
São três da manhã. O silêncio reina. O mundo dorme – menos tu. Tu estás de cuecas, de joelhos, com a testa a bater na madeira do estrado, a tentar convencer uma criatura de noventa centímetros, franja torta e pijama com ursinhos, de que não há monstros debaixo da cama. Tudo normal, portanto.
E não é um “não há monstros” dito com firmeza científica, não. É um “não há monstros” de quem já não tem dignidade nem café. Porque, verdade seja dita, naquela hora, com aquela cara, se tu fosses um monstro, também não saías debaixo da cama. Estás a fazê-lo com os olhos semiabertos, hálito de iogurte antigo e a firmeza vocal de quem já bebeu o equivalente a meio litro de frustração.
A criança está aterrorizada. Tu também. Por razões diferentes. Ela tem medo do escuro. Tu tens medo que esta conversa dure até às cinco da manhã.
Chega a um ponto – e chega sempre – em que tu dizes:
– Está tudo bem, o papá está aqui.
Mentira. O papá não está aí. O papá está suspenso algures entre o abismo da consciência e o coma ligeiro. O papá já googlou “crianças com medo na cama à noite, o que fazer, preciso de ajuda” e clicou em fóruns com títulos como “Afinal o sono é um mito?”. O papá está a dois soluços de fazer amizade com um boneco da Patrulha Pata, e a dois “buhs” de um colapso nervoso.
E o problema nem é o monstro. O problema é que o monstro tem nome. E vida própria. Chama-se Pingo. Vive com um polvo chamado Zeca. E, aparentemente, odeia crianças que comem sopa, ou que têm pais com esperança de dormir antes do nascer do sol.
Isto não é imaginação, atenção. Isto é doutrina. O teu filho diz-te estas coisas com a convicção de um veterano de guerra. Ele sabe. Ele viu. Ele ouviu passos. E tu… tu, que em tempos foste uma pessoa respeitada, agora estás a tentar negociar com um polvo imaginário.
Inspecionas a cama. Abres gavetas. Falas com o Zeca. Ficas ali a negociar com entidades que, convenhamos, não têm NIF. E, no fim, prometes comprar uma lanterna mágica – sim, mágica – que afasta todos os bichos com nomes estúpidos. É este o teu plano parental. E sim, é válido.
“Um mundo onde tudo é possível, até os medos ganham forma, e os problemas vivem debaixo da cama, não dentro da cabeça.”
Mas a certa altura percebes uma coisa inquietante: tens inveja. Juro. Inveja de quem ainda vê o mundo assim. Um mundo onde tudo é possível, até os medos ganham forma, e os problemas vivem debaixo da cama, não dentro da cabeça.
Porque os teus monstros também não desapareceram; só mudaram de nome. Agora chamam-se prazos apertados, contas para pagar, culpa por não seres suficiente, ansiedade que te aperta o peito, e aquele silêncio pesado quando finalmente fechares a porta do quarto, questionando-te se estás mesmo a fazer isto bem.
Tu também tens inimigos invisíveis. Só que os teus não se chamam Pingo nem vivem no cortinado. Os teus monstros vivem dentro do peito, escondem-se na dúvida e atacam justamente quando pensas que podes finalmente descansar.
Por isso, da próxima vez que o teu filho te disser:
– Tenho medo do monstro…
Tu respiras fundo, sentas-te ao lado dele e, sem fingires que tens todas as respostas, respondes:
– Eu também. Mas estamos juntos.
Ficam ali, os dois. Assustados, vulneráveis, mas acompanhados. Porque, muitas vezes, não é preciso vencer o medo, domá-lo ou expulsá-lo. Basta não o enfrentar sozinho.
E se por acaso o tal Pingo estiver mesmo ali debaixo da cama, que entre. Mas que traga café.
E lembra-te: é assim mesmo. É normal. Todos passamos por isto. O caos, o medo, o cansaço. Os monstros com nomes ridículos. Os inimigos sem nome nenhum. Está tudo certo.
Se estás a fazer isto com amor, estás a fazer bem. Mesmo que estejas de joelhos, às três da manhã, a negociar com um polvo imaginário.
- Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!
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