Do caos à criação

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No princípio, não havia nada. Nem tempo, nem espaço, nem ideias para crónicas. Só o silêncio a arder numa combustão lenta – um crepitar cósmico entre o nada e o quase. Uma espécie de micro-ondas divino a aquecer o vácuo até este explodir numa sopa de quarks, sarcasmo e matéria escura. Foi assim que começou tudo: o Universo, o caos, e eventualmente… este livro.

Sim, o Big Bang! Uma explosão tão monumental que, milhares de milhões de anos depois, ainda continua a expandir-se, como o ego de certos autores que acham que conseguem escrever sobre tudo, inclusive sobre a própria criação. Dizem que, nesse instante inicial, todas as leis da física se formaram ao mesmo tempo – o que é admirável, tendo em conta que não houve um único comité de cientistas envolvido.

Do caos inicial – partículas em raves subatómicas, estrelas a explodir com a arrogância de quem se sabe o centro do universo, galáxias em espirais precisas – foi surgindo uma certa ordem. Não muita. Só a suficiente para que os planetas não andassem por aí aos encontrões, num rodopio sem rumo. E, entre tantos corpos celestes a arder em dignidade, nasceu a Terra: uma bola azul cheia de água, gente e impostos.

E foi cá, neste canto barulhento da Via Láctea, que alguém olhou para a confusão da existência e pensou: “Isto dava um bom conjunto de crónicas!”.

Fez-se luz. Literalmente. A mesma que, há 13,8 mil milhões de anos, se soltou do nada e decidiu iluminar tudo – incluindo ideias parvas como esta. E, como qualquer luz que se preze, veio sem manual de instruções. O universo acendeu-se como quem tropeça no interruptor da existência e, sem saber bem onde pisava, lá foi escrevendo história.

Confesso: não sou o primeiro a inspirar-me no divino para escrever livros. Muitos tentaram. Alguns escreveram textos sagrados que mudaram o curso da humanidade. Eu escrevi crónicas. A grande diferença? No meu, ninguém é apedrejado no segundo capítulo – apenas ironizado com delicadeza e algum carinho.

O caos casou com o sarcasmo, teve filhos com a ironia e o resultado está aqui: um livro. Um descendente direto do absurdo universal, devidamente encadernado e apresentado em fonte legível! Porque, se há coisa que o humor sabe fazer, é agarrar o disparate e dar-lhe forma. 

A evolução, afinal, também é isto: transformar o grito primitivo num parágrafo com graça. O que eu fiz foi impor alguma ordem – não divina, porque essa falha quase sempre ao sexto dia – mas uma ordem humana, racional, escrita com a convicção de quem sabe que se o universo começou com um estalo… talvez só reste rir da pancada.

“Deus, se existiu, não criou só o homem, o mar e o céu. Criou também o riso – esse milagre menor, mas talvez o mais importante.”

O humor não é um mero adereço da existência. É escudo e lança. É o que nos permite olhar para o abismo e não perder o fôlego. É o que transforma tragédia em fábula, banalidade em epifania. Deus, se existiu, não criou só o homem, o mar e o céu. Criou também o riso – esse milagre menor, mas talvez o mais importante. A prova de que, no meio da confusão, não estamos condenados ao desespero.

Este livro é uma arca onde, em vez de animais, se salvam ideias. Nem todas puras. Nem todas úteis. Mas todas com a ambição de não deixar o disparate passar incógnito. Porque a vida não se salva só com ciência, política ou dinheiro. Salva-se com um olhar que não se resigna, com um humor que desafia o mundo em que vivemos – e que nos permite encarar o absurdo com um sorriso, e a dor, com um gesto de coragem.

E tu, leitor – este livro está à tua espera como uma pausa no ruído. Um instante onde o caos lá fora se traduz em sentido cá dentro. Não te promete certezas, nem mapas para a salvação. Mas convida-te a abraçar a confusão sem medo, a rir da nossa desordem natural, e a perceber que, no meio da explosão do cosmos, é o ato de contar histórias – mesmo as mais pequenas e imperfeitas – que nos mantém humanos.

Porque, afinal, o universo pode ser um acidente cósmico, mas a forma como o interpretamos é o único milagre que nos pertence.

E se, no fim, este livro conseguir fazer de ti cúmplice desse milagre – já valeu a pena.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!

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