O sofá não é para saltar! Ou será que é?

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Vamos começar pelo óbvio: o sofá não é para saltar. Ponto. É para sentar, deitar, vegetar em silêncio, enquanto tentas lembrar-te da última vez que viste uma série sem adormecer ao segundo episódio. 

O sofá, para quem não sabe – e há quem ande por aí a viver enganado -, é o último bastião da dignidade adulta. É o lugar sagrado onde se tenta equilibrar o caos da vida com um cobertor torto e um controlo remoto que nunca está onde devia estar.

É um altar da rendição silenciosa. Um trono de veludo gasto. Uma cápsula de resistência passivo-agressiva, onde se exercita o poder de decisão com frases como: “Vê tu o que quiseres, para mim dá-me igual”.

Ou melhor – era.

Agora, o sofá é outra coisa. É um trampolim com almofadas soltas, uma montanha escalável, um palco de danças caóticas e improvisadas, um hospital para bonecas com lesões crónicas e um forte de almofadas, onde se discute com seriedade se um polvo pode, ou não, ser médico.

O sofá deixou de ser “teu” no momento exato em que alguém com menos de um metro entrou na tua vida a dizer “uééé” e a destruir, sem pudor, tudo aquilo que julgavas sólido. Como o repouso. E o conceito de mobília.

A cama é partilhada, a casa de banho é pública (sobretudo quando tens filhos: estás no duche e aparece uma cabeça que te procura como um sonar), a cozinha é caos, e o carro é armazém de brinquedos, bolachas desfeitas e meias desaparelhadas. Mas o sofá… ah, o sofá! O sofá era teu.

O canto do sofá, o teu canto, aquele recanto gasto que moldou o teu corpo ao longo dos anos como um sapato velho molda o pé, era mais do que um simples assento: era um símbolo. O teu trono. A tua zona de comando. 

Dali vias jogos. Dali fazias scroll até adormecer. Dali roncavas com a boca entreaberta enquanto a televisão gritava desportos, ou debates que não seguias. Dali partias para o país das pestanas pesadas, embalado em digestões lentas e ressonares contidos.

Agora? Agora nem o cão te respeita. Tu levantas-te dois minutos – dois! – para ir buscar uma peça de fruta, que, ironicamente, nem é para ti, e quando voltas… está lá ele. O cão. Deitado. Estendido. No teu lugar. Com ar de quem já paga renda e deixou as chaves no aparador.

“Olhas para ele. Ele olha para ti. Há um silêncio. Um momento tenso. Quase se ouve uma harmónica ao fundo, como num western. Tu avanças. Ele espreguiça-se. Tu tosses. Ele boceja.”

Tu ficas ali, de pé, com a fruta na mão e a dignidade na outra divisão. Olhas para ele. Ele olha para ti. Há um silêncio. Um momento tenso. Quase se ouve uma harmónica ao fundo, como num western. Tu avanças. Ele espreguiça-se. Tu tosses. Ele boceja. E tu percebes: perdeste.

Não foi hoje que perdeste. Foi devagarinho, sem dares por isso. Um centímetro de sofá de cada vez.

Primeiro, foi a almofada do encosto, depois, o apoio de pés, depois, o controlo remoto que já só serve para as canções do Youtube. Depois, o canto. O teu canto.

Foi quando aceitaste ver as Princesas, ou a Patrulha Pata, com a mesma expressão estoica com que antes vias thrillers na televisão.

Foi quando te encostaste à pontinha do sofá, para que o bebé pudesse espreitar o que raio os adultos fazem ali sentados, com aquela autoridade de quem não quer ser interrompido – mas já foi.

Hoje, o sofá é zona franca. Zona de brincadeira, de birra, de lanche, de fraldas, de saltos. E tu, és o convidado. Convidado de honra, vá. Às vezes deixam-te o lugar do meio – aquele que afunda e te entala as costas – ou uma almofada no chão, com sorte.

E ainda há quem te olhe e pergunte porque estás tão calado hoje… estás, claro. Estás a contemplar a queda do Império.

O sofá já não é teu. Mas há momentos – raros, mágicos – em que se dá a reversão dos papéis.

De vez em quando, o bebé senta-se ao teu colo, com aquele ar de “aqui é que é”, e nesse instante, sim, és rei outra vez. Não do sofá. Dele. E talvez – só talvez – isso valha mais.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

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