Como é que as pessoas assexuais navegam a intimidade?

Data:

Um estudo realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou os fatores associados às diferentes cognições, emoções e desejos reportados por pessoas do espetro da assexualidade (“a-spec” – termo mais inclusivo para ilustrar a diversidade de experiências e vivências). Os resultados deste estudo salientam a importância das diferenças individuais nas vivências das pessoas a-spec, algo que pode contribuir para promover uma sociedade mais informada e a elaboração de políticas mais inclusivas.

A assexualidade é tipicamente definida como a falta de atração sexual (por vezes, associada a uma repulsa sexual). Contudo, essa definição é simplista e limitada para descrever a multiplicidade de experiências vividas pelas pessoas da comunidade a-spec. Explorar e caracterizar essa pluralidade de vivências foi o mote para a investigação levada a cabo por Ana Catarina Carvalho, doutoranda em Psicologia no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, e David L. Rodrigues, investigador no CIS-Iscte. O estudo foi recentemente publicado na revista ‘Sexuality Research and Social Policy’ e parcialmente financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Refs.: 2023.01784.BD e 2020.00523.CEECIND).

Ana Catarina Carvalho refere que “nos últimos anos, tem havido uma crescente visibilidade da assexualidade, através de ativismo e de comunidades online como a Rede para a Visibilidade e Educação Assexual (AVEN, do inglês Asexual Visilibity and Education Network)”. Apesar disso, a assexualidade continua sub-representada na investigação.

“As experiências das pessoas a-spec são muito diversas”, afirma o investigador David L. Rodrigues. De acordo com a literatura, as vivências de pessoas a-spec incluem: pouca ou nenhuma atração sexual; sentir atração sexual apenas após o estabelecimento de ligações emocionais profundas; e até experienciar níveis flutuantes de atração sexual. Da mesma forma, algumas pessoas a-spec podem sentir pouca ou nenhuma atração romântica, enquanto outras podem sentir atração romântica (com ou sem atração sexual). “Estas diferenças e nuances relacionam-se a perceções, sentimentos e experiências distintas dentro da comunidade assexual. Por exemplo, na forma como as pessoas interpretam e navegam por relacionamentos sociais e afetivos”, afirma o investigador.

No estudo realizado, 456 pessoas de diversas nacionalidades que se identificaram como a-spec, responderam a diversas questões relacionadas com a sua identificação com a assexualidade, a intensidade das suas atrações sexuais e românticas, e acerca de estilos de vinculação (i.e., a forma como as pessoas experienciam a intimidade e dependência emocional). Foram também exploradas as suas experiências prévias relativamente a relações passadas, para melhor compreender as suas vivências e preferências.

“Algumas pessoas assexuais podem necessitar de relacionamentos para perceberem e aceitarem a sua falta de atração sexual.”

De uma forma geral, os resultados indicaram uma forte identificação com a assexualidade. Pessoas com maior identificação com a assexualidade relataram ter menos experiência com parceiros românticos e sexuais. Paralelamente, pessoas que reportaram maior atração sexual e romântica reportaram ter tido mais relacionamentos. Ana Catarina Carvalho explica que “estes resultados salientam que algumas pessoas assexuais podem necessitar de relacionamentos para perceberem e aceitarem a sua falta de atração sexual, enquanto outras estão ainda a explorar os seus desejos e muitas vezes têm dificuldades em estabelecer relações por sentirem receio de assumir a sua identidade assexual a parceiros ou parceiras”. Quando analisados os padrões de vinculação, os dados indicam que um estilo de vinculação evitante estava associado a níveis mais elevados de identificação assexual e com menores níveis de atração sexual e romântica; foi ainda encontrada uma associação entre a vinculação ansiosa e a atração romântica e desejo por relações íntimas.

“Ter um vínculo afetivo evitante pode criar conflitos entre a identidade assexual e os sentimentos de atração romântica.”

A investigadora esclarece que os resultados observados vão de encontro a resultados prévios da literatura, acrescentando que “ter um vínculo afetivo evitante pode criar conflitos entre a identidade assexual e os sentimentos de atração romântica, levando algumas pessoas a temer a intimidade, evitar a proximidade e manter uma distância emocional com parceiros ou parceiras; paralelamente, um padrão de vinculação ansiosa nas pessoas assexuais pode estar associado ao facto de considerarem a possibilidade de ter relações íntimas no futuro e sentirem ansiedade devido a um medo de rejeição, que pode estar relacionado, ou não, com a incerteza do que a outra pessoa poderá esperar delas em termos da relação romântica e sexual”.

O estudo ressalva que as análises realizadas não estabelecem relações causais entre as medidas e que não foram considerados padrões de vinculação segura. Assim, a equipa de investigação alerta para não se assumir automaticamente que as pessoas a-spec tendem a evitar intimidade, sugerindo a necessidade de investigação adicional que explore estas questões ao longo do tempo. A equipa afirma no artigo que “os nossos resultados salientaram que a atração sexual e a atração romântica são experiências distintas que frequentemente coexistem (mas não necessariamente), dentro da comunidade”. Perceber que as pessoas a-spec têm experiências tão distintas “pode contribuir para melhorarmos o conhecimento da sociedade sobre esta comunidade, promovendo discursos de aceitação por parte dos media e do público em geral e, portanto, uma sociedade mais compreensiva e equitativa”, conclui a equipa do CIS-Iscte.

Pedro Simão Mendes (Comunicação de Ciência – CIS-Iscte).

© APImprensa

© 2025 Guimarães, agora!


Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!

Siga-nos no FacebookX e LinkedIn.
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.

Partilhe este Artigo:

Subscreva Newsletter:

Últimas Notícias:

Relacionadas:
Notícias

UMinho: Dava Newman, figura da engenharia aero-espacial em Guimarães

A Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM), acolhe, amanhã, Quinta-feira...

Investigadores desenvolvem tecnologia para criar ecrãs flexíveis que dobram e esticam sem se partir

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e...

Nova espécie de fungo descoberta em medronheiros portugueses

Investigadores da Micoteca da Universidade do Minho (MUM), em...

Computação Avançada: DST constrói centro nacional no campus de Azurém

A construtora bracarense DST anunciou, hoje, que está a...