Clima e o consenso que nos paralisa

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Em Portugal, os grandes partidos, à esquerda e à direita, mantêm diferenças visíveis, mas partilham um consenso profundo: o progresso continua a ser medido pelo crescimento económico, sobretudo pelo PIB (a quantidade de transações comerciais). Esse entendimento molda de forma decisiva a formulação de políticas públicas e ajuda a explicar por que motivo, apesar do aumento de atenção ao tema ambiental, a resposta institucional à crise climática permanece limitada.

Imagem gerada por IA. © Direitos Reservados 

À direita, as políticas climáticas assumem-se principalmente como uma oportunidade económica. A transição energética é apresentada como um motor de inovação, competitividade e criação de novos mercados, mantendo o pressuposto de que o crescimento económico pode prosseguir sem comprometer o modelo existente. A crise climática é tratada como um desafio técnico e de gestão de riscos, não como um limite estrutural à economia.

À esquerda institucional, o tom enfatiza justiça climática e proteção social, conferindo maior visibilidade ao papel do Estado. Mesmo assim, estas preocupações surgem sobretudo como mecanismos de compensação dentro de uma economia orientada para o crescimento. O PIB continua a ser o principal indicador de progresso, e raramente se questiona se o próprio modelo económico é compatível com os limites ecológicos do planeta.

No domínio ambiental, as diferenças entre partidos tornam-se ainda menos significativas. Existe um alinhamento com metas europeias de neutralidade carbónica, aposta em energias renováveis e uma abordagem tecnocrática da crise climática. O problema é, na maior parte dos casos, formulado como um desafio técnico – reduzir emissões, aumentar eficiência, adaptar infraestruturas – e não como uma crise sistémica que exige escolhas políticas redistributivas e profundas.

Esta configuração cria um bloqueio estrutural. Ao subordinar os pilares ambiental e social ao crescimento económico, as políticas climáticas permanecem presas a uma contradição central: tentar resolver uma crise gerada pelo excesso de produção e consumo com mais produção e consumo. O resultado é uma ação gradual, muitas vezes insuficiente e vulnerável à pressão de interesses consolidados.

“Ao enfatizar limites ecológicos, redução do consumo material e justiça climática global, o movimento propõe não apenas políticas alternativas, mas uma redefinição do conceito de progresso.”

É neste contexto que o movimento climático assume um papel de relevância. A clivagem decisiva já não se mede pela esquerda ou direita parlamentares, mas pela aceitação ou rejeição do dogma do crescimento infinito num planeta finito. Ao enfatizar limites ecológicos, redução do consumo material e justiça climática global, o movimento propõe não apenas políticas alternativas, mas uma redefinição do conceito de progresso.

Num país vulnerável às alterações climáticas – com secas prolongadas, incêndios recorrentes e pressões sobre territórios e populações -, tratar o clima como um problema secundário constitui uma forma de adiamento político. A crise climática não é apenas ambiental; é social e económica. Reconhecê-la implica questionar consensos profundamente enraizados e deslocar o olhar para alternativas estruturais.

  • Nota: Este é um texto em duas partes sobre clima e política em Portugal. Na primeira parte, examina-se o consenso estrutural em torno do crescimento económico e as suas implicações para as políticas climáticas. Na segunda parte, publicada em continuidade, discute-se a influência do Presidente da República nas políticas para o clima, à luz das suas competências constitucionais.

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