
Deus me livre de ser perfeito. Literalmente. Se há coisa que me apavora mais do que uma falha pública, é não ter nenhuma. A perfeição é aquela maldição socialmente aceite que nos obriga a sorrir sem ranger os dentes, a responder a e-mails com pontuação exemplar e a fazer salada de quinoa com ar de quem gosta mesmo daquilo.
A perfeição tem rugas na alma. Vive de contagem de passos, de macros, de água com limão em jejum e de meditação às seis da manhã, como se o silêncio fosse terapêutico e não apenas deprimente antes do café. Essas pessoas perfeitas dizem coisas como “acordei naturalmente” ou “sou grato por tudo” – o que é uma maneira gira de dizer que não têm filhos pequenos nem contas para pagar.
No entanto, há uma tragédia silenciosa na vida dos perfeitos: ninguém os aguenta. A perfeição é um convite constante à insegurança alheia. É como aquele colega de trabalho que leva marmita saudável, entrega tudo antes do prazo e ainda pergunta se precisamos de ajuda – e que, por isso mesmo, alimenta a nossa vontade de o empurrar suavemente para dentro de uma impressora multifunções.
E depois há o lado doméstico. Viver com alguém perfeito deve ser o equivalente emocional a partilhar casa com um tutorial do YouTube: tudo parece simples, rápido, eficaz… mas tu continuas a partir ovos com casca. Eles dobram toalhas com geometria sagrada, limpam o pó com panos de microfibra e dizem “nós” quando falam de decisões que claramente foram só deles. Dizem “temos de comer melhor” quando querem que TU comas melhor. E fazem amor com técnica, luz ambiente e uma playlist chamada Tantric Vibes.
Mas o problema maior é que a perfeição não falha, e quem não falha, não aprende nada. Nunca se dá o verdadeiro trambolhão, nem se conhece o sabor das desculpas sinceras. Um ser perfeito é um ser humano em modo avião: parece estar ali, mas não está a viver nada. Não há rasgo, não há tropeção, não há gargalhada fora de horas com batata frita na camisa.
A perfeição não tem histórias. No máximo, tem relatórios.
“Deus me livre de ser o pai que nunca perde a paciência, o amigo que está sempre disponível, o profissional que não falha uma opinião.”
Por isso, Deus me livre. Deus me livre de ser o tipo que nunca se esquece de um aniversário, que tem sempre a palavra certa na ponta da língua, que nunca diz asneiras em contextos profissionais. Deus me livre de ser o pai que nunca perde a paciência, o amigo que está sempre disponível, o profissional que não falha uma opinião. Isso não é virtude – é cansaço acumulado com boa apresentação.
Prefiro mil vezes ser o que tropeça nas palavras e nas pedras, que escreve mensagens demasiado longas, que responde “estou a tentar” em vez de “tudo ótimo!”. Prefiro ser o que chora em anúncios da Vodafone, que grita com o volante e depois pede desculpa ao volante, que se esquece da máquina da roupa e tenta resolver com perfume barato e fé imperfeita.
Ser imperfeito é estar vivo. É admitir que não sei, que não consegui, que tentei e saí de lá com um joelho esfolado e um ensinamento que não serve para nada, mas que me faz rir. É olhar para o caos e pensar: “bem, ao menos está com boa luz”.
Portanto, se um dia me virem impecável, sem olheiras, sem nó de gravata torto, sem dúvidas, sem mágoa, sem vinagre nas batatas… chamem ajuda. É provável que tenha sido substituído por uma aplicação.
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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