Mais energia limpa Guimarães?

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Se atravessar o centro de Guimarães tarde da noite, encontrará uma cidade curiosamente iluminada. Montras permanecem acesas mesmo quando não há ninguém nas ruas, projetando luz sobre praças quase vazias. Nos últimos meses surgiram também novos mega-ecrãs publicitários – na Avenida Conde de Margaride e junto às Piscinas de Guimarães – transmitindo imagens luminosas durante horas seguidas.

Ao mesmo tempo, a Câmara anunciou a intenção de instalar um grande conjunto de painéis fotovoltaicos no recinto da feira do Bairro C. O objetivo é produzir eletricidade para alimentar edifícios públicos e reduzir as emissões associadas ao consumo energético municipal.

Ecrã da Avenida Conde de Margaride, em Guimarães. © Direitos Reservados

Num tempo de emergência climática, produzir energia limpa parece sempre uma boa notícia. Mas há uma pergunta que raramente aparece nestas discussões: para que usos queremos essa energia – e quem realmente beneficia dela?

Grande parte das políticas energéticas parte de um pressuposto silencioso: a procura de eletricidade é algo natural e inevitável. Cabe-nos apenas encontrar formas mais limpas de a satisfazer. No entanto, a procura de energia não nasce sozinha. Resulta de escolhas – urbanas, económicas e políticas.

Basta observar a cidade para perceber como parte desse consumo é construída. Montras iluminadas durante toda a madrugada, publicidade luminosa permanente ou edifícios comerciais climatizados mesmo quando quase vazios tornaram-se paisagem normal. Cada uma dessas decisões aumenta a procura energética que depois tentamos resolver com novas infraestruturas de produção.

A questão não é apenas tecnológica.

Quando a única resposta política é produzir mais eletricidade – ainda que renovável – acabamos por tratar apenas o sintoma, sem discutir a causa.

“Nas escolas públicas, muitas crianças continuam a ter aulas em salas demasiado frias no inverno ou demasiado quentes nos períodos de calor.”

Ao mesmo tempo, a cidade revela uma curiosa desigualdade energética. Guimarães possui dois grandes centros comerciais permanentemente climatizados e iluminados com intensidade quase festiva, além de várias grandes superfícies comerciais onde a temperatura é cuidadosamente controlada durante todo o ano. Entretanto, nas escolas públicas, muitas crianças continuam a ter aulas em salas demasiado frias no inverno ou demasiado quentes nos períodos de calor.

A situação repete-se em muitas habitações. Casas mal isoladas obrigam famílias a gastar mais energia do que seria necessário apenas para atingir níveis mínimos de conforto térmico. Melhorar o isolamento e a eficiência destes edifícios permitiria reduzir o consumo energético enquanto se melhora diretamente a qualidade de vida.

Tudo isto mostra que o verdadeiro desafio da transição energética talvez não seja apenas tecnológico. É também social.

Antes de decidir onde instalar novos painéis solares, talvez valesse a pena perguntar como a energia já disponível está a ser utilizada. Parte da resposta poderia passar por reduzir consumos que pouco acrescentam à vida coletiva. Outra passaria por direcionar investimento para aquilo que realmente melhora o bem-estar urbano: escolas mais confortáveis, habitações mais eficientes e edifícios públicos menos desperdiçadores de energia.

Enquanto a cidade continua iluminada para ruas vazias, talvez o verdadeiro problema energético não seja produzir mais eletricidade. É decidir para que ela existe.

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