Fernando Merino: o construtor do cluster de têxtil técnico na Turquia

Saiu de Guimarães para São João da Madeira e foi parar a Denizli, a cidade da Turquia, onde o coração do têxtil técnico bate mais forte.


A sua missão é ser team leader num projecto com um objectivo claro: desenvolver um centro tecnológico e formar um cluster de têxteis técnicos.

Em Frankfurt, na Heimtextil, Fernando Merino falou-nos deste projecto e deixou a sua opinião sobre o estado do sector na Europa.

O projecto que desenvolve é financiado pela União Europeia e pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Turquia. “Começou há dois anos e tem uma duração de três” – afirma.

Estruturalmente, o projecto promove acções de sistematização, seminários e estudos de mercado, e adopta tecnologia mais recente para o desenvolvimento do têxtil-lar e do têxtil técnico turco.

São inúmeras acções de formação e consultadoria específica que Fernando Merino vai orientar com a sua equipa da Câmara de Comércio de Denizli, a principal cidade e província dos têxteis turcos.

“Os têxteis produzidos naquela província são dos melhores do mundo e rivalizam com os portugueses”.

Fernando Merino não tem dúvidas de que “os têxteis produzidos naquela província são dos melhores do mundo e rivalizam com os portugueses”. Em Denizli, já é Médio Oriente e nota-se os factores concorrenciais dos têxteis técnicos turcos: os salários que se pagam no sector, o que deixa uma porta aberta à concorrência asiática que também joga nesse campeonato.

Porém, a competitividade obriga a rever todo o processo de produção dos têxteis técnicos. Daí terem sentido a necessidade de através de um centro tecnológico aprofundarem ainda mais a evolução que se regista nesta área. E acentuar a definição de um cluster para manter o sector mais organizado e atento à evolução europeia e mundial.

“Tornar o sector mais competitivo, vai muito além de ter salários baixos” – acentua – notando que “é crucial promover a transformação, tornando as empresas também produtoras de têxtil-lar”

Foi nessa transformação que os turcos apostaram, com cada vez mais empresas a optar pelo têxtil-lar e dando maior escala e maior dimensão ao sector têxtil.

Fernando Merino coloca-se numa posição “de treinador de futebol” quando se fala na concorrência dos turcos ao têxtil português sabendo que está a ensinar algo que nos distingue. E que marca a sua experiência profissional.

Interrogado se o projecto que protagoniza poderia ter de algum modo aplicabilidade em Portugal, Fernando Merino recorda o tempo que passou no CITEVE, há mais de 20 anos, “e dos primeiros passos que foram dados para reforçar o desenvolvimento da investigação no têxtil-lar e reforçar a aposta no têxtil técnico”.

Diz que “o que estou a fazer não é exactamente igual mas do género” recordando o trabalho, iniciado em 2001, com Paulo Fangueiro professor da Universidade do Minho. E mais tarde, quando depois de 2005, acompanhou a Selectiva Moda na organização do primeiro evento, fora de portas, com 10 empresas, dando maior força ao têxtil técnico português.

Lembra-se como a presença portuguesa se passou a sentir nas feiras europeias, da Techtextil (Frankfurt) à Medica (Düsseldorf) e outras mais.

Depois de concluir o seu projecto na Turquia, Fernando Merino admite voltar para Portugal, numa altura em que tem na sua carteira vários desafios “lá, na Turquia e cá, em Portugal”.

Instado a olhar – a partir do país euro-asiático – para a indústria têxtil portuguesa e vimaranense, o que lhe salta à primeira vista é a dimensão das empresas e do sector, comparativamente diferentes. 

Reconhece que “há empresas portuguesas muito bem equipadas e modernas mas que continuam com défices no seu sistema organizacional e de gestão” algo que tem a ver com as influências culturais, facto que diferencia as empresas portuguesas das turcas.

“Continuamos mais avançados, mais ágeis e eficazes no serviço”.

No que toca à inovação e ao design e apesar de toda a influência alemã na indústria têxtil turca, Fernando Merino não tem dúvidas de que “continuamos mais avançados, mais ágeis e eficazes no serviço, com avanços em que o design motiva a inovação”.

Relativamente a Guimarães e a sua procura sobre um modelo de transformação industrial, reconhece que a sua forte ligação aos três sectores ditos tradicionais – têxtil, calçado e cutelaria – esmorece o aparecimento de outros sectores que podiam ser complementares e poderiam ajudar a um desenvolvimento noutras áreas.

Admite que o têxtil técnico puro e duro poderia ter sido mais desenvolvido pelo seu potencial actual e fortalecido pela existência de centros tecnológicos na região do Ave.

“Não encontramos em Guimarães uma empresa de referência na área da saúde, do automóvel… e para ter empresas que se destacam nestes sectores temos de olhar para Vila Nova de Famalicão” – destaca.

