
Vamos falar a sério, tu e eu. Só por um instante. Sem selfies, sem filtros, sem hashtags de #bondade ou #solidariedade. Só tu, eu, a tua consciência e esta ideia desconfortável: só fazes o bem quando alguém está a ver.
Não fiques já ofendido. Não és o único. Esta epidemia de altruísmo performativo não é só tua – é nossa. É da espécie. É da época. Vivemos tempos em que a bondade foi terceirizada para a aparência e a compaixão transformada numa ferramenta de marketing pessoal. Já não somos virtuosos – somos curadores de imagem moral.
Pensa comigo: quantas vezes fizeste o bem sabendo, com toda a certeza, que ninguém te ia ver? Quando não havia foto, nem story, nem um comentário a dizer “que gesto tão bonito”? Pois. O teu ego não se levanta do sofá sem plateia. És solidário, sim – mas com hora marcada, roupa adequada e uma legenda inspiradora pronta a publicar. És generoso, claro – desde que haja registo. O bem transformou-se numa coreografia social, uma espécie de estética moral.
Fazer o bem dá trabalho. E tu – nós – queremos retorno. E não falo apenas de dinheiro. Falo de reconhecimento. De prestígio. De ascensão moral na hierarquia invisível da virtude. Já não basta ser bom; é preciso parecer bom, ser notado, elogiado, repostado.
O problema é que o verdadeiro bem – o que é difícil, sujo, incómodo, lento – não compensa a curto prazo. Não dá pontos. Não tem luz própria. Ajudar um idoso a carregar sacos por cinco andares? Um calvário. Mas se houver vizinhos a ver, ou fores partilhado num grupo de bairro no Facebook? Ah, aí sim. És um herói.
Repara como te comportas quando estás sozinho: ignoras. Desvias o olhar. Finges que não ouviste. “Não posso ajudar toda a gente”, dizes, enquanto passas ao lado de quem precisa – porque não há testemunhas, nem likes, nem capital social a ganhar com esse incómodo. Mas basta saberes que estás a ser observado – mesmo que só por uma câmara “que talvez esteja ligada” – e a tua postura muda. Endireitas as costas. Ajudas. Ofereces. Sorris. Viras missionário por reflexo reputacional.
E não é só nas ações. É nas palavras. Nos textos inflamados sobre justiça, nas partilhas indignadas, nos vídeos emocionantes com violinos ao fundo. Tu queres a narrativa do bem – não o compromisso real com ele. Porque a verdadeira bondade exige presença, continuidade, silêncio. E tu preferes fazer um gesto comovente uma vez do que seres útil todos os dias de forma invisível.
“Fazemos o bem porque isso nos protege. Porque, ao sermos vistos como “bons”, somos incluídos, respeitados, escolhidos.”
Mas olha que isto tem uma raiz mais funda. É antropológica. O ser humano é um animal social – e a moralidade surgiu, não da filosofia, mas da necessidade de aceitação. Fazemos o bem porque isso nos protege. Porque, ao sermos vistos como “bons”, somos incluídos, respeitados, escolhidos. A bondade não nasceu da ética – nasceu do medo de ser expulso da tribo. E hoje, com as redes sociais a amplificar tudo, o grupo é maior, o palco é global e a ansiedade de pertença é industrial.
Daí o paradoxo: quanto mais falamos de empatia, menos a praticamos. Quanto mais partilhamos frases de Gandhi, menos ajudamos o vizinho. Quanto mais dizemos “o que importa é o interior”, mais tratamos da fachada.
Ao final do dia, tu não vales pelo número de likes nos teus gestos. Nem pela piedade encenada ao domingo. Tu vales – mesmo – pelas coisas boas que fizeste quando sabias que ninguém ia saber.
A ética, quando é real, não precisa de holofotes.
Agora vou ter de ir… tenho de aproveitar para me filmar a ajudar o estafermo de um velho que está a tremelicar-se todo para atravessar a passadeira com as compras nas mãos. Este é prioritário porque mora no prédio mesmo aqui ao lado. Se fosse outro, lá do fundo da rua, ainda ponderaria desenvolver mais esta crónica…
Até já!
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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