Google, o médico de plantão

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Tudo começou com uma comichão no cotovelo. Inofensiva. Um leve formigueiro. Normal, pensei. Talvez fosse do casaco novo, da água do duche, ou de uma irritação cósmica provocada por alinhar filhos, trânsito e contas num só dia. Até que – por impulso e porque estava com o telemóvel na mão (como sempre) — fui ao Google.

Erro número um. Escrevi: “comichão no cotovelo, causas”. Três segundos depois, já tinha nove diagnósticos possíveis, dos quais cinco eram terminais, dois envolviam parasitas raríssimos da Mongólia, e um exigia cirurgia imediata a sangue-frio. A comichão tinha passado. Mas agora tinha tremores, palpitações e uma súbita vontade de despedir-me do mundo.

O Google é o novo médico de família. Está sempre disponível, nunca falta, e dá-te uma resposta em milissegundos. O problema é que ele não tem filtro. Perguntas-lhe por uma borbulha e ele devolve-te um linfoma. Referes “sensação estranha na barriga” e ele lança-te para uma viagem de ida e volta pela doença de Crohn, gravidez ectópica, e ansiedade generalizada. Às vezes tudo ao mesmo tempo.

Tens uma dor de cabeça? Pode ser desidratação. Mas o Google sugere logo: Aneurisma, Síndrome Raro de Alguma Coisa com Nome Russo. E tu? Tu lês aquilo tudo com a cara de quem está a escrever o testamento no bloco de notas.

Há uma crueldade invisível no algoritmo: ele devolve-te o pior cenário primeiro. Porque, o que está mais clicado, é o mais dramático. E se o que aparece em primeiro lugar é “doença incurável”, tu não vais ficar para ler “pode ser só cansaço”. E de repente, estás a chorar no sofá, com um bebé ao colo, enquanto comes uma bolacha Maria com manteiga e pensas: “É assim que tudo acaba?”.

O Google não te vê. Não te ouve. Não sabe que dormiste mal, que estás com stress, que tens um bebé em casa e que o teu corpo não é uma máquina – é um milagre, avariado às vezes, mas com boa intenção. O Google não sabe que estás só a precisar de um chá e de um abraço, e não de um plano de eutanásia.

E depois há os fóruns. Meu Deus, os fóruns. Gente que teve uma unha encravada e agora vive no Alentejo com uma dieta líquida e uma história para contar. As pessoas que respondem são uma mistura de sabedoria popular, medo acumulado e uma fé inabalável nos supositórios de alho. Lês aquilo tudo com ar de antropólogo amador, e, pior, acreditas. Porque o pânico é um filtro potente: deita fora a lógica e fica só com o terror.

Mas no meio deste teatro de tragédias, também há conselhos preciosos. Tipo: “vai ao médico”. Ou o sempre útil: “fecha o Google e respira fundo”. E, é isso. Às vezes, só precisas disso – de parar. De respirar. De te lembrar que nem tudo o que arde é febre. Que o corpo fala, sim, mas o Google grita. E grita mal.

Agora imagina aplicar este sistema de loucura organizada ao teu bebé. Um ser que ainda nem sabe dizer “água”, quanto mais “tenho um peso estranho no ouvido direito”.

“A mínima tosse soa a pneumonia, a mínima borbulha parece varicela, e se a fralda vier com uma cor esquisita, já estás a ligar ao INEM em estado de pré-luto.”

É aí que a coisa descamba. Porque quando é com eles, o terror é de outra ordem. É nuclear. É medieval. Não há racionalidade, há instinto puro. A mínima tosse soa a pneumonia, a mínima borbulha parece varicela, e se a fralda vier com uma cor esquisita, já estás a ligar ao INEM em estado de pré-luto.

Google passa de “amigo de conveniência” a xamã psicótico, com gosto por te descrever doenças exóticas que provavelmente só afetam recém-nascidos em altitude, numa aldeia dos Andes. Escreves: “bebé com febre 37.8” e o algoritmo responde com uma espécie de exorcismo digital: meningite bacteriana, septicemia fulminante, Kawasaki (que nem sabias que era uma doença – pensavas que era uma mota).

Hoje, quando tenho uma nova dor, ou procuro perceber as causas de dores de terceiros, penso duas vezes antes de procurar. Às vezes escrevo, sim. Mas no bloco de notas. Ou digo à minha mulher: “Olha, se eu morrer esta semana, já sabes, foi do cotovelo”, e ela responde com um olhar de quem já teve noites em claro e sabe distinguir entre pânico e cansaço.

Por isso, se há coisa que esta aventura de pais nos ensina – entre biberões, febres e fraldas com tonalidades múltiplas – é a importância de canalizar a preocupação para os lugares certos. Porque sim, é legítimo preocuparmo-nos. É sinal de presença, de entrega, de amor até à medula. Mas a preocupação, quando mal direcionada, transforma-se num monstro com Wi-Fi.

O pediatra do teu bebé não está ali só para assinar atestados ou administrar vacinas. Está ali para ouvir, para esclarecer, para tranquilizar. Para dizer: “Isto é normal. Isto não. Vamos observar. Vamos agir”. É essa a bússola que te falta quando estás no caos da dúvida e no silêncio da noite. É esse o verdadeiro médico de plantão. Um que te olha nos olhos, que faz perguntas, que te diz o que o Google nunca vai dizer: “Está tudo bem. Pode dormir descansado esta noite”.

Ser pai também é isso: aprender a viver com pequenos sustos. A ter um termómetro na mão e um coração inquieto. A usar o Google – mas com moderação, como quem come batatas fritas ao jantar. Sabes que não faz bem, mas às vezes precisas.

No fundo, o verdadeiro médico de plantão também somos nós. E o amor. Que acalma, que observa, que pergunta “estás bem?” e fica ali, à espera da resposta. O cuidado não está em sabermos tudo. Está em sabermos onde procurar ajuda se não tivermos a resposta que gostaríamos, e em quem confiar quando o medo bate à porta. O Google pode dar diagnósticos, mas só quem ama sabe interpretar os sinais. 

É isto. Paternidade também é aprender a viver com a dúvida – mas com calma. Com atenção. Com amor. E com menos dados móveis.

E sim, continuo com a comichão. Mas agora acho que é só alergia ao Wi-Fi.

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