Livros de parentalidade e outras formas de entrar em pânico

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Não sei se já repararam, mas hoje em dia é mais fácil encontrar um livro sobre parentalidade do que encontrar o pai. Aliás, arrisco dizer que há mais livros sobre parentalidade do que crianças a serem educadas.

Há livros para pais, para mães, para tios, para avós, para padrastos, para cães e até para crianças que ainda nem nasceram, mas já têm agenda, psicólogo e um curso de mindfulness intrauterino.

A certa altura, parece que o simples ato de ter um filho já não chega. Agora é preciso certificação, bibliografia, e – se possível – uma tese com citação da Harvard Review of Ninguém-Sabe-o-Que-Está-a-Fazer

Toda a gente tem algo a dizer sobre parentalidade.

O pediatra, o vizinho, a sogra, a influencer vegan que nunca teve filhos mas “sente que no fundo somos todos mães da Terra”. Vivemos numa era em que a dúvida virou negócio, e não há angústia mais lucrativa do que a de alguém prestes a ser pai.

A parentalidade tornou-se um mercado editorial mais fértil do que a própria taxa de natalidade – o que é impressionante, tendo em conta que ninguém tem tempo para ler depois de ter filhos.

Um dia encontrei o meu vizinho, a passear o cão com aquele ar de quem já desistiu de educar qualquer mamífero.

– Vais ser pai? – perguntou ele, com a mesma entoação de quem pergunta se já fizeste o IRS.

– Sim. – respondi com um ar pateta, pouco ponderado.

– Sabes aqueles livros todos sobre como ser pai? Comprei uns quantos. Li-os todos. Assim que tive a minha filha, deitei-os fora. Não me ajudaram em absolutamente nada. Fiquei em pânico.

E pronto. Ficou ele, e fiquei eu! No entanto, refleti na epifania. 

Eis a verdade que nenhum desses livros diz: vais entrar em pânico. Não porque és fraco ou desorganizado, mas porque os livros prometem muito, começando pelo disparate de te ensinarem a criar um ser humano como quem monta uma estante.

É como se a parentalidade fosse uma receita de bolo: “bater com firmeza a autoridade, adicionar duas colheres de empatia, envolver com rotinas estruturadas e cozer em banho de culpa durante 18 anos”. Depois dizes “pronto, está feito”, e sai-te um adolescente que não te olha nos olhos desde os 13.

“Não explicam que vais passar semanas a tentar perceber se aquele choro é de fome, sono, cólica, desconforto existencial ou pura vontade de te quebrar psicologicamente.”

Os livros não preparam ninguém para a realidade. Não explicam que vais passar semanas a tentar perceber se aquele choro é de fome, sono, cólica, desconforto existencial ou pura vontade de te quebrar psicologicamente.

Não mencionam que o “vínculo afetivo” de que falam nos manuais pode, em certos dias, parecer-se mais com síndrome de Estocolmo em versão ponto pequeno, e que, por mais conselhos que sigas, vais sempre duvidar de ti próprio.

Ainda assim, continuamos a comprar livros. Porque é mais fácil sublinhar uma frase inspiradora do que aceitar que estamos todos a improvisar – com sono, com medo, e com nódoas de leite nos ombros.

Continuamos a acreditar que talvez exista um livro que nos diga o segredo. Ou, pelo menos, que nos diga que não estamos a falhar tão espetacularmente como achamos.

Este livro, se queres saber, também não tem respostas. 

Decidi dizer-te isto depois do título da capa para não travar a compra… caíste que nem um pateta, mas a culpa foi tua. Eu apenas capitalizei a tendência.

Ao menos, tive a sensatez de te dizer isto na primeira parte do livro – e não vais ter de chegar ao fim para perceber que foste enganado com subtileza e design gráfico.

Falando de forma mais séria: não há promessas. Mas se conseguires rir-te – de ti, de mim, de tudo isto – talvez te ajude mais do que os outros.

E mesmo que não ajude, ao menos não te pediu para meditares com o bebé ao colo enquanto inspiras gratidão e expiras sono.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

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