A batalha dos brinquedos (versão 2.0)

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Ser pai, ou mãe, é uma experiência transcendental. Transcendental no sentido em que transcende a conta bancária, a paciência, o bom senso e, com alguma sorte, o Código Civil.

Foca-te no seguinte: o primeiro brinquedo. Um inocente brinquedo. O primeiro. Uma chocalhante promessa de entretenimento com selo pedagógico aprovado por um comité secreto de psicólogos infantis e marketeers desalmados que, suspeito, trabalham à comissão.

Depois vem o segundo brinquedo, o terceiro, o “só mais este que vi numa loja online às três da manhã quando estava a pesquisar fraldas mas acabei num site de importação da Coreia do Sul”.

E pronto. Estás metido até às orelhas na economia paralela dos brinquedos.

O teu filho já tem brinquedos que fazem barulho, luz, espuma, bolhas, sopa, milagres e até um que ensina mandarim, não vá a criança querer emigrar para Xangai aos 6 anos de idade. Há brinquedos que falam contigo. Há brinquedos que falam de ti nas costas. Há brinquedos que te olham com julgamento. 

E tu, como pai zeloso, chegas a uma fase da vida em que não sabes o que mais oferecer. Já ofereceste tudo. Desde puzzles de 4000 peças a um minilaboratório de física quântica para pré-escolares. E a tua criatura, esse pequeno ser de 3 anos que se alimenta exclusivamente de bolachas e caos, olha para ti com os olhos de quem diz: “Não tens mais nada?”.

Até que, um dia, vais buscá-lo à creche. Estás a pensar no jantar, numa reunião, numa possível crise existencial e em como é que tens trinta e tal anos e já te sentes com 78. E eis que a vês: O teu filho. A deslizar… numa trotinete.

Sozinho. Sem ajuda. Sem ti!

Como assim, sem ti? “Que raio?! Quem é este ser autónomo e equilibrado??? Como é que ele aprendeu aquilo? Será que já sabe andar de bicicleta e anda às escondidas?”, pensas tu, entre o orgulho e o pânico parental.

E é então que te lembras: ele não tem uma trotinete! MILAGRE!

Brilham-te os olhos. Sentes a adrenalina. Não de orgulho, mas de consumo. “Preciso de comprar uma trotinete!” pensas. “E se sabe andar numa trotinete… talvez também numa bicicleta! Melhor! Uma minimota elétrica! Podemos fazer passeios de domingo! Ah espera… ele tem três anos… talvez o Código da Estrada ainda não autorize”.

“Quem é que monta a casa da Patrulha Pata, ou da Gaby, vezes sem conta? Quem é que brinca com puzzles e faz pirâmides com cubos até teto só porque pode? Nós! Os Pais!”

Voltamos à trotinete. E aí surge a questão filosófica: de que cor? De cor azul para o miúdo? Mas isso não é estereotipado? E se ele preferir de outra cor? E se tu quiseres andar na trotinete dele? Porque, convenhamos, os brinquedos são nossos também! Quem é que monta a casa da Patrulha Pata, ou da Gaby, vezes sem conta? Quem é que brinca com puzzles e faz pirâmides com cubos até teto só porque pode? Nós! Os Pais!

Porque isto não é só sobre criar crianças. É sobre alimentar a nossa infância interrompida por boletins de vacinas e reuniões da creche. É sobre viver perigosamente através da compra impulsiva de material lúdico com entrega em 24 horas.

E no fim do dia, quando o teu filho te olha com ar inocente e diz: 

– Pai, posso levar a trotinete nova para a sala?

Tu respondes: 

– Sim, claro. Mas anda lá depressa, que eu quero experimentar antes do jantar.

A trotinete, que chega a casa como se fosse uma relíquia sagrada, anda, grita, roda. Duas vezes. Três. E depois? É encostada ao canto da sala.

E tu olhas para a trotinete ali encostada, já com um fio de pó existencial, e percebes que acabaste de gastar 65 euros para três voltas e uma nódoa negra no joelho dele e outra na tua dignidade.

Até que um dia… estão os dois a passear o cão. Tu, ele e o bicho que ladra a aspiradores. E apanhas uma flor do chão. Uma flor feia. Esfarrapada. Com ar de ter sido pisada por 14 crianças e um trator. E dás-lha. Assim, sem pensar. E ele… sorri. Fica maravilhado. Olha-te como se tivesses arrancado um arco-íris do céu só para ele. E nesse instante, tens a tua epifania. Ele reagiu à flor com a mesma alegria com que reagiu à trotinete! A mesma surpresa. A mesma felicidade. Zero euros. Nenhuma encomenda online. E nem precisaste de um tutorial no YouTube para montar absolutamente nada.

Percebes que talvez… talvez… não precise de existir esta guerra dos brinquedos. Que talvez não precises de iniciar o teu filho no mundo capitalista. Talvez estejas só a tentar encher com plástico um espaço que, afinal, se preenche com amor.

Um gesto. Um olhar. Uma flor. Funciona.

Pelo menos enquanto ele não tiver idade para te pedir o iPhone 34 Pro Max.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

© 2026 Guimarães, agora!


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