“Porque é que o céu é azul?”

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Estava no recreio da creche, de pé, café frio no bucho e olheiras na alma, a fingir que sabia como se convive com outros pais. A minha criança estava ocupada, a comer uma bolacha, ou a desenvolver uma técnica própria de escalar baloiços pela parte errada. Tudo normal. E foi então que ouvi. Uma voz pequena, mas segura, cortando o ruído da manhã:

– Ó pai… porque é que o céu é azul?

Não era para mim. Era para outro pai, um homem distraído, imerso no seu próprio esforço silencioso para parecer minimamente funcional às 7h57 da manhã. Mas naquele instante, não era a ele que ela perguntava. Era ao universo inteiro. Era a todas as gerações de pais, mães, educadores, tios, avós e vizinhos do terceiro esquerdo. E, subitamente, também era para mim.

Fiquei paralisado. O pai, alvo da pergunta, encolheu os ombros e murmurou qualquer coisa que soou a um “já te explico”. Mas a pergunta já tinha sido atirada ao ar, como um avião de papel metafísico, que pairava ali no espaço entre a dúvida infantil e o mistério do mundo. E eu, que até achava que tinha o dia controlado, dei por mim a pensar: e se fosse comigo?

Se fosse uma das minhas filhas a perguntar? Estaria à altura? Saberia responder? Ou iria tropeçar entre “luz solar”, “partículas na atmosfera”, “ondas curtas” e, claro, “olha ali um pombo”?

Percebi que não tinha a certeza. E isso assustou-me. Não pelo céu – que é azul, e ponto final, viva o efeito Rayleigh, seja ele quem for – mas por tudo o que virá depois.

Porque se já me sinto inseguro com perguntas simples, o que faço quando elas me perguntarem porque é que há guerras? Porque é que as pessoas ficam tristes? Porque é que há meninos que não têm casa? Ou, mais tarde, porque é que ele me deixou? Porque é que ninguém me entende? Porque é que tudo parece tão difícil?

“E as respostas que damos são, muitas vezes, apenas pedaços de esperança embrulhados em palavras, tentando dar sentido a um mundo que, para nós, também é confuso e caótico.”

Estarei lá com a resposta certa? Ou ficarei calado, a olhar para o céu, a desejar que alguém me sussurre o que dizer? Porque a verdade é que nem sempre existe uma resposta simples. E as respostas que damos são, muitas vezes, apenas pedaços de esperança embrulhados em palavras, tentando dar sentido a um mundo que, para nós, também é confuso e caótico.

Na verdade, é isso que a pergunta de uma criança revela: não é sobre o céu. É sobre nós. Sobre a responsabilidade imensa de ser o tradutor do mundo para alguém. E isso, convenhamos, é tramado. Especialmente quando dormimos quatro horas por noite e vivemos com medo de falhar – mesmo que o falhanço se disfarce de silêncio, ou de uma resposta rápida e segura que não diz nada.

A pergunta ficou a ecoar no recreio, muito depois da criança ter corrido para os escorregas. O céu, aliás, continuava azul, firme e indiferente ao meu pânico parental.

Naquele momento, percebi que, talvez, o mais importante não seja sabermos sempre a resposta. Talvez seja termos a humildade de parar, olhar para cima e dizer: “Não sei bem, mas vamos descobrir juntos”.

E quando esse dia chegar, espero pelo menos estar de mão dada com as minhas filhas, de olhos postos no céu, dispostos a aprender. Mesmo que, no fim, elas se interessem mais em saber se podem comer gelado depois do almoço.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

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