ligue.
Quando o mundo for só ruído e alguém perguntar o que aconteceu, poderemos sempre responder, num idioma que ninguém perceberá:
– Foi só um mal-entendido.
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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