
Vestir uma criança que vive como o Mogli é, acima de tudo, uma aventura épica – daquelas que deviam ter banda sonora, mas que em vez disso têm o som persistente de uma camisola a ser puxada na diagonal e um miúdo a dizer “quero isto, quero aquilo, e quero isto também, caso contrário não vou vestir mais nada”. Porque o Mogli, esse rebelde da moda infantil, tem um código próprio, um manifesto cromático que beira o surrealismo.
Esquece a lógica, a estética e o bom senso – o Mogli é um revolucionário do armário. Ele pode muito bem querer calças laranja-fluorescente, camisola às riscas verdes e amarelas, que não combinam com nada, e um casaco que parece ter sido roubado ao guarda-roupa de um pirata em férias no Caribe. E tu, o infeliz que só queria vestir o filho sem parecer que saiu de um duelo com um tigre, tens de aceitar que aquele conjunto é a tradução literal da sua personalidade: caótico, imprevisível, e com uma pitada de “vê se aceitas ou vais ter birra até às 10 da noite”.
E eis que começa o ritual sagrado: negociar a colocação da camisola que, misteriosamente, já é pequena demais para o Mogli – apesar de ter sido comprada há duas semanas atrás. A verdade? As crianças crescem com uma velocidade absurda, como se estivessem numa corrida contra o tempo, e a roupa que ontem parecia perfeita hoje já é um espartilho apertado para o teu pequeno Houdini. Ontem as mangas alcançavam as pontas dos dedos; hoje mal chegam ao cotovelo, e tu já te imaginas a encomendar mangas de ganga extralongas no eBay.
Mas a maior diversão – ou desespero – é quando o Mogli decide que hoje é dia de fazer uma declaração política: “Eu visto isto porque quero ser eu”. E assim, sai de casa com um conjunto de meias diferentes, ou com um conjunto que ignora solenemente a estação do ano em que se encontram.
Vestir uma criança assim é aprender a olhar para além do que cabe no armário, para além do que faz sentido para os olhos de adultos fatigados, e aceitar que ali está um pequeno explorador do mundo, a querer ser visto e respeitado nas suas escolhas – por mais incompreensíveis que possam parecer. É perceber que aquela desordem de cores e formas é, afinal, um mapa das suas vontades e descobertas. Tens de manter a calma para explicar que aquela camisola de super-herói não vai com as calças de vilão, mas aceitar, no fundo, que para o Mogli isso é irrelevante – é ele que manda, e ponto final.
“E tu, que durante meia hora tentaste evitar que aquilo se transformasse numa exposição artística de caos cromático, só podes rir, chorar e amar cada instante desta loucura colorida que é a infância em estado puro.”
No fim, quando o Mogli sai de casa naquela “combinação explosiva” – e tu já torces para que não provoque um incidente diplomático no recreio – percebes que, afinal, todas as outras crianças também andam a desfilar os seus próprios desfiles de moda surrealista. E tu, que durante meia hora tentaste evitar que aquilo se transformasse numa exposição artística de caos cromático, só podes rir, chorar e amar cada instante desta loucura colorida que é a infância em estado puro.
Mas há uma lição ainda maior por trás desta batalha diária: a liberdade radical de viver sem precisar agradar a terceiros – a ousadia de ser dono das próprias escolhas, mesmo que isso envolva um guarda-roupa de cores berrantes e combinações que fariam um estilista aplaudir de susto.
Foi então que comecei a pedir às minhas filhas que escolhessem o que eu devia vestir. E lá estava eu, no supermercado, de calções curtos e meias até ao joelho, trajando um outfit que jamais teria sido escolhido por mim mesmo, mas que agora uso com uma confiança tranquila, reforçada pelo seu aval.
Foram elas que escolheram. Quem sou eu para sobrepor a minha opinião às delas sobre o que me assenta bem? Afinal, a quem quero eu agradar, senão às minhas filhas?
No fundo, todos queremos ser o Mogli – livres de amarras e julgamentos. As minhas filhas, com a sabedoria de menos de metro e meio, já perceberam isto muito antes de mim.
No armário do Mogli não há espaço para normas rígidas – só para a expressão genuína, pura e, por vezes, caoticamente bela do que somos. E, acreditem, essa é a verdadeira beleza da infância – e talvez da vida adulta também.
- Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!
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