A mãe sabe tudo (e tem sempre razão, ponto final)

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Durante muito tempo achei que sabia umas coisinhas. Tinha lido livros. Visto tutoriais. Opinado em jantares. Usei expressões como “a parentalidade é uma viagem”, com a confiança de quem nunca tinha comprado um bilhete só de ida. Depois, tive uma filha. E depois, outra. E percebi, com uma humildade que só a exaustão ensina, que não sabia absolutamente nada. Zero. Mas havia alguém que sabia. Sempre soube. A mãe.

E quando digo “a mãe”, não me refiro à mãe arquetípica. Refiro-me à que está mesmo ali, à minha frente. De olheiras fundas, cabelo preso à pressa e instinto afiado como uma faca japonesa. A fazer malabarismo com as bebés ao colo, enquanto prepara um biberão com a mão esquerda, responde a mensagens com o nariz (porque as duas mãos estão ocupadas), e ainda me dá indicações – sem sequer desviar o olhar – sobre onde está o body de manga comprida que eu juro por tudo o que é mais sagrado que já procurei em toda a casa e que não encontro.

A mãe sabe que aquele choro não é “choro de fome”. É choro de cólica. Ou de fralda húmida. Ou de “estou aborrecida com a tua presença masculina e irrelevante”. A mãe sabe o que fazer com o umbigo, com o creme muda-fraldas, com os horários, com os avós, e com a tua ansiedade. A mãe sabe sempre que algo está diferente – mesmo que a diferença seja molecular. E quando tu achas que estás a descobrir uma pista revolucionária sobre o comportamento do bebé, ela já escreveu o relatório, com bibliografia incluída. A mãe não anda a “tentar perceber” – ela já percebeu. Mesmo quando diz que está só “a seguir o instinto”, tu sabes perfeitamente que o instinto dela é uma espécie de algoritmo divino calibrado com base em gerações de sobrevivência feminina.

Tu tentas dar uma opinião – sobre o sono, sobre as vacinas, sobre se está frio ou calor – e ela olha para ti com aquele misto de ternura e pena, como quem vê um cão a tentar falar. “Pois, amor. Mas eu acho que é melhor pôr-lhe o gorro.” Traduzido: cala-te e faz o que a mãe disse.

Há uma parte do cérebro das mães que é tipo radar militar. Está sempre ligada. Elas ouvem tudo, sentem tudo, adivinham tudo. O bebé respira diferente e elas já se levantaram. Tu nem ouviste nada. Aliás, estavas a sonhar que estavas a descansar. Que disparate. Elas têm sensores. Não sei onde ficam, mas desconfio que estão ligados ao coração – e esse, ao contrário do nosso, não tem botão de pausa.

E quando te enervas com alguma coisa – porque o bebé não dorme, porque não pega no biberão, porque está a fazer cocó de meia em meia hora, porque o carro está uma bomba de fraldas e brinquedos e há brinquedos que fazem barulhos sem ninguém os tocar – a mãe responde com a serenidade de quem já atravessou cem tempestades sem molhar o cabelo. 

– É normal. É normal. 

Três sílabas que, ditas por ela, valem mais do que todos os relatórios da OMS, os podcasts de parentalidade e os conselhos bem-intencionados da tua vizinha que tem um cão.

“Porque a mãe não discute para ganhar – a mãe fala para cuidar. E tu só percebes isso depois. Às vezes dias depois. Às vezes décadas.”

E a verdade é esta: a mãe tem razão. Sempre. Mesmo quando não tem. Porque a mãe não discute para ganhar – a mãe fala para cuidar. E tu só percebes isso depois. Às vezes dias depois. Às vezes décadas. Quando já estás a repetir os mesmos gestos, os mesmos suspiros, com os teus próprios filhos.

Um dia, no meio do caos, tentas ser o herói. Vestes o body ao contrário, enganas-te na dose do leite, pões a fralda com a parte adesiva virada para dentro. E ela, em vez de gozar contigo, arranja tudo em silêncio, com a paciência de quem te conhece há tempo suficiente para saber que a intenção estava lá. Dá-te um beijo na testa e diz: 

– Estás a aprender. 

Mas tu sabes. Sabes que aquilo era nível 0, e que só estás ali só a tentar não ser um fardo. E ela deixa-te tentar. Deixa-te errar. Deixa-te crescer. Porque também tem esse dom: de fazer de ti um pai melhor, mesmo quando não tens a certeza do que estás a fazer.

E um dia, mais tarde, o teu filho diz-te: 

– O pai é fixe, mas a mãe é que sabe.

E tu sorris. Porque é verdade. Porque ela sabe. Sempre soube.

E tu… tiveste a sorte de estar por perto.

E a verdade é esta: a mãe tem razão. Ponto final. Parágrafo.

E depois dá-te um tupperware com sopa, mesmo que tu digas que não tens fome.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

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