Guimarães é hoje Capital Verde Europeia. O título convive bem com grandes planos, estratégias, compromissos internacionais e metas para 2030 ou 2050. Mas a transição ecológica não se decide apenas nos documentos que projetam o futuro. Decide-se, sobretudo, na forma como a cidade responde aos gestos mais simples do presente. Entre eles, o de caminhar.
Levo a minha filha à escola a pé. É um percurso curto, cerca de um quilómetro, numa zona central e movimentada da cidade. Não é uma escolha ideológica nem um gesto exemplar. É apenas o modo mais direto de ir de casa à escola. Em dias secos, o trajeto faz-se com alguma insegurança, mas sem grande sobressalto. Em dias de chuva, torna-se um exercício involuntário de atenção, desvio e cálculo.

Logo no acesso ao hospital municipal, a água acumula-se na via de entrada. A passadeira desaparece sob uma poça larga e profunda. Adultos, crianças, pessoas idosas, utilizadores do hospital: todos hesitam. Não há alternativa clara. Ou se pisa a água ou se contorna pela estrada, aproximando-se dos carros. A infraestrutura que deveria proteger quem caminha obriga, paradoxalmente, a sair do seu lugar de segurança.
Mais adiante, já nos fundos do Agrupamento Escolar D. Afonso Henriques, a água da chuva escorre do recinto escolar e é despejada diretamente sobre o passeio, mesmo ao lado da paragem de autocarro. Quem aguarda o transporte coletivo fica com os pés dentro de água. Quem passa a pé tem de escolher entre molhar-se ou invadir a faixa de rodagem. Nada disto é excecional. É apenas o quotidiano nos dias de chuva…
É também aqui que o discurso sobre mobilidade ativa começa a perder densidade. Fala-se em descarbonizar, em reduzir o uso do automóvel, em mudar hábitos. Mas caminhar – o gesto mais elementar, mais acessível, mais democrático – continua a ser tratado como residual. A cidade parece organizada para quem passa depressa, não para quem precisa parar, esperar ou simplesmente andar.
“Quem se desloca a pé é forçado a adaptar-se, a contornar, a ceder espaço. Quem se desloca de automóvel raramente percebe que algo está errado. O objetivo é a velocidade, o fluxo.”
Quando o espaço público falha nesses detalhes, não está apenas a criar desconforto. Está a produzir uma hierarquia silenciosa entre corpos. Quem se desloca a pé é forçado a adaptar-se, a contornar, a ceder espaço. Quem se desloca de automóvel raramente percebe que algo está errado. O objetivo é a velocidade, o fluxo. O problema fica no chão, invisível para quem não o pisa.
Caminhar exige uma cidade pensada à escala do corpo humano: do passo curto de uma criança, do equilíbrio instável de quem envelhece, da atenção redobrada de quem carrega sacos, guarda-chuvas ou mochilas. Quando essa escala é ignorada, caminhar deixa de ser um direito implícito e passa a ser uma tarefa que exige esforço adicional, resiliência e até coragem. Não por causa da chuva, mas por causa do desenho urbano.
É comum atribuir a persistência do automóvel às escolhas individuais. Mas quando caminhar se torna desconfortável, imprevisível ou inseguro, a escolha já foi feita antes do indivíduo decidir. Foi feita pela cidade. A mobilidade ativa não se promove com campanhas enquanto o espaço público continua a penalizar sistematicamente quem se desloca devagar.
Num contexto em que se fala de transição ecológica, estas pequenas falhas têm um peso político desproporcionado. Porque é nelas que o discurso encontra o corpo. Porque é nelas que se aprende, todos os dias, se a cidade está do lado de quem caminha ou apenas tolera a sua presença.
Talvez descarbonizar a mobilidade em Guimarães não comece por grandes obras ou sistemas complexos. Talvez comece por algo mais simples e mais exigente: garantir que, quando chove, uma criança consegue atravessar a rua sem sair da passadeira. Que esperar um autocarro não implica ficar com os pés dentro de água. Que caminhar não seja um ato de resistência silenciosa.
A transição, afinal, começa no chão que pisamos.
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