Os primeiros desenhos com braços e pernas

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Sempre achei que a minha filha de três anos tinha uma queda natural para a pintura. Uma alma artística, livre, sem amarras nem convenções. O seu traço era… vamos dizer, vanguardista.

Rabiscava com entusiasmo, como quem tentava capturar em papel o caos interno de um furacão emocional aos três anos de idade – o que, convenhamos, é a forma mais honesta de estar na vida nessa idade. Cores a transbordar, linhas que se cruzavam como se tivesse estudado Kandinsky ao pequeno-almoço. Uma verdadeira representante da escola do Abstracionismo Pré-Escolar.

Confesso: já andava com a ideia de emoldurar um dos seus trabalhos. Faltava apenas aquele momento especial – o rabisco menos violento, o traço ligeiramente menos homicida, algo que dissesse “género humano” mais do que “ataque de tinta” – para poder dizer-lhe, um dia, com o peito cheio de orgulho paternal e ligeira aldrabice:

– Este foi o teu primeiro desenho. O teu início.

Sim, porque há um fetiche qualquer em eternizar o caos das primeiras expressões criativas dos filhos. É uma forma de acreditar que o génio está ali, mesmo que pareça um acidente de marcador fluorescente num papel de cozinha.

Mas depois…

Um dia, vou buscá-la à creche. Entro, como de costume, a olhar para os sapatos espalhados, brinquedos no chão, e eis que paro. Congelo.

Na parede do corredor, colado com fita-cola e estatuto de exposição oficial, está um desenho com o nome dela. Um. Desenho. Com gente.

Quatro figuras humanas. Com caras. Olhos. Narizes. Bocas. Troncos, braços e pernas. Cada figura com uma cor diferente, como numa palete cuidadosamente escolhida.

As educadoras, talvez por excesso de zelo ou pura surpresa, até fizeram questão de escrever por baixo de cada figura: “Mamã, Papá, Maninha mais velha, Maninha mais nova”.

Como é que… como raio é que isto aconteceu?!

Senti-me como quem testemunha um milagre bíblico em papel A4. Tive de me aproximar, cheirar, tocar – sim, toquei, como se pudesse detetar se aquilo era impressão ou pastel de óleo.

Ainda atordoado, fui buscá-la à sala. No regresso, parei diante da obra-prima, e com o ar mais casual que consegui encenar, atirei:

– Filha, foste tu que desenhaste isto?

Ela respondeu com aquele tom de “por amor de Deus, pai, claro que sim”, típico de quem já se habituou ao estrelato.

– Sim, fui eu.

Desconfiei. Ainda havia em mim uma suspeita de que tinha havido outsourcing artístico, talvez um colega prodígio a fazer favores. Mas insisti:

– E quem são aquelas quatro pessoas?

Ela, sem hesitar:

– A mamã, tu, a mana, e eu!

Zás. Tudo certo. Tal como na folha. Fiquei oficialmente desarmado. E, segundo ela, eu sou um boneco vermelho. Um pai palito, com braços maiores que as pernas.

E foi aí que me caiu a ficha: como é que se passa do caos gráfico puro, da arte que parecia feita em transe psicadélico, para esta mini Sistina, com família completa e anatomia funcional?

Não sei. Talvez seja uma espécie de salto evolutivo que acontece da noite para o dia. Uma faísca no cérebro. Um “click” silencioso que transforma rabiscos em pessoas.

“Aqueles que pareciam feitos num concerto dos Ornatos Violeta, de olhos vendados e pincel na testa. Ainda os guardo, claro.”

Desde então, não sei bem o que fazer com os outros desenhos. Os abstratos. Os originais. Aqueles que pareciam feitos num concerto dos Ornatos Violeta, de olhos vendados e pincel na testa. Ainda os guardo, claro. São relíquias de uma era paleolítica, antes da descoberta do fogo anatómico.

Há algo de assustadoramente definitivo nesta mudança. É o momento em que deixamos de ter um ser que explora o mundo à bruta, com cor e saliva, e passamos a ter alguém que começa a organizá-lo. Alguém que nos vê. Que nos interpreta.

Alguém que, em três traços e uma cor primária, nos resume com mais precisão do que qualquer terapeuta. E nós, pais, vamos fingindo que não temos medo disso.

Ela viu-me como um palito vermelho. E, honestamente, não consigo dizer que está errada. Um tipo sempre esticado, com ar esgotado e os braços sempre prontos para carregar filhos, mochilas, mantas, bonecas e trotinete. 

Aquilo não era um desenho. Era um raio-x emocional. Uma caricatura com a precisão de um scanner de alma. E ainda por cima vermelho. Não sei se é amor, perigo ou tensão arterial. Talvez um pouco de tudo.

Naquele dia, em frente à pintura, percebi: Eu sou aquele palito vermelho. E, por mais estranho que pareça, nunca me vi tão bem retratado.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

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