
Olhem, se o Paraíso tem dress code, começo já por avisar que vou precisar de mais um inferno só para passar a ferro.
A verdade é que o ser humano recusa-se a apresentar-se mal vestido até nos eventos mais triviais – uma consulta médica, uma audiência em tribunal, uma reunião de Direção. A ideia de que, no momento de ascender ao Céu, nos é exigido traje apropriado dá-me vontade de pedir uma prorrogação da vida só para conseguir juntar dinheiro para um bom fato. Aparentemente, já não basta morrer em paz – é preciso morrer com estilo. E se morrer de forma ridícula já era embaraçoso, agora morrer mal vestido pode ser razão suficiente para um regresso imediato ao Purgatório, com direito a raspanete celestial à mistura.
Passamos a vida inteira a tentar não matar, não roubar, a engolir sapos no trabalho e a pagar o IRS a tempo, e quando finalmente damos entrada na porta dourada – com os anjinhos todos a fazerem escalas de flauta doce – somos barrados por termos sido enterrados com umas calças de ganga desbotadas.
Ah, mas eram Levi’s. Pois, meu caro, Levi’s não salva ninguém. Nem São Pedro tem paciência para quem confunde eternidade com sexta-feira informal.
Imagino uma fila interminável de recém-falecidos, todos com ar de quem não teve tempo de se arranjar porque, vá, estavam ocupados a morrer. Um com a camisola do Benfica de 2004, outro com uma t-shirt a dizer “Keep Calm and Chama o Padre”, uma senhora com bata de supermercado e um homem com as calças presas com um fio de sisal.
E lá está São Pedro, encostado ao umbral das nuvens, com uma prancheta na mão e um ar de julgamento eterno na outra:
– Boa tarde, nome?
– Sou um justo. Vivi com retidão, ajudei idosos, plantei árvores…
– Ótimo, ótimo. E vem vestido com…?
– Um pijama polar com golfinhos. Morri a ver o Telejornal.
– Hmm. Lamento, mas o Paraíso é lugar de elevação. E não estou a falar só de alma, estou a falar de bainhas. Para a direita, por favor. Vão-lhe dar uma segunda oportunidade, numa próxima reencarnação. Tente morrer num casamento… ou coisa parecida.
A questão é que ninguém sabe qual é, ao certo, o traje exigido. Fala-se em branco. Mas branco como? Branco mesmo-branco ou branco mais-para-bege por causa do amaciador celestial? Liso ou com rendas em dourado? Túnica com decote ou gola subida? E as sandálias? Têm de ser romanas ou vale aquelas que se compram na Feira de Tires por cinco euros?
“Branco é uma cor perigosa. Realça manchas, acentua pregas e põe em evidência aquele corpinho moldado a alheiras e bolachas Maria.”
Se for mesmo obrigatório ir de branco, estamos a empurrar metade da população portuguesa diretamente para o Inferno. Branco é uma cor perigosa. Realça manchas, acentua pregas e põe em evidência aquele corpinho moldado a alheiras e bolachas Maria.
E depois, há os casos especiais. Imagine-se um mártir, uma alma boa, salvou vinte gatos, deu comida aos sem-abrigo, perdoou a sogra e ainda levou com um piano na cabeça a tentar salvar um turista alemão de ser atropelado por uma trotinete elétrica. Aparece à porta do Céu com a roupa rasgada e a cara chamuscada.
São Pedro, com ar de quem já viu de tudo, olha de alto a baixo:
– Olhe, a bondade está cá toda, mas isto assim… parece que veio do Boom Festival. Vá ali ao fundo, à Lavandaria da Redenção, peça a Túnica n.º 3, corte médio. Depois falamos.
Ora isto é o quê? Um julgamento divino ou uma triagem de gala dos Globos de Ouro?
E os naturistas? Gente boa, simples, ecologicamente exemplar. Vão como vieram ao mundo, cheios de esperança e corpo nu, e recebem logo um:
– Desculpe, aqui só entra quem tiver pelo menos uma cueca espiritual. Próximo!
Sinceramente, se o Paraíso exige traje formal, deviam ter avisado com antecedência. Ao menos uma circular, um panfleto, um post-it na Bíblia… algo do género: “Não esquecer – levar vida decente e muda de roupa lavada e passada”.
Isto, meus senhores, levanta um problema teológico de proporções bíblicas: se a salvação da alma depende da aparência exterior, então estamos todos lixados com F maiúsculo e nó de gravata torto. Porque, sejamos honestos, quantos de nós conseguem sequer acertar no que vestir para um batizado? Quanto mais para a eternidade…
Resumindo: já não basta ter o coração limpo, é preciso ter a manga engomada!
Ah, espera… isto são só manias nossas? Afinal, já não é preciso comprar indumentárias na Mango?
Pronto, desculpem lá. Afinal somos só nós que somos um bocadinho exigentes com estas coisas…
Mas atenção: nada de aparecer mal vestido no trabalho, ouviste? Tenho notado que andas um pouco atrevido. Queres que pensem que já desististe da vida, é isso? Vá, compõe-te!
Sinceramente…
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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