Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

Em Defesa das Nicolinas

“Ser Nicolino é ter olhos de criança num mundo que não pára de envelhecer.”

Pessoa escrevia que se nascia português por castigo ou por missão. Ninguém escolhe onde nasce. Calhou-me em sorte Guimarães. Escrevo sorte como fatalidade. Não me sinto privilegiado, nem amaldiçoado, ou às vezes sinto-me privilegiado, noutras amaldiçoado.

Novembro/ Dezembro é uma altura em que o privilégio me assola a Alma e dou graças a algo por ter cá nascido. Ou estudado. Muitos dos meus antanhos de carteira não nasceram cá, mas abraçaram o culto a São Nicolau, o padroeiro dos estudantes, de pleno direito, como seu.

Ser Nicolino é isto, numa versão muito simplificada: estudar ou ser estudante em Guimarães. Depois levanta-se a questão da militância, ou do ser ou não praticante. Para mim, os Festejos a São Nicolau, ou as Nicolinas, como João de Meira as baptizou, no seu Pregão de 1904, são uma metáfora para a generosidade, uma característica bem (re)conhecida do Santo de Mira.

As Nicolinas são, também, Saudade. Muita, muita Saudade. Escrevo este texto no dia do 83º aniversário da inauguração do Teatro Jordão porque foi lá, com 5 ou 6 anos, que eu soube que queria ser mais do que um Nicolino circunstancial. Assistindo às Danças de São Nicolau, a partir do 1º balcão, vi o meu primeiro Afonso Henriques de carne e osso: o (Zé Maria) Magalhães. O Zé Maria foi o meu herói desde aquele dia até hoje. A morte levou-o, no ano passado, mas ele seguirá, para o resto da minha vida, a ser o Maior. Sou Nicolino, ou quis sê-lo, graças a Ele.

Já tentei explicar as Nicolinas a quem não as entranhou desde o sopé da existência, mas é difícil, muito difícil.

Já tentei explicar as Nicolinas a quem não as entranhou desde o sopé da existência, mas é difícil, muito difícil: como explicar a pele de galinha quando se escutam, ao longe ou ao perto, a cadência das caixas e dos bombos, uma mole lançada ao frio, enfrentando o que vier, para erguer, ao alto e ao longe, o símbolo-mor do começo? Como é que se pinta, com cores rebuscadas e palavras de gaveta, uma série de eventos aparentemente banais que mexe, por completo, com a Alma de um espaço geográfico?

Tenho muitos momentos que recordo com aperto no coração: a 1ª vez que assisti ao cortejo do Pinheiro, a 1ª vez que vivi as Nicolinas por dentro, enquanto estudante da Martins Sarmento, as últimas Danças de São Nicolau no Jordão, a 1ª vez que assisti ao Pregão (com o Rui Chinês a pregoeiro), a 1ª vez em que participei no cortejo do Pinheiro, a 1ª vez em que participei nas Nicolinas enquanto universitário (vindo à pressa para estar presente), o dia em que conheci o Xico do Jesualdo (outro Gigante, o 2º Maior, para mim), o 2º Pregão que escrevi, a apresentação do “Manual Nicolino”, a 1ª vez em que li a frase “Enquanto houver mundo, há-de soar o grito Nicolino”, algures na rua.

E tanto mais. Tudo começou no Teatro Jordão, numa noite de 6 de Dezembro (dia de São Nicolau), com uns olhos de criança que teimam em enfeitar-me a cara.

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