Maria Vieira da Silva
Natural de Guimarães - Qualificações académicas: Mestre em Direito da União Europeia pela Escola de Direito da Universidade do Minho e licenciada em Relações Internacionais pela mesma Universidade, onde desenvolve investigação no Centro de Estudos em Direito da União Europeia. - Perfil profissional: Jurista em Direito da União Europeia e consultora em cooperação para o desenvolvimento.

Feminismo radical ou continuação da luta de classes por outros meios

O feminismo, enquanto movimento político que lutou pela igualdade de oportunidades da mulher desenvolver todo o seu potencial e pelo dever de mulheres e homens trabalhar em conjunto para derrubar barreiras e acabar com os preconceitos que ainda aprisionam as mulheres, não se encontra representado nos movimentos feministas da actualidade. Os movimentos feministas que ocupam o espaço público não lutam pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas, sim, por um ideal totalitário.

São os chamados movimentos feministas radicais de 3.ª e 4.ª geração, que repudiam o homem, o patriarcado, o amor romântico, o casamento heterossexual, a família, o sexo heterossexual, a maternidade, a amamentação, os filhos, o trabalho doméstico, a beleza feminina, a moda, as mulheres trabalhadoras do sexo, as mulheres transsexuais, o capitalismo e o neoliberalismo.

Acusam o sistema patriarcal e as sociedades capitalistas de serem as principais fontes de opressão das mulheres, com o sexismo encriptado nas suas estruturas.

Assim, todos os homens, de preferência brancos e ocidentais, passaram a ser o “inimigo” social que tem de ser destruído ou reeducado, sem ter em conta a ligação das mulheres com a natureza, ou seja, com a procriação.

Com o inimigo bem identificado, algumas activistas partiram para vias de facto, como a teórica feminista radical Valerie Solanas, famosa pela tentativa de assassinato de Andy Warhol em 1968, e autora do manifesto SCUM (Society for Cutting Up Men, 1967), no qual defende a reeducação do homem e o seu extermínio.

Mas a seria a dupla Catherine MacKinnon e Andrea Dworkin que viria a declarar guerra ao homem, quando, com base numa experiência de violação pessoal, acusou todos os homens de estupradores em potencial, ao mesmo tempo em que afirmou que a relação heterossexual seria sempre violenta.

A verdade é que foi graças a esta dupla que se chegou à tresloucada histeria da “cultura de estupro”: hoje fala-se de cultura de estupro como se o Ocidente fosse o Afeganistão ou Congo.

Desde então, as generalizações, altamente questionáveis, passaram a dominar a agenda do feminismo radical, levando algumas activistas a criarem cursos que incentivam as mulheres a matarem os seus parceiros, como a deputada do Podemos, Nadia Álvarez, autora do slogan “Si Te Maltrata, Mátalo”.

Por cá, e para não ir mais longe, porque de facto não vale a pena, temos a Catarina Isabel Martins, dirigente do Bloco de Esquerda, que compara peças de lingerie – como um baby doll – oferecidas pelo homem à mulher, com uma burqa, e a reduzir as mulheres portuguesas a meras “reprodutoras, parideiras, fadas do lar, e garantes da sustentabilidade da “raça portuguesa” (“Com elas no sítio”).

Mas será mesmo o homem heterossexual um violador e a violência doméstica exclusivamente heterossexual ou o feminismo radical não passa de mais um projecto de engenharia social, na esteira da tentativa fracassada do “amor livre” comunista?

Os dados sobre violência e violência doméstica sugerem o contrário:  a violência homossexual tende a ser maior do que a violência heterossexual.

As fontes sobre a matéria são abundantes a nível internacional, mas para não vos maçar muito cito apenas dois estudos: Invisible Victims: Same-Sex IPV in the National Violence Against Women, de Adam M. Messinger e La Violenza Domestica e di Appuntamento Verso Donne LBT Nell´Unione Europea, de Moscati, MF.

No primeiro estudo, Messinger não só constatou que as pessoas homossexuais têm maior probabilidade de sofrer formas de violência, como destaca que as lésbicas estão em maior risco de ser vítimas de violência na intimidade do que os gays. As taxas de violência apresentadas atingem 43,8% das mulheres lésbicas e 26,0% de homens homossexuais, comparado com 35,0% das mulheres heterossexuais e 29,0% dos homens heterossexuais.

No segundo estudo, que faz parte de um projecto da União Europeia, o autor chega à mesma conclusão: numa amostra composta por 102 mulheres lésbicas, principalmente italianas (88,2%), uma em cada cinco admitiu ter medo da companheira e 41,2% admitiu ter sido vítima de violência e agressões físicas.

Em Portugal reina um silêncio ensurdecedor sobre a violência doméstica entre casais do mesmo sexo…

Em Portugal reina um silêncio ensurdecedor sobre a violência doméstica entre casais do mesmo sexo, quiçá para não estragar a narrativa do homem heterossexual bárbaro, mas foi possível encontrar, ainda assim, alguns estudos e uma ou outra referência nos jornais: no Jornal Público, que refere um estudo da Universidade do Minho, no qual conclui que “Violência entre casais homossexuais é maior do que nos heterossexuais” e no Jornal Diário de Notícias, que refere outro, intitulado “Homens vítimas de violência doméstica ficam em “silêncio”.

Em qualquer um dos casos, as causas apontadas para a violência doméstica entre casais de pessoas do mesmo sexo são as mesmas, em termos de caraterísticas e dinâmicas, às praticadas entre casais de pessoas de sexo diferente, ou seja, assimetrias egocêntricas e insanas de poder.

Não há dúvida, todavia, de que tanto uma como outra são hediondas e indignas de uma sociedade civilizada, mas estão longe do zeitgeist de género que promove a diabolização do homem e a vitimização da mulher.

O mesmo se pode dizer relativamente às mulheres portuguesas “parideiras” e “garantes da sustentabilidade da “raça portuguesa”, como nos retrata a militante do Bloco de Esquerda, quando todos sabemos que Portugal é uma espécie de Vaticano, onde quase ninguém nasce, só se morre (mas isso será reflexão para outro texto).

O certo é que esta espécie de alucinação do feminismo radical tem muito pouco a ver com a Mulher, mas com conceitos marxistas de luta de classes, aplicados ao género, que distorcem de modo grotesco a realidade, lança a confusão entre homens e mulheres e prejudica seriamente o feminismo.

Na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas do século XX, os comunistas também consideravam a família o maior obstáculo à devoção das mulheres aos “amanhãs que cantam”. Para destruir a família socorreram-se das teorias marxistas que culminaram no Código da Família de 1918, famoso por ter imposto o “amor livre”. O resultado foi que ao invés de libertar as mulheres, o regime comunista atirou-as para a prostituição. Nos anos 40 a ideologia do “amor livre” viria a ser abandonada e substituída por outra pró-família.

O feminismo radical actual, com a sua retórica propagandística, agressiva, punitiva, censória, autocrática e afastada da realidade dos factos, não deixa de ser a continuação da luta de classes por outros meios.

© 2020 Guimarães, agora!

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