Guimarães prepara-se para instalar um parque de painéis fotovoltaicos no recinto da feira, um terreno plano de cerca de dez mil metros quadrados no Bairro C, no centro histórico. O projeto é apresentado como uma contribuição direta para a transição energética: a eletricidade produzida poderá abastecer dezenas de edifícios públicos e reduzir emissões de gases com efeito de estufa. À primeira vista, a decisão parece coerente com o título de Capital Verde Europeia.
Mas a pergunta importante talvez não seja apenas quanta energia será produzida ali. A pergunta é outra: que tipo de cidade se constrói quando se decide ocupar um dos raros espaços abertos do centro histórico com uma infraestrutura permanente?

Hoje, aquele terreno tem uma qualidade rara. É um espaço multifuncional. Uma vez por semana acolhe a feira. Em outros momentos pode receber eventos culturais, encontros informais e atividades temporárias. Nos últimos anos passou também a servir como estacionamento, ainda que exista o parque municipal Camões muito próximo.
Essa multiplicidade de usos – imperfeita, improvisada, por vezes contraditória – é precisamente aquilo que caracteriza muitos espaços urbanos vivos. São lugares que não pertencem a uma única função. Adaptam-se às necessidades da comunidade e permitem que a cidade continue a reinventar-se.
Cobrir toda a área com uma estrutura fixa de painéis solares altera essa lógica durante décadas. A feira continuará a existir, mas sob uma cobertura técnica. O estacionamento permanecerá. O espaço, no entanto, perderá a sua abertura física e simbólica. Aquilo que hoje poderia acolher novos usos – um parque infantil, uma pista de skate, um campo desportivo, um pequeno bosque urbano, zonas de sombra e de encontro, eventos musicais ou circenses – ficará estruturalmente condicionado.
A decisão revela uma forma particular de pensar a sustentabilidade: resolver um problema técnico específico, sem considerar plenamente a ecologia urbana mais ampla.
Produzir energia renovável é essencial. Mas não é a única dimensão da crise ecológica. As cidades enfrentam também ilhas de calor, perda de biodiversidade, impermeabilização do solo, escassez de espaços públicos e erosão da vida comunitária. Cada terreno livre no centro urbano é uma oportunidade rara para responder simultaneamente a vários desses desafios.
Neste caso, há ainda outro elemento. O terreno situa-se junto a um ribeiro que, em episódios de chuva intensa, cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas, pode transbordar. Em muitas cidades europeias, espaços semelhantes têm sido transformados em infraestruturas verdes multifuncionais, capazes de reter águas pluviais, reduzir o risco de cheias, refrescar o microclima urbano e oferecer áreas de convivência.
Nada disso é incompatível com a produção de energia solar. Painéis podem ser instalados nas coberturas de escolas, pavilhões, mercados, edifícios administrativos ou parques de estacionamento já existentes fora da zona histórica. A tecnologia não exige necessariamente ocupar um dos poucos espaços livres do centro.
Quando se escolhe esta localização específica, a decisão deixa de ser apenas energética. Passa a ser urbana e política.
“O automóvel mantém assim a sua presença no coração da cidade, agora protegido do sol e da chuva.”
Há também uma questão de prioridades. A cobertura solar permitirá continuar a usar o espaço como estacionamento. O automóvel mantém assim a sua presença no coração da cidade, agora protegido do sol e da chuva. Em vez de reduzir a dependência automóvel no centro histórico, a infraestrutura tende a consolidá-la.
Ao longo das últimas décadas, muitas cidades tornaram-se progressivamente dependentes de sistemas técnicos que reorganizam o espaço urbano à sua volta. O resultado é conhecido: outras possibilidades de uso tornam-se cada vez mais difíceis. A eficiência de uma função acaba por eliminar a diversidade de funções.
É precisamente essa diversidade que faz dos espaços públicos verdadeiros bens comuns urbanos – lugares onde diferentes atividades podem coexistir, onde a comunidade se encontra e onde a cidade mantém a capacidade de evoluir.
O Bairro C já vive um processo acelerado de transformação. O turismo cresce. A presença de residentes temporários ligados à universidade e à indústria aumenta. Os antigos moradores continuam a aparecer nas fotografias institucionais e nos eventos celebrativos, mas são cada vez menos. As famílias com crianças tornam-se raras. O centro histórico começa lentamente a parecer-se mais com um cenário de visita do que com um lugar de vida quotidiana.
Neste contexto, cada decisão sobre o espaço público ganha um significado particular. Um terreno aberto pode tornar-se um lugar onde a comunidade se reencontra – com árvores, jogos, feiras, mercados e encontros informais. Ou pode transformar-se num equipamento técnico com função dominante e horizonte fechado.
Um espaço aberto permite muitos futuros possíveis; uma infraestrutura fixa tende a decidir o futuro da cidade de uma só vez.
A transição ecológica exige escolhas difíceis. Mas talvez o maior risco seja reduzir a sustentabilidade a um único indicador: a redução de emissões. Quando isso acontece, perde-se a oportunidade de pensar a cidade como um ecossistema complexo, onde energia, água, biodiversidade, convivência e identidade cultural fazem parte da mesma equação.
Uma Capital Verde Europeia não se define apenas pela quantidade de energia renovável que produz. Define-se pela forma como cuida dos seus espaços comuns e pela capacidade de imaginar cidades onde a transição ecológica amplia – em vez de reduzir – as possibilidades da vida urbana.
Porque a pergunta decisiva talvez seja: num centro histórico cada vez mais pressionado pelo turismo e pela especialização económica, podemos dar-nos ao luxo de transformar um dos seus raros espaços abertos numa infraestrutura de função quase única?
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