
Às vezes, pergunto-me se a minha filha mais velha me ignora por desinteresse, ou por vingança. Sim, vingança. Porque eu também já a ignorei. Já lhe respondi com um “espera um bocadinho” que durou meia hora. Já deixei perguntas dela penduradas no ar enquanto via um e-mail com a urgência de uma notificação que podia perfeitamente esperar. Já disse “já vou” com o corpo colado ao sofá e a alma agarrada ao scroll infinito de um feed que não alimenta nada – só afoga.
Por isso, talvez ela me ignore por justiça poética. Ou talvez, o mais provável, seja só porque pode. Sim, pode. A sacana sabe.
Sabe que se não responde à primeira, eu repito. Que se vira costas, eu sigo atrás. Que se me ignora… eu existo ainda mais.
É uma pequena mestre da psicologia inversa, que com três anos, possui um dicionário reduzido, mas um controlo emocional que faria corar o próprio Dalai Lama.
Ela ignora-me com arte. Com a frieza calculada de quem está a montar um puzzle, ou a empilhar blocos de madeira, como se estivesse a reconstruir Berlim depois da guerra.
Eu chamo por ela. Ela nada. Eu insisto. Ela continua. Eu grito “atenção!”, e ela vira-se com um olhar vago, tipo estrela de cinema que já ouviu esta expressão vezes sem fim. E depois volta a brincar com a casa da Gaby. Como se o mundo só fizesse sentido quando ela decide que tem tempo.
Mas no fundo… ela ignora-me porque quer que eu vá. Não que eu chame. Que vá. Que esteja. Que me aproxime. Que me sente ao lado dela, que repare no que está a fazer, que me importe. Ela ignora para me dar espaço – e ver se eu tenho coragem de o invadir.
É um convite disfarçado. Uma porta entreaberta com cara de muro.
E eu? Às vezes não entro. Porque estou cansado. Porque o dia foi longo. Porque há contas por pagar, jantares por fazer, trabalhos que se acumulam como louça suja.
E então deslizo o polegar. Rede social abaixo. Artigo inútil acima. Um mundo a arder lá fora, e eu ali, em silêncio, a apagar-me devagarinho com um telemóvel na mão.
E ela percebe. Percebe tudo. Percebe que a minha cabeça não está ali. Que o meu olhar está desfocado. Que o meu corpo está presente, mas a alma anda a carregar coisas invisíveis.
Então ela devolve-me o favor. Ignora-me com a calma de um velho sábio, mas com a intensidade de quem quer dizer: “Vê-me!”. Não é birra. É desafio. “Se queres mesmo estar aqui, então larga tudo e vem cá ter comigo”.
E quando eu finalmente largo o telefone, o drama, o ruído, e me sento com ela – quando me baixo à altura dos olhos dela e entro no mundo que ela criou, com uma girafa de plástico e duas almofadas do Gato Preto – ela sorri. Um sorriso que não é só alegria. É triunfo. “Sabia que vinhas”.
E nesse momento tudo faz sentido. Porque há uma diferença gigante entre estar perto e estar presente. E ela sabe. Ela sempre soube.
“Ignora-me para me ensinar que o amor, às vezes, vem com o silêncio mais barulhento do mundo.”
Por isso, sim. A minha filha ignora-me. Ignora-me para me testar. Para me provocar. Para me chamar. Ignora-me para me ensinar que o amor, às vezes, vem com o silêncio mais barulhento do mundo. E que ser pai, no fundo, é saber traduzir esse silêncio – antes que ele cresça e deixe mesmo de chamar.
E agora ouço. Ouço mesmo. Ouço com os olhos, com as mãos pousadas no chão ao lado dela, com a respiração mais lenta e o telemóvel virado ao contrário. Ouço o silêncio dela como quem lê um livro sem letras, onde cada página é uma brincadeira que só faz sentido se for partilhada.
Não foi de um dia para o outro. Não foi com uma palestra sobre parentalidade nem depois de ver um vídeo com música triste e frases motivacionais. Foi com ela. Com o olhar dela. Com aquela pausa demorada antes de dizer “nada” quando lhe pergunto o que tem. Com aquele jeito de se aninhar ao meu lado sem dizer uma palavra, como quem vem medir se ainda estou ali.
Foi ela que me ensinou a ouvir de verdade. Não com os ouvidos, mas com a presença. A parar, a baixar o volume do mundo e a escutar o que não se diz.
Ela obrigou-me a crescer. Com três anos. Cresci para lhe caber na infância. Para não ser um adulto em modo automático, mas um pai com atenção plena – mesmo quando tudo em mim pedia distração.
E não é fácil. Há dias em que sou um desastre com pernas. Dias em que me sinto a correr atrás de mim mesmo, com sono, pressa e um saco de fraldas na mão e culpa na outra. Mas aprendi a não me esconder na pressa. Vou aprendendo, todos os dias.
Agora, percebo: ela nunca me ignorou. Estava só à espera que eu a ouvisse com tudo.
Agora ouço. Ou tento, pelo menos… todos nós temos falhas técnicas e atrasos na ligação.
- Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!
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