Viver em condomínio implica aceitar que as decisões não dependem apenas da vontade individual. Requer diálogo, participação e, sobretudo, capacidade de deliberação. Pequenos atrasos, divergências pontuais ou reuniões mais longas fazem parte da dinâmica normal de qualquer edifício. O problema surge quando nada avança, quando os mesmos temas regressam ano após ano e quando a sensação dominante deixa de ser a de debate e passa a ser a de estagnação.
Dizer que “o condomínio não funciona” raramente significa que não exista administrador ou assembleia. Muitas vezes, os órgãos estão formalmente constituídos, as quotas são cobradas e as despesas correntes pagas. No entanto, tudo o que exige decisão estruturante (obras de conservação, planeamento financeiro, medidas de segurança) vai sendo sucessivamente adiado. A gestão limita-se ao indispensável, sem visão de conjunto.
Um dos sinais mais evidentes desta paralisia está nas assembleias inconclusivas. Reuniões prolongadas, marcadas por discussões repetidas, mas que terminam sem deliberações claras ou sem execução prática do que foi decidido. A ausência de decisões efetivas não é apenas um incómodo administrativo; é um bloqueio que compromete o funcionamento regular do edifício.
Com o tempo, instala-se um fenómeno silencioso: a normalização do problema. A infiltração na garagem deixa de ser urgência e passa a fazer parte da paisagem. A porta que não fecha corretamente transforma-se num hábito. Pequenas falhas acumulam-se até se tornarem estruturais. O que poderia ter sido resolvido com uma intervenção atempada converte-se numa obra mais complexa e dispendiosa.
“As relações de vizinhança deterioram-se e o espaço comum, que deveria representar organização e partilha, transforma-se num foco de tensão.”
Este cenário tem também um impacto emocional. O condómino diretamente afetado por uma infiltração ou por falhas de segurança sente-se dependente da decisão coletiva. Quando esta decisão não chega, instala-se frustração e desgaste. As relações de vizinhança deterioram-se e o espaço comum, que deveria representar organização e partilha, transforma-se num foco de tensão.
Importa distinguir conflito saudável de paralisia estrutural. Divergir sobre prioridades ou orçamentos é natural e até desejável numa gestão democrática. Diferente é a recusa sistemática em deliberar ou a incapacidade reiterada de aprovar medidas essenciais à conservação do prédio. Quando as obrigações básicas deixam de ser cumpridas, a inércia deixa de ser uma fase e passa a ser um problema estrutural.
A situação torna-se particularmente preocupante quando a falta de decisão começa a afetar segurança, limpeza ou salubridade. Elevadores sem manutenção adequada, iluminação deficiente, ausência de intervenções necessárias nas partes comuns ou inexistência de planeamento financeiro são sinais de alerta. Quanto mais tempo se prolonga esta inação, maior tende a ser o custo (financeiro e humano) da correção.
Viver num condomínio que não decide não é apenas uma questão de incómodo. É um sinal de que os mecanismos coletivos não estão a cumprir a sua função. E quando isso acontece, não está apenas em causa o conforto do dia a dia, mas também a proteção do património e a qualidade de vida de todos os que ali residem.
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