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Neste seu olhar sobre Guimarães e na sua competitividade com municípios vizinhos, Fernando Merino lembra-se do passado, em 1989, quando se deixou fugir o CITEVE para Famalicão. 

“São coisas antigas mas ainda vivas pelas suas implicações no futuro, de hoje. Então discutia-se onde deveria ficar o centro tecnológico, formado pelo CITEVE e CENTI. O que se verificou é que também pela dinâmica da Câmara Municipal de Famalicão, em torno desta estratégia, acabou por arrastar para aquela cidade vizinha algumas iniciativas que deviam localizar-se em Guimarães, a cidade do têxtil-lar e do têxtil técnico” – defende.

Admite que a TMG, tenha em Campelos, uma boa unidade de têxteis técnicos com produtos mais plastificados quando a tendência é que os fios e tudo o que é têxtil pode ser transformado com maior valor acrescentado na indústria automóvel, de saúde ou na espacial. Reconhece que os produtos que se incorporam nos têxteis técnicos tem apenas uma parte têxtil de cerca de 20% quando podiam ter mais, dado o que resta da produção do têxtil-lar que reciclado e aproveitado poderia dar lugar à expansão industrial.

Fernando Merino é crítico quando entende que “o conhecimento sobre o têxtil não tem sido aproveitado”, facto que poderia tornar a cidade ainda mais tecnológica. Não tem dúvidas de que Guimarães retardou o seu desenvolvimento ao não desenvolver o têxtil técnico, para a saúde, para a construção e para o automóvel.

E como se vê agora “a sustentabilidade é uma questão transversal à indústria e não de especialização de um determinado foco industrial”. E é “tão importante no automóvel como na moda”.

Lembra o esforço que “a Turquia está a fazer para entrar no sector automóvel e na cadeia de fornecimento que lhe está associada, reconhecendo-se como muito complexo. Mas não deixa de tentar, com um cada vez maior número de empresas turcas a reconhecer o nicho como apetecível mas que ainda não resolveram os problemas de logística que a montante prejudicam as suas ambições”.

Sobre o balanço do seu projecto em Denizli, aceita que “é uma experiência muito enriquecedora, que me proporciona um traquejo internacional muito grande e exigente e me dá oportunidade e capacidade de desenvolver, em equipa, ideias e projectos à medida”.

Fala do sucesso que foi “ter conseguido num ano, que 40 empresas seleccionadas, duplicassem as receitas de cada uma”. Sente-se por isso como “um médico industrial”.

O trabalho de cluster não está concluído mas as empresas têxteis vão conhecer a realidade de outros sectores – automóvel e imobiliário, de modo a conhecer todo o seu potencial e onde se possam estabelecer pontos de cooperação e de partilha. “Noto que já há um reconhecimento de que o trabalho que está a ser feito é muito importante” – realça.

“Isto não se fez em Portugal nem em nenhum lugar da Europa”.

O arrojo do projecto – criar um centro tecnológico e desenvolver um cluster – permite conscientemente aceitar que três anos não são suficientes para o concluir. Porém, está a arrastar as empresas para terem coisas para mostrar. “Isto não se fez em Portugal nem em nenhum lugar da Europa” – destaca. 

Veja-se que o CITEVE foi criado em 1989, os clusters, como o do têxtil, surgiram muito mais tarde e pelo meio foram aparecendo projectos diferenciadores desenvolvidos pela investigação feita em conjunto, entre CITEVE e empresas.

O que está a dar na Europa, em termos científicos e tecnológicos nesta área do têxtil? Que tendências emergem? Fernando Merino responde reconhecendo que Portugal tem casos interessantes de empresas que sendo do têxtil tradicional (têxtil-lar) conseguem introduzir inovação – e a Turquia ainda não está aí -, introduzindo novos materiais, integrando tecnologia, como fazem algumas empresas de Guimarães.

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Recorda que os turcos só conheceram o que eram os têxteis técnicos há dois anos. Mas avançam com alguma rapidez na inovação e começam a ser capazes de utilizar o têxtil-lar na área médica, graças a um sistema de saúde muito forte e muito avançado. Sabe-se o que a Turquia faz no Turismo de Saúde onde é já uma referência. Tem muitos hospitais e muitos deles universitários, tem muita investigação. É já uma tendência a nível europeu.

Há depois uma necessidade de trazer inovação para a saúde e em relação aos têxteis já estão a ver como podem aplicá-los ao nível da reabilitação de doentes. Também no caso de crises pandémicas, apostam muito porque hoje é o covid-19 mas amanhã será outro vírus qualquer.

No sector automóvel, o que se nota nos últimos concept car são os materiais sustentáveis, orgânicos, bio-degradáveis. Há casos em estudo como a introdução de luzes para descontaminar ambientes de saúde. E a electrónica pode ser o próximo caso de inovação tecnológica com aplicações em vários soluções médicas e de materiais flexíveis.

📸 GA!

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