Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

Carta aos Avós de Portugal (e do Mundo, por que não?)

Caros Avós, Obrigado. É pouco, eu sei, mas é um começo.

Muitos de vós, sei-o bem, tivestes uma vida duríssima, sem acesso aos dados adquiridos, quando mais jovens, com que agora nós, os vossos netos, nos deparamos.

Fosse por terem sido apartados, quase todos, da rodinha do conhecimento, lançados a um trabalho (quase) desde crianças ou habituados, quase sempre, e desde cedo, à máxima do “tem de ser”.

A realidade, queridos Avós, é que no vosso tempo era mais fácil formatarem-vos para uma realidade que se vos vendia como inevitável.

Como se vocês se tivessem deparado com uma igualdade avassaladora de oportunidades.

As vossas reformas, depois de anos e anos de trabalho duro, mas trabalho digno, como qualquer outro, são, com algumas (poucas) excepções, baixíssimas, ficando, muitas das vezes, à porta da dignidade. Os senhores que vivem na ilusão de perceberem alguma coisa gostam de justificar isso com as vossas, regra geral, “poucas qualificações”. Como se vocês se tivessem deparado com uma igualdade avassaladora de oportunidades. Nem agora, quanto mais antigamente.

Eles ignoram que muitos de vós conseguistes criar os vossos filhos com muitas dificuldades, muitas das vezes com enormes sacrifícios à mistura, com os vossos filhos, nossos pais, a serem também sacrificados, de alguma forma, porque a roda não permitiu grandes ensaios.

Tudo isto passa ou passou à frente dos nossos olhos, fosse de que forma fosse, sem grandes alaridos. Quem se importou?

Agora, a partir de um mundinho de privilégio e de uma ideia de superioridade moral retorcida, há quem queira usar e abusar de vós para querer fazer passar uma chantagem inaceitável. Logo a vós, que passastes pela guerra, pela necessidade de dobrar a fronteira a salto ou de trabalhar no que calhasse para colocar pão na mesa. A vós, que sois a consciência moral de um tempo em que abundaram as crianças adiadas: vocês.

A vós, que fizestes do hábito de viver o Natal pelos olhos e pelas mãos dos vossos filhos e netos a vossa própria experiência natalícia. Quanta generosidade.

A vós, que sabeis que a solidão, a falta de afecto e a falta de empatia também matam. E doem.

Mereceis todos os Natais, inteiros e plenos, de preferência sem  ameaças condescendentes e paternalistas. Com cuidados, sim, mas sem convites à ausência de luz e à resignação.

Bom Natal. E Obrigado, que é pouco. Sê-lo-á sempre.

© 2021 Guimarães, agora!


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