O Mal veste fatos e convicções

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Há perguntas tão antigas e empoeiradas que, quando finalmente ousamos fazê-las, acabam por despertar teias de aranha que estavam a dormir na nossa consciência. “De onde veio o mal?” é, sem dúvida, uma dessas questões – daquelas que nos deixam a olhar para o teto, a remoer, com um desconforto persistente que se instala no estômago.

Há quem diga que a origem do mal está em Lúcifer; outros preferem culpar a maçã, Adão, ou o horário nobre da televisão portuguesa. Eu, por mim, acho que começou no dia em que alguém disse com convicção: “Eu é que sei o que é melhor para todos”.

A origem do mal não é o ódio. O ódio é um sintoma. A origem do mal é a convicção. A certeza. O olhar sereno de quem acredita, com todas as fibras do seu ego, que tem razão. Que acha que está a fazer um favor ao resto da humanidade.

O mal não chega com chifres nem fumo sulfuroso. Chega, muitas vezes, com um ar afável, um currículo impecável e uma ligeira impaciência por ter de explicar o óbvio aos que não entendem. É um mal bem-posto, que sabe conjugar verbos e citar estudos. Um mal que muitas vezes manda e-mails com “bons dias” e assinaturas com o nome a negrito.

Não se engane quem espera gritos ou punhos erguidos. O mal, hoje em dia, fala em tom de superioridade. É equilibrado, ponderado, civilizado – e absolutamente incapaz de ouvir alguém que não confirme as suas certezas.

É fácil identificar o mal. Basta procurar quem perdeu a dúvida. Quem responde antes da pergunta. Quem diagnostica antes de escutar. Quem olha para o outro não como um mistério a conhecer, mas como um erro a corrigir.

A maior parte das vezes, o mal não quer eliminar-te. Quer apenas formatar-te.

É nesse ponto – nesse pequeno estalido interno entre a escuta e o juízo – que germina o mal. Um mal polido, que aperta a mão com firmeza, mas que, por dentro, vai limando tudo o que não se encaixa na sua ideia de mundo. E, no fim, diz:

– Não é nada pessoal.

A origem do mal é um daqueles enigmas filosóficos que ninguém quer mesmo resolver. Talvez porque a resposta nos obriga a olhar para o espelho e admitir que, ao contrário de um castigo divino ou de um plano maquiavélico lá do alto, o maior suspeito somos nós próprios. E essa hipótese é daquelas verdades embaraçosas que preferimos varrer para debaixo do tapete.

“Não é uma força misteriosa que nos caiu em cima, como uma tempestade ou um fado trágico, mas antes um produto da nossa capacidade única de complicar o que é simples.”

Se olharmos para a história humana, o mal parece mais uma obra do Homem do que um fenómeno sobrenatural. Não é uma força misteriosa que nos caiu em cima, como uma tempestade ou um fado trágico, mas antes um produto da nossa capacidade única de complicar o que é simples.

O mal habita bem a meia-luz. Gosta de conforto. Gosta de consensos. Detesta ambiguidade – porque a ambiguidade exige pensamento, e o pensamento atrasa. O julgamento é rápido, eficaz e serve em qualquer ocasião: pode ser usado em casa, no trânsito ou em secções de comentários.

E o pior – o pior mesmo – é que o mal também vive em ti. No teu pequeno prazer de estar certo. No impulso de ganhares uma discussão. No alívio de não teres de ouvir o outro até ao fim. Em ti também existe essa faísca: a de reduzir o mundo ao que te parece claro…

O mal vive em mim? Não, claro que não. Graças a Deus, fui feito um exemplo acabado de equilíbrio, razão e perfeição intelectual – uma fortaleza impenetrável a dúvidas e convicções mal fundadas.

Uma cruz pesada, eu sei. Mas alguém tem de a carregar. Não precisava de o dizer, mas percebi que a leitura do parágrafo anterior te causou um ligeiro sobressalto – aquele desconforto inevitável quando se confronta uma verdade inquestionável.

Assim, fica o convite – não para abandonares as tuas convicções, mas para as observares com o olhar curioso de quem sabe que todo o saber é provisório. Questiona, escuta e, sobretudo, ri de ti mesmo. A autocrítica bem-humorada é o antídoto mais eficaz contra a tirania da convicção.

No fundo, talvez o maior remédio contra o mal não seja uma luta heroica contra forças externas, mas a paciência e coragem de enfrentar o que há de mais inquietante em nós: o desejo irrefreável de estar sempre certo.

E, convenhamos, admitir essa imperfeição é o primeiro ato genuíno de liberdade intelectual.

PS: tirando o meu caso, claro, onde a perfeição é absoluta.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!

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