“O vírus provocou um tsunami na nossa vida”

Domingos Freitas é médico de família na Unidade de Saúde Familiar de Serzedo, que está na primeira linha de identificação do vírus. Reconhece que o Corona vai mudar muitos dos nossos hábitos de vida.

GA! – O vírus Corona mudou as nossas vidas e rotinas…
DF –
Sim e profundamente, com as medidas de confinamento decretadas. De uma forma generalista, teremos este ano três períodos: até Junho, neste condicionamento violento das nossas vidas, quer profissional, familiar e social; no segundo período, que poderá corresponder ao período de verão veremos como se poderá comportar o vírus em época de temperaturas elevadas; depois teremos o novo ciclo de inverno com o período gripal habitual associado a COVID19. cuja dimensão desconhecemos. Neste período de tempo esperamos ter melhor conhecimento do comportamento do COVID19, perceber que tipo de imunidade poderá criar, na certeza que tem grau de contagiosidade muito elevado e com consequências catastróficas.

GA! – O combate não é contudo medicamentoso?
DF –
De acordo com as recomendações em vigor, num primeiro momento em que se está infectado mas com sintomas leves, o tratamento é feito em casa e isolado. Se houver aparecimento de dificuldade respiratória o tratamento é hospitalar e de acordo com a situação clínica poderá ser necessário escalar até a unidade de cuidados intensivos. Ainda não há tratamento específico anti-viral para o COVID19.

GA! – Trata-se, afinal, de uma luta entre o indivíduo e o vírus?
DF –
Sim. Aliás esta é uma regra geral: a luta entre agressor (vírus ou outro agente infeccioso) e as defesas do nosso organismo que são o nosso sistema imunitário. Há pessoas que, pela sua condição de saúde ou outras, a sua capacidade de defesa está comprometida por isso estão mais frágeis e vulneráveis. São estas pessoas que mais sofrem. Neste caso ainda não há vacinas que nos possam ajudar a aumentar as defesas, resta-nos a prevenção: evitar contactos e higienização rigorosa.

GA! – Quem é infectado e curado, passa a estar imune?
DF –
Ainda não há evidências de que assim seja. Há a expectativa de que haja alguma resposta do nosso sistema imunitário. De que tipo? Com que capacidade protectora? Temos que aguardar e aprender.

GA! – Acredita que este Corona, seja um “um bicho de laboratório”?
DF –
Não creio. A ciência tem estudado muito a evolução dos microorganismos e sabe-se que, no processo natural de evolução, há microorganismos que passam a barreira da espécie. Em particular os vírus, ao longo dos tempos, passaram das plantas para os animais e daí para a espécie humana. O exemplo mais conhecido recentemente foi o vírus da gripe das aves que passou a infectar os tratadores. Esta situação foi controlada, nessa altura, com o abate massivo de aves.

GA! – Este vírus tem a síndrome da solidão, da imprevisibilidade, da cobardia, ataca implacavelmente…
DF –
Sim. Neste caso é totalmente diferente, determinado pela velocidade galopante do contágio e pelas consequências catastróficas que provoca. A luta contra este COVID 19 inclui impor medidas muito drásticas que ninguém imaginava sequer equacionar.
Mas a ciência terá, com certeza, resposta. Infelizmente não temos prazos, mas a solução virá mais cedo ou mais tarde. Em tempo de emergência reforças as defesas e evitar contágios.

“O que estamos a viver é equivalente a um tsunami, temos que evitar a destruição do primeiro impacto, mas vai-nos atingir a todos. Mesmo com menor impacto, mas todos vamos “molhar os pés”…”

GA! – Porém, nesta pandemia…
DF –
O que estamos a viver é equivalente a um tsunami, temos que evitar a destruição do primeiro impacto, mas vai-nos atingir a todos. Mesmo com menor impacto, mas todos vamos “molhar os pés”. Os que estão menos afectados tem que cuidar dos que mais precisam.

GA! – O isolamento social, continua a ser o melhor antídoto, para combater estes vírus?
DF –
Infelizmente é assim. É a medida essencial para evitar a explosão de contágio. E todos temos que participar é muito difícil aceitar. Nós somos um ser gregário. O nosso estilo de vida inclui promover a socialização. Temos como adquirido que a nossa vida é gerida segundo as nossas decisões. Neste caso temos que submeter os nossos desejos a razões de importância maior que é a nossa saúde e a nossa sobrevivência.

GA! – Como se define este calendário de ataque ao vírus?
DF –
A estatística aí está: número de infectados, número de internados, número de doentes em cuidados intensivos, número de mortes, número de curados, número de casos em vigilância, etc… sempre números trágicos.

GA! – Contudo, há já casos que precisam de explicação?
DF –
Sim. Houve um doente infectado com sintomas ligeiros a fazer tratamento em casa que recuperou ao fim do tempo estimado, e que vivia com a esposa que não apresentou qualquer sintoma, esta não foi infectada. Porquê? Ainda não se sabe. Sorte? Não parece. Sob um ponto de vista simples a conclusão pode ser: o seu sistema imunitário consegui vencer o vírus ou o seu sistema de defesa derrotou o vírus.

GA! – O Corona veio numa época onde ainda persistem doenças respiratórias, como as rinites, sinusites e outras.
DF –
Estamos habituados a associar as doenças virais ao tempo frio, ao inverno. As gripes são doenças do inverno. A vacina da gripe recomenda-se em Outubro. Como será este caso? Em primeiro lugar como se vai comportar no tempo de verão? E depois, no inverno, associada às outras viroses? Vai ajudar na sua extinção ou propagação?

GA! – Como médico de uma Unidade de Saúde Familiar, como acha que o sistema de saúde pode responder?
DF –
O sistema de saúde esta todo mobilizado. Está a responder adequadamente, desde as estruturas locais até aos hospitais. Apesar do cumprimento de regras implementadas no sentido de impedir a disseminação e contágio, a actividade clínica continua. As consultas não urgentes são reprogramadas. A capacidade hospitalar está mais alocada a pandemia. No entanto não há só pandemia. O hospital e as outras estruturas de saúde não encerraram para o resto das necessidades. Houve ajustes e mudanças no funcionamento. Mas a vida tem que continuar. Há crianças a nascer, há acidentes ou necessidades a que o hospital continua a dar resposta. Tudo o que é rotina tem que ser tratado na rede primária, para não sobrecarregar o sistema hospitalar. Existe pressão enorme a nível hospitalar, sobre todos os seus profissionais, das suas estruturas com quem todos temos de ser solidários e todos empenhados neste combate. E vamos vencer e seguir em frente.

GA! – Como sente um médico de família, o impacto do vírus?
DF –
É como uma fase de estágio, de diagnosticar e propor, se for caso disso, um tratamento hospitalar para situações que se tendem a agudizar. Felizmente, que sentimos apenas uma ondulação ligeira ao efeito tsunami a que se pode chegar depois se a onda atingisse proporções enormes. A normalidade de uma unidade de saúde familiar também teve de se ajustar à nova realidade, com menos consultas, uma racionalização de serviços, um atendimento diferenciado e por telefone, de modo a não produzir aglomerados de pessoas nas instalações. Mas ainda assim com muita atenção ao doente. Continuamos a trabalhar no horário completo, a tratar de assistir crianças e fazer consultas domiciliárias, uma vez que há quem precise desses serviços.

© 2020 Guimarães, agora!

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