A exigência de consagrar o 24 de junho – o dia da Batalha de São Mamede e do nascimento de Portugal – como feriado em todo o território nacional não é um capricho recente das gentes de Guimarães. É uma bandeira antiga, empunhada com vigor por sucessivos presidentes de câmara – mesmo no Portugal anterior ao 25 de Abril -, onde o Dr. Manuel Bernardino de Araújo Abreu, que liderou o município entre 1969 e 1974, se assumiu como o paladino incontornável dessa reclamação. A partir daí Guimarães sempre exigiu esse estatuto por direito próprio, por imperativo histórico e com a urgência de quem sabe o peso que carrega na fundação de Portugal.
Ao ver, na edição de 4 de novembro d’O Comércio de Guimarães, a afirmação do Presidente da Câmara Municipal “continuarei a defender que em 2028 o 24 de junho seja feriado nacional”, o que se lê nas entrelinhas é a aceitação taciturna de uma derrota institucional e não um grito de audácia.
Com efeito, ao restringir explicitamente o pedido de concessão deste feriado apenas para o ano específico de 2028, a liderança do município conforma-se tacitamente com a ideia de que o país continuará a ignorar o significado profundo do 24 de junho em todos os anos posteriores a 2028, por mais um século, até à comemoração do milénio. E assim, não se trata de projetar o futuro com arrojo, mas antes validar o desejo de esquecimento centralista no presente e no porvir, assumindo a incapacidade de garantir a perenidade desta justa reclamação histórica do “Berço”.
“Se o principal objetivo da autarquia era alcançar o merecido feriado nacional para o dia 24 de junho, a grande luta e o foco da sua diplomacia cultural deveriam ter sido outros.”
Este resultado penoso deve-se, em grande medida, à gritante falta de um plano estratégico municipal. Na verdade, se o principal objetivo da autarquia era alcançar o merecido feriado nacional para o dia 24 de junho, a grande luta e o foco da sua diplomacia cultural deveriam ter sido outros. Impunha-se a demonstração inequívoca e persistente, junto do poder central e da opinião pública do país, de que a Batalha de São Mamede e a própria independência de Portugal são idendipartários, isto é, realidades ocorridas no mesmo dia. Sem essa narrativa forte e estruturada, Guimarães ficou desarmada para se opor à comemoração repartida e prolongada da fundação de Portugal que agora nos foi imposta por Lisboa.
Ao falhar na construção desta base conceptual, o município permitiu que a principal causa fundacional do país fosse menorizada como uma mera reivindicação bairrista ou local. A ausência de um plano que justificasse o 24 de junho como o dia em que Portugal alcançou a sua independência, deixou a pretensão institucional vazia de poder político. E agora, sem um plano que eleve São Mamede ao estatuto, singular e indiscutível, de facto histórico fundador de Portugal, a exigência de um feriado nacional perene perde força e esbarra nas barreiras ideológicas da nomenclatura.
A eventual concessão de um feriado nacional cingido estritamente ao 24 de junho de 2028 esconde, no fundo, uma prenda envenenada para Guimarães, porque ao aceitar uma celebração nacional justificada apenas pelo simbolismo redondo do nono centenário da batalha, a autarquia assina a certidão de óbito da perenidade da sua causa. Longe de ser uma vitória, este hipotético “favor” de Lisboa serve apenas para anestesiar a exigência vimaranense, reduzindo o autêntico ato fundador de Portugal a um evento efémero e descartável, que no dia seguinte regressará à gaveta do esquecimento nacional.
